Descoberta da 'Sala 80': HGV tinha local com equipamentos guardados enquanto equipes improvisavam atendimento, mostra sindicância
A descoberta da chamada “Sala 80” no Hospital Estadual Getúlio Vargas (HEGV), na Penha, Zona Norte do Rio — um espaço repleto de material e equipamentos médicos lacrados e sem uso —, desencadeou uma sindicância interna que revelou suspeitas de irregularidades na unidade. Funcionários denunciaram que a falta de insumos comprometia o atendimento de pacientes, apontaram falhas no controle de materiais usados em cirurgias ortopédicas e relataram até pagamentos feitos em dinheiro vivo, fora da folha. O hospital é administrado pela Fundação Saúde, empresa pública ligada à Secretaria estadual de Saúde (SES), que já recebeu o relatório final da investigação e avalia medidas a adotar.
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Nas últimas semanas, o governador em exercício, desembargador Ricardo Couto, realizou mudanças na cúpula da Saúde. O novo secretário Ronaldo Damião ordenou que os coordenadores avaliassem individualmente o desempenho de todos os funcionários. Ele também trocou a presidência da Fundação Saúde, que era comandada pelo médico ortopedista Paulo Ricardo Lopes da Costa, que ficou cerca de dez meses no cargo.
Material guardado
Antes de presidir a empresa pública, Costa foi diretor do HEGV por nove anos. As denúncias dos funcionários na sindicância abrangem o tempo em que ele esteve à frente da unidade e, por isso, a comissão encaminhou o relatório à SES.
A apuração começou com a descoberta da “Sala 80”, no corredor da Ortopedia do hospital. O local seria de responsabilidade da enfermeira Nivea Correia, coordenadora da Central de Material e Esterilização (CME). Ela decidiu não prestar depoimento na sindicância interna. No documento enviado à SES, a comissão de apuração diz que a profissional alegou que a investigação seria parcial. O GLOBO não conseguiu contato com ela.
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Na sala ficavam diversas caixas fechadas com material de cirurgia e socorro médico, como ambus — equipamentos manuais de respiração artificial. Nos depoimentos, uma enfermeira contou que quando trabalhou na emergência “enfrentou dificuldades relacionadas à disponibilizada de materiais permanentes, incluindo equipamentos ventilatórios, máscaras de alto fluxo e ambus”. Ela contou que “em algumas situações precisou utilizar luvas de procedimento acopladas ao ambu devido à falta de bolsa reservatória”.
Um colega, também em depoimento à comissão de sindicância, relatou ter sofrido os mesmos problemas. Ele detalhou que em “algumas ocasiões a situação comprometia a assistência”, chegou a haver “apenas um ambu disponível para 20 leitos” e esse único equipamento “precisava ser emprestado a outros setores”. O profissional contou que a situação melhorou após a abertura da sala descoberta.
“A partir desse momento, a situação foi regularizada, passando cada setor a contar com aproximadamente 12 ambus, o que aumentou de forma significativa a disponibilidade de insumos e reduziu os riscos assistenciais”, disse o funcionário, que trabalhava no Centro de Terapia Intensiva (CTI) da unidade.
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Em outro depoimento, um médico ainda contou que a falta de materiais adequados levava as equipes a improvisar para poderem prestar assistência aos pacientes. Em sua avaliação, esses procedimentos “comprometiam a segurança”.
O profissional explica que, “devido à escassez de material, foi necessário manter acessos venosos além do tempo adequado, o que configurava fato de risco para infecção de corrente sanguínea”. Segundo o documento, o médico “ficou surpreso e assustado” ao descobrir que na Sala 80 havia itens estocados sem uso pelas equipes.
Falta de inventário
Alguns profissionais ainda relataram que havia falta de controle dos materiais cirúrgicos retirados do almoxarifado da ortopedia do hospital. Em uma das salas anexas do espaço, segundo relatos, havia grande quantidade de Órteses, Próteses e Materiais Especiais (OPME), como parafusos e placas. Uma das pessoas que trabalhava no local contou que não era incomum médicos retirarem materiais sem registro formal, já que não havia inventário atualizado ou câmeras internas.
Na última década, o Getúlio Vargas, como outras unidades estaduais, foi administrado por Organizações Sociais (OS). Escândalos com essa forma de gestão na pandemia levaram deputados da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) a criarem uma lei ordenando que o governo estadual retomasse a administração de quase todas as unidades de saúde.
A SES então passou a usar a Fundação Saúde para gerir as Unidades de Pronto Atendimento (UPA) e hospitais da rede — como o HEGV, desde 2024. As contratações de funcionários são pela CLT.
Dinheiro vivo
Uma enfermeira que começou a trabalhar no tempo das gestões de OS contou que foi promovida e assumiu uma das coordenadorias. No entanto, pela Fundação Saúde, seu contrato de trabalho permanecia como de enfermagem, sem a gratificação oficial do cargo de chefia. Havia, no entanto, pagamentos em dinheiro vivo dentro do hospital.
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“Destacou que recebia, além do salário oficial de R$ 3,2 mil, adicionais de R$ 2,5 mil em espécie, pagos fora da folha na sala da Gerência da Enfermagem. Declara que este benefício também era estendido a outras áreas”, revelou a profissional no depoimento.
O ex-diretor da Fundação Saúde e do Hospital Estadual Getúlio Vargas Paulo Ricardo Costa promete entrar na Justiça.
— Sou médico e servidor do estado concursado há 25 anos. Atuei como diretor do HEGV por nove anos, onde minha administração foi pautada pela transparência e retidão. Jamais respondi a qualquer processo civil ou criminal, e me causam perplexidade essas falsas denúncias, que só podem ter partido de quem não tem credibilidade. Acionarei civil e criminalmente os responsáveis por essas calúnias e difamações — afirmou o ortopedista.
A Secretaria estadual de Saúde diz que as trocas no comando da Fundação Saúde não têm relação com a investigação interna do Getúlio Vargas. A pasta ainda afirma que a “a atual direção tomou conhecimento da apuração realizada no HEGV e está estudando os próximos passos”.
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