Desautorizado por Michelle, André Fernandes declara apoio a Ciro Gomes no Ceará: 'Quem mora aqui entende'
O deputado André Fernandes (PL-CE) anunciou em suas redes sociais, nesta quinta-feira, que irá apoiar o ex-ministro Ciro Gomes (PSDB) na disputa pelo governo do Ceará. A definição ocorre meses após a aproximação ter sido criticada publicamente pela ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL), que chegou a desautorizar o andamento das articulações conduzidas pelo parlamentar no estado. Ao comunicar a decisão, Fernandes afirmou que "toda ajuda é bem-vinda" para derrotar a gestão do PT, e avaliou que pessoas de fora do Ceará podem "não entender" a aliança.
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Para justificar a decisão, o deputado lembrou que já trocou críticas recíprocas com Ciro, e ponderou que as diferenças "sempre irão existir". Fernandes também frisou que já discordou "de tudo o que poderia discordar" do ex-ministro, mas defendeu não poder pensar somente em si.
— Toda ajuda é bem-vinda. Eu sei que tem gente que vai assistir a esse vídeo de fora do Ceará e não vai entender. Mas quem mora aqui entende e vai concordar comigo. O Ceará não aguenta mais quatro anos de PT. Dia 16, Ciro lançará sua pré-candidatura a governador, e eu vou estar junto — declarou.
No início deste mês, Michelle voltou a criticar Ciro. A ex-primeira-dama compartilhou um vídeo em que ele defende que o ex-presidente era um homem "quase doente" e "burro", com capacidade intelectual "curta". Para Fernandes, no entanto, a nova composição política significa a "coragem de agir" em nome dos cearenses.
— Não porque virei outra pessoa ou desisti das bandeiras que eu defendo, mas porque existe uma hora que você precisa escolher: ou fica na zona de conforto, em nome de uma suposta coerência, enquanto tudo ao seu redor vai abaixo; ou assume a responsabilidade de fazer o que precisa ser feito — completou Fernandes.
O pai do parlamentar, deputado estadual Alcides Fernandes (PL), divulgou o acerto. Cotado para ser candidato ao Senado, ele fez uma publicação nas redes com as fotos do filho, de Ciro e do senador Flávio Bolsonaro, este pré-candidato à Presidência: "time já está escalado", escreveu. A outra vaga ao Senado deve ficar com Capitão Wagner (União Brasil), e a vice com Roberto Cláudio (União Brasil), ambos ligados à direita bolsonarista.
Corrida eleitoral
O lançamento da pré-candidatura de Ciro irá ocorrer neste sábado (16), às 9h, no bairro Conjunto Ceará, localizado na capital Fortaleza. Na última segunda-feira, ele recusou o convite que havia recebido para disputar a Presidência pelo PSDB.
Conforme a última pesquisa Genial/Quaest divulgada no fim de abril, Ciro aparece à frente do atual governador Elmano de Freitas (PT), com 41% das intenções de voto em um eventual primeiro turno — contra 32% do petista. Em um segundo turno, a vantagem permanece: 48% contra 35%.
O tucano, no entanto, aparece atrás do ex-governador petista Camilo Santana, por 40% a 33%, em uma simulação na qual o ex-ministro da Educação dispute o Palácio da Abolição novamente — possibilidade que vem sendo rechaçada publicamente pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nos últimos meses. No segundo turno, Camilo aparece com 44%, enquanto Ciro marca 39%.
Crítica de Michelle
Ao divulgar o vídeo contra Ciro, Michelle escreveu: "E ainda há pessoas da 'direita' apoiando esse indivíduo". Na gravação, ele tece críticas a Bolsonaro em 2019, em entrevista ao canal do YouTube MyNews:
— Para a gente entender o Bolsonaro, temos que entender a psicologia de um homem quase doente — disse. — Por que o Bolsonaro tem esse ódio anti-intelectual? É porque ele é curto, a capacidade de raciocínio dele é abstrata. Ele é quase um burro, quase um jumento. Um cara imbecil mesmo — completou.
Não é a primeira vez que Michelle utiliza materiais do passado de Ciro para questionar uma eventual aproximação. Em dezembro, a ex-primeira-dama afirmou que não teria com ficar feliz "com o apoio à candidatura de um homem que xinga o meu marido o tempo todo de ladrão de galinha, de frouxo e tantos outros xingamentos".
"Eu jamais poderia concordar em ceder o meu apoio à candidatura de um homem que tanto mal causou ao meu marido e à minha família. Como apoiar (ou deixar de, caridosamente, admoestar quem apoia) um homem que foi responsável por implantar a narrativa que rotulou o meu marido como genocida?", afirmou à época.
Atrito suspendeu aliança
Antes disso, a primeira manifestação pública de Michelle ocorreu durante o lançamento da pré-candidatura do senador Eduardo Girão (Novo-CE) ao governo do estado. Àquela altura, a articulação era conduzida pelo deputado federal André Fernandes (PL-CE), presidente do diretório local do PL, que justificava ter tido o aval de Bolsonaro para buscar a composição com Ciro.
A declaração rendeu críticas dos filhos do ex-presidente. A primeira delas partiu do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência, que chamou Michelle de "autoritária".
— A Michelle atropelou o próprio presidente Bolsonaro, que havia autorizado o movimento do deputado André Fernandes no Ceará. E a forma com que ela se dirigiu a ele, que talvez seja nossa maior liderança local, foi autoritária e constrangedora — disse o senador ao portal Metrópoles.
Nas redes sociais, o ex-vereador Carlos Bolsonaro (PL-SC) chegou a dizer que a aproximação com Ciro, que deve concorrer ao governo do Ceará em 2026, foi feita com aval do ex-presidente. “Temos que estar unidos e respeitando a liderança do meu pai, sem deixar nos levar por outras forças”.
O ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL) repetiu os irmãos: "meu irmão Flávio está correto. Foi injusto e desrespeitoso com o André o que foi feito no evento. Não vou entrar no mérito de ser um bom ou mal acordo; foi uma posição definida pelo meu pai”. Dias depois, no entanto, Flávio pediu desculpas à Michelle, e, com isso, o PL decidiu suspender a aliança.
