Derrotado no primeiro turno da eleição para o governo de São Paulo, Fernando Haddad (PT) afirmou neste domingo (4) que obteve 'grande resultado' com campanha de 'alto nível'. Com 90% das urnas apuradas, o petista tinha 36,8% dos votos válidos, contra 68,2% de Tarcísio de Freitas (Republicanos), que conquistou novo mandato de quatro anos no Palácio dos Bandeirantes. É a quarta derrota consecutiva de Haddad nas urnas. — Eu agradeço mais uma vez, agradeço a todo mundo que cerrou fileiras conosco. Nós fizemos um grande resultado, um resultado parecido com o que fizemos no primeiro turno de 2022. Foi uma eleição diferente, só tinham dois candidatos dessa vez, e isso estreitou um pouco as condições de a gente fazer ainda melhor — declarou ele, que deixou o evento sem falar com os jornalistas.
Haddad disse que o Brasil deu uma demonstração de que "é maduro e sabe respeitar as regras do jogo", em uma eleição em que uma onda de direita arrebatou as cadeiras do Senado, inclusive em São Paulo. — Enquanto o mundo se debate em torno dessas questões, a gente consolida um passo muito firme em relação às liberdades, em relação à soberania do povo e à soberania do país — afirmou. Ele relatou ainda que telefonou a Tarcísio às 19h11, quando teria desejado "o melhor para o nosso estado". E se colocou como oposição, "da maneira mais construtiva possível para melhorar as condições de vida da nossa gente". — Sigo na luta, como sempre, somos seres políticos e estamos aqui para tentar melhorar o Brasil, a nossa cidade e o nosso Estado. Sigo na luta pelas coisas que eu acredito, pelas coisas que eu acho que vão trazer mais bem-estar, mais igualdade de oportunidades, mais dignidade para as pessoas do nosso convívio. Esse país é um país que merece muito de nós, e tudo indica que vamos ter alguma luta pela frente, durante três semanas, para continuarmos debatendo — afirmou. O pronunciamento ocorreu no auditório de um hotel na Avenida Paulista, de onde acompanhou a apuração dos votos. Haddad estava acompanhado de Marina Silva, candidata ao Senado, e Márcio França, candidato a vice na chapa de Haddad. O local fica a 250 metros de outro hotel em que o presidente Lula monitora o resultado geral. Ao término da fala, o candidato se dirigiu ao outro espaço, junto com a equipe. Houve uma discrepância evidente entre os dois eventos, que refletiu, de certo modo, as pesquisas eleitorais. Enquanto correligionários e militantes se mobilizaram desde o começo da tarde no ato de Lula, a solenidade de Haddad permanecia praticamente vazia, exceto por membros do staff e jornalistas, até as 17h.
A baixa adesão era acompanhada por um sistema de som que não tocava músicas ou jingles e, durante vários minutos, por um telão de LED apagado. Integrantes da campanha alegaram, sob reserva, que o formato não se deu pelo clima antes da apuração, mas para manter um protocolo, e que um bom resultado seria angariar 40% dos votos válidos para ambos no estado. Haddad chegou ao hotel às 18h35, acompanhado da esposa, Ana Estela. Naquele momento, Flávio liderava por cerca de 10 pontos contra Lula, e Tarcísio, no estado, por 30. Os dois candidatos ao Senado apoiados pelo governador também apareciam à frente. Ele não falou com a imprensa e subiu direto para uma sala de reuniões, onde já estavam José Dirceu, Emídio de Souza, Carlos Zarattini, Dario Durigan e Marco Aurélio de Carvalho. O auditório seguia com apenas metade da lotação. Escolha do presidente Haddad concorreu novamente ao cargo contra Tarcísio a pedido de Lula, em razão da leitura da direção do PT de que seria o melhor candidato para oferecer um palanque competitivo no maior colégio eleitoral do país e reduzir a distância esperada entre o presidente e Flávio Bolsonaro (PL), aliado do governador. Ao longo de toda a campanha, porém, não conseguiu ameaçar concretamente o rival nas pesquisas. O petista apostou no desgaste de Tarcísio, um incumbente bem avaliado, em temas como a qualidade do serviço prestado pela Sabesp, os problemas nas concessões de linhas de trens e os desempenhos em saúde, educação e segurança pública. Ao mesmo tempo, procurou destacar feitos do governo Lula para os paulistas, desde políticas sociais a resultados econômicos. Mesmo com o desembarque de Lula no estado, com lançamento oficial de campanha em São Bernardo do Campo e duas carreatas na capital paulista nos últimos dias, Haddad chegou à véspera do primeiro turno com uma desvantagem de 24 pontos percentuais na pesquisa Quaest e 25 pontos na medição do Datafolha. Os dados se referem aos votos válidos, que excluem brancos e nulos da conta.
O ex-ministro da Fazenda também cumpriu os rituais finais do processo ao lado do aliado, nas primeiras horas do dia. Depois de viajar a São Bernardo do Campo, no ABC paulista, domicílio eleitoral de Lula, retornou à capital para votar num colégio particular de Indianópolis. Em entrevista pouco otimista, declarou que havia cumprido o seu papel e saía de “consciência tranquila”.
Esta é a quarta derrota consecutiva de Haddad nas urnas, e a segunda para Tarcísio, potencial adversário à Presidência em 2030. Antes, o professor universitário perdeu para João Doria, em 2016, na tentativa de reeleição como prefeito de São Paulo, e para Jair Bolsonaro, em 2018, ao assumir a titularidade da candidatura com o impedimento de Lula pela Justiça Eleitoral.
O Globo