Patrimônios históricos, estádios, áreas civis: com mil anos, Teerã sofre destruição para além de alvos militares; veja antes e depois

 

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Teerã nunca havia sofrido uma campanha de bombardeios tão intensa em um período tão curto. Os ataques aéreos coordenados entre Estados Unidos e Israel, que começaram há exatos 10 dias, atingiram o coração da vida civil, causando danos a hospitais, escolas e prédios residenciais, de acordo com a mídia estatal iraniana. Desde então, o Irã retaliou com uma ofensiva contra instalações americanas e israelenses em territórios vizinhos. Nesta segunda-feira, as Forças Armadas iranianas lançaram uma nova onda de ataques contra Israel e países do Golfo, na primeira ofensiva desde a escolha do aiatolá Mojtaba Khamenei como sucessor do pai, Ali Khamenei, líder supremo morto no primeiro dia de ataques.

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Ao longo desses 10 dias de conflito, mais de um terço dos pelo menos 700 locais atingidos em todo o Irã estavam situados em Teerã, de acordo com a organização sem fins lucrativos Ativistas de Direitos Humanos no Irã, que monitora a guerra.


O foco dos EUA e de Israel na extensa capital faz parte de uma estratégia de decapitação, que prosseguiu com a destruição de centenas de locais, incluindo um bunker subterrâneo na última sexta-feira, ligados às instituições militares e de segurança do Irã, todas controladas a partir de Teerã.

Exército israelense divulga imagens de ataque que destruiu bunker de líder supremo do Irã

Forças de Defesa de Israel (IDF)

“O bunker militar subterrâneo, localizado sob o complexo que abriga a direção do regime, no centro de Teerã, era utilizado pelo guia supremo como centro seguro de comando de urgência”, declarou o Exército israelense, em um comunicado, após o ataque.

Passo a passo da missão de ataque que matou Khamenei

Google Maps, Airbus/Soar Atlas e Arte O GLOBO

No dia seguinte, ao menos dois depósitos de petróleo foram atingidos por caças israelenses na capital, provocando uma chuva escura e oleosa e transformando o dia em noite, sob uma espessa nuvem de fumaça que encobriu o céu.

Depósitos de petróleo foram atingidos por caças israelenses na capital, provocando uma chuva escura e oleosa

Arash Khamooshi / The New York Times

Mas a campanha também atingiu locais de patrimônio cultural, estádios esportivos e atrações turísticas. O Palácio de Golestan, antiga residência real que remonta ao século XVI e Patrimônio Mundial da Unesco, foi danificado indiretamente por uma onda de explosões registradas na região, causada por ataques americano-israelenses, segundo informou a imprensa local nesta segunda-feira.

Palácio de Golestan, antiga residência real que remonta ao século XVI e Patrimônio Mundial da Unesco, foi danificado

Reprodução/Youtube | Reprodução/Redes sociais

Mais de 1.200 civis iranianos foram mortos no conflito, de acordo com ativistas de direitos humanos no Irã, mais que o dobro do número registrado na guerra de 12 dias com Israel em junho do ano passado. Os militares dos EUA e de Israel afirmam que não estão visando civis. Na última sexta-feira, o Comando Central dos EUA — que supervisiona a guerra — disse ter atacado centros de comando, quartéis-generais militares, sistemas de defesa aérea, a Marinha, locais de mísseis balísticos e centros de comunicações militares, entre outros alvos.

Imagem de satélite mostra fumaça saindo de uma base naval em Konarak, no sul do Irã. Os EUA e Israel lançaram um ataque de proporções sem precedentes contra o Irã em 28 de fevereiro.

Vantor / AFP

As imagens de satélite também mostram destruições em uma instalação de radar na base aérea de Zahedan, no leste do Irã, perto da fronteira com o Afeganistão e o Paquistão

Instalação de radar na base aérea de Zahedan, no leste do Irã

Reprodução/Vantor Tech

Os moradores de Teerã, uma metrópole de 17 milhões de habitantes, disseram que a cidade estava funcionando, mas esvaziada após um êxodo em massa de pessoas que tinham condições de sair e encontrar um lugar para morar. Aqueles que se aventuram a sair encontram as ruas de Teerã — normalmente congestionadas por um trânsito infernal — vazias em alguns bairros.

Na última quinta-feira, um ataque devastou o estádio Besat, que normalmente sedia jogos de vôlei. Posteriormente, agentes de segurança foram filmados caídos no asfalto, feridos, dentro do estádio, de acordo com vídeos verificados pela Storyful. Especialistas militares, ouvidos pelo pelo Wall Street Journal, afirmaram que o traje dos homens era compatível com o da chamada Força Especial Antiterrorista do Irã, que desempenhou um papel fundamental na repressão violenta contra manifestantes em janeiro.

Na noite de sexta-feira, o chefe de polícia do Irã, Ahmad-Reza Radan , ordenou que suas forças atirassem em saqueadores à vista. Caso “os policiais se deparem com ladrões, o confronto armado está previsto”, dizia a mensagem. Uma segunda mensagem dizia que a polícia havia tomado a “firme decisão de não apaziguar” os manifestantes, afirmando que alguns tinham “planos de matar”. A mensagem aconselhava as famílias a “cuidarem de seus filhos e adolescentes”.

Clérigos e voluntários da Guarda Revolucionária oram ao lado de escombros de uma delegacia destruída em ataques aéreos em Teerã

AFP

Teerã, de fato, nunca havia sofrido uma campanha de bombardeio tão intensa. Na década de 1980, o ditador iraquiano Saddam Hussein bombardeou cidades iranianas com caças e mísseis para pressionar o Irã a um cessar-fogo. Os bombardeios aéreos iraquianos sobre Teerã em 1986 mataram 422 pessoas ao longo de um ano. Durante outra campanha, em 1988, Teerã foi atingida por pelo menos 118 mísseis em 52 dias, matando centenas de pessoas.