Desafios da profissão de comissário de voo: assédio, passageiros agressivos e uma rotina cada vez mais difícil

Desafios da profissão de comissário de voo: assédio, passageiros agressivos e uma rotina cada vez mais difícil

Fonte: Bandeira



Avião, comissária de voo

Getty Images

Recentemente, um turista britânico de 30 anos, embriagado, tentou beijar um comissário de bordo em um avião.

Passou uma semana em Mallorca, na Espanha, e foi preso ao retornar ao aeroporto.

Em fevereiro, a Jet2 proibiu dois passageiros que exageraram na bebida de voarem pela companhia pelo resto da vida após uma briga durante um voo.

Na semana passada, a British Airways precisou cancelar um voo porque membros da tripulação ainda estavam bêbados após ficarem no bar do hotel.

Há uma ligação entre esses episódios, como diz Thomas, comissário de bordo de 27 anos, e não é só a bebida.

Segundo o The Guardian, a questão é o aumento do “air rage” (“fúria aérea”), um termo criado nos anos 1990, mas que descreve comportamentos agressivos, abusivos ou violentos, e que disparou após a Covid-19.


No Reino Unido, não são coletados números de incidentes, apenas de processos judiciais.

Mas a Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA) alerta que isso causa uma lacuna de jurisdição: algo que é ilegal no país da companhia aérea (como insultos racistas, por exemplo) pode não ser ilegal no país onde o avião pousa e, muitas vezes, pessoas presas ao desembarcarem acabam sendo liberadas sem responder a nenhuma acusação.


No mês passado, porém, o governo britânico discutiu com representantes da indústria a possibilidade de banir permanentemente passageiros abusivos de todas as companhias aéreas.

Atualmente, uma companhia pode aplicar um banimento vitalício, como o caso da Jet2, mas não pode compartilhar os dados do passageiro com outras empresas, permitindo que passageiros problemáticos comprem passagens em outra companhia, informou o The Guardian.

A bebida não é o único fator, mas desempenha um papel importante.

Uma funcionária de 26 anos, identificada como Clara, que trabalha há mais de dois anos em companhias aéreas de baixo custo, diz que, assim que os britânicos chegam ao aeroporto, começam a beber.

"Parece até que enxergam o avião como um lugar onde as pessoas deveriam consumir coisas.

Eles bebem como se nunca tivessem bebido antes.”

Há pessoas que se comportam como se estivessem em uma balada, segundo ela.

“Eles dizem coisas como: ‘Você é muito bonita’ ou ‘Nunca vi uma comissária tão bonita’; oferecem uma bebida, pedem seu Instagram.”

E as redes sociais abriram um novo campo para comportamentos invasivos.

Thomas conta que uma colega foi encontrada no Instagram por um homem que havia visto seu nome no crachá.

“Meu trabalho atrai assédio sexual e não tenho certeza se classificaria tudo o que vivi como agressão, mas é muito raro encontrar alguém, especialmente mulheres ou pessoas de aparência feminina, que nunca tenha sido assediada”, diz Emma, que trabalha há mais de uma década em uma companhia aérea considerada mais premium.

O Unite, sindicato que representa a maior parte dos tripulantes de cabine e reúne cerca de 30 mil mulheres no setor, constatou no ano passado que:

34% das mulheres sofreram agressão sexual no trabalho (incluindo funcionárias de solo);

67% passaram por cantadas, gestos ou comentários sexuais indesejados;

65% foram alvo de piadas sexualmente ofensivas;

55% sofreram toques inapropriados;

e 40% receberam ou foram obrigadas a ver imagens pornográficas mostradas por um gerente, colega ou terceiro, como um passageiro.


Funcionários, homens e mulheres, relatam sofrer assédio constante durante o trajeto de ida e volta do trabalho simplesmente por estarem usando uniforme.

Clara conta que sempre colocava um casaco por cima da roupa e trocava os sapatos por tênis.

"É impensável andar por aí de uniforme.

Todas as minhas colegas dizem a mesma coisa”, afirma.


Thomas relata também que a atitude dos passageiros em relação aos comissários muda bastante dependendo do sexo da pessoa, fazendo com que alguns se recusem a aceitar a autoridade de funcionárias mulheres.

Há, ainda, outras questões, como cigarro.

Houve um período de estabilidade em relação ao cigarro, quando todo mundo sabia que não podia fumar e nem tentava mais.

Então veio o cigarro eletrônico.Diversas pessoas acreditam que podem usar vape no banheiro do avião sem acionar o detector de fumaça.

Passageiros são presos constantemente ao desembarcarem depois de serem flagrados vaporizando.

Fora isso, o principal motivo de conflito é quando os passageiros se recusam a permanecer sentados quando recebem essa orientação.

E a razão pela qual isso gera tanta discussão é, em grande parte, econômica: se alguém cair durante a decolagem, o pouso ou uma turbulência, a companhia pode ser responsabilizada por uma lesão.

“Por isso precisamos dizer para as pessoas se sentarem”, explica Sergei.

“E precisamos ser firmes.

Isso pode criar um ambiente parecido com o do Exército.”

E quanto é bem na hora de um passageiro ir no banheiro? “Uma criança precisava muito usar o banheiro, mas o pai ficou tão irritado que mandou o filho fazer xixi em uma garrafa.

Quando desembarcaram, ele jogou a garrafa cheia de urina nos meus colegas.

Simplesmente arremessou para eles como quem joga alguma coisa para um cachorro, como se dissesse: ‘Toma, resolvam isso vocês’”, contou Clara.

Outro passageiro ficou tão furioso que urinou na porta da cabine.

E se engana quem pensa que o assédio vem só de passageiros.

Uma das respostas ao questionário do Unite sobre a dimensão da questão observava que ele vinha “principalmente de pilotos, passageiros ou durante o deslocamento para o trabalho”.

Se você pensar bem, isso significa “basicamente todo mundo”.

Comissários de diferentes companhias relatam que, quando sofrem assédio sexual ou agressão por parte de colegas, os gerentes simplesmente não fazem nada.

E as coisas podem ficar tão tensas entre membros da tripulação que eles chegam a se agredir enquanto o avião ainda está no ar.

Sergei, de 27 anos, que trabalha há quatro anos em uma companhia aérea de baixo custo, conta que precisou ser chamado de volta para um voo porque precisava separar o chefe de cabine e o subchefe daquele voo.

O trabalho é muito mais desgastante do que muita gente imagina, tanto física quanto emocionalmente.

“O jet lag, as jornadas que começam muito cedo ou terminam muito tarde e a pressurização da cabine afetam bastante o corpo”, disse Clara ao The Guardian.


E, para piorar a situação, algumas companhias pagam comissão pelas vendas feitas a bordo.

Isso faz com que os tripulantes comecem a disputar quem venderá determinados produtos.

Clara conta que já viu uma chefe de cabine ficar “tão ocupada vendendo perfumes que os pilotos precisaram arremeter” (quando uma aeronave interrompe o procedimento de pouso e volta a ganhar altitude).

“Isso custa milhares para a companhia aérea.

Aplicar potência máxima e subir novamente consome uma quantidade enorme de combustível.

Além disso, a companhia continua pagando pelo tempo extra de ocupação da posição de estacionamento no aeroporto.

As comissões realmente deixam as pessoas estúpidas.”

Outro fator é a deterioração das condições de trabalho.

Com os constantes cortes de custo, principalmente com a alta recente dos preços dos combustíveis, os comissários vivem sob pressão.

Algumas companhias aéreas trabalham, por exemplo, com uma meta de apenas 25 minutos entre o pouso e a decolagem seguinte, não sendo tempo suficiente nem para limpar o avião direito.


E os tripulantes já presenciaram os mais diversos tipos de comportamento: fraldas sujas, fezes espalhadas pelas paredes do banheiro, salgadinhos espalhados por toda parte e até urina deixada em protesto, como foi falado.

“Quando você convive de perto com todos os tipos de pessoas, percebe que existem pessoas realmente boas, mas também existem completos porcos imundos”, diz Thomas.