Era pouco mais de 16h de segunda-feira, 26, um dia após a derrota para Lula, quando Flávio Bolsonaro divulgou um vídeo no qual criticava o ministro Alexandre de Moraes por recolher seu passaporte em razão de uma investigação no STF. “Eu nunca pensei em sair do país”, disse.
Pouco mais de 42 horas depois, no entanto, dois veículos cortavam a movimentada rodovia Interstate 95 (I-95), em Miami, em imagens mostradas por TVs americanas, levando o senador, esposa e duas filhas após o desembarque da família de um jatinho no aeroporto executivo de Opa-Locka, no mesmo condado de Miami-Dade.
Foi o desfecho de uma saga, que incluiu passagens por Argentina e Equador, e deixou um rastro de questionamentos, não apenas em relação à decisão, mas sobre o seu impacto para a direita brasileira, que saiu das urnas com quase 60 milhões de votos e agora não sabe exatamente para onde ir.
Politicamente, Flávio não deixou pouca coisa para trás. Além da votação expressiva, que o habilitava a liderar a oposição, o seu PL fez a maior bancada da Câmara (121 deputados), terá a maior do Senado (28 de 81 senadores) e foi a legenda que mais elegeu governadores (seis).
O partido cresceu no vácuo da família Bolsonaro, e o desafio posto é como se afastar gradativamente do clã sem que isso soe como deslealdade. NOVO LAR - O ex-presidenciável chega a Miami com a família: promessa de vistos pelo governo americanoRicardo Arduengo/AFP
Traição, no entanto, é o sentimento hoje entre muitos dos aliados de Flávio, que ficaram perplexos com a decisão. Já em solo americano, o Zero Um emitiu uma “carta à Nação” na qual atacava a decisão de Moraes, reafirmava a acusação de fraude eleitoral (mais uma vez, sem provas) e se apresentava como “verdadeiro presidente eleito”.
A versão brasileira do venezuelano Juan Guaidó, que em 2019 se declarou “presidente interino” de seu país, não durou muito. Diante da má repercussão, Flávio editou a nota e trocou o termo “presidente eleito” por “líder do Brasil”.
Manteve o pedido para que a comunidade internacional não reconheça a reeleição de Lula e anunciou que vai liderar a oposição a distância, citando o próprio Guaidó e, no auge do delírio, até o general Charles de Gaulle, que da África chefiou a resistência francesa ao nazismo. “Nos próximos dias, vou me dirigir regularmente ao povo brasileiro, e apresentaremos uma estratégia para mobilizar a oposição e o imenso apoio popular que temos”, escreveu.
CONSELHEIRO - O ex-deputado Eduardo Bolsonaro grava vídeo no Texas: autoexílio desde março de 2025@bolsonarosp/Instagram Continua após a publicidade
A carta provocou desconfortos generalizados entre aliados, incomodados com a postura de não reconhecer a legalidade eleitoral. “É um desabafo de alguém que está se sentindo injustiçado”, tentou amenizar o coordenador da campanha, senador Rogério Marinho (PL-RN).
Já o governador reeleito de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), foi mais direto ao ponto crucial da manifestação psicodélica: “A eleição acabou e agora é preciso olhar para a frente. Entendo o sentimento de Flávio, sua indignação e sua revolta, e esse sentimento é o de muitos brasileiros.
Mas o caminho é respeitar o resultado das urnas e seguir em frente”. HERDEIROS - O ex-presidente com Jair Renan e Carlos: o primeiro será deputado e o segundo, senador@bolsonaro_jr/Instagram
As palavras de Tarcísio são um sinal eloquente do início da tentativa de tirar a direita da dependência dos Bolsonaros. O governador era tido em 2025, por boa parte dos partidos de centro e direita, como uma opção melhor para enfrentar Lula, mas acabou acatando a decisão de Jair Bolsonaro de optar pelo filho.
Agora, já reeleito, Tarcísio tem liberdade para se colocar como alternativa ao Palácio do Planalto para 2030. No dia em que o ex-presidenciável estava indo rumo aos Estados Unidos, o governador postou um vídeo em que repete seis vezes que “a eleição passou” e divulgou uma série de propostas que classificou de “projeto de país”.
Continua após a publicidade NA TELA - Jim Caviezel como Bolsonaro em Dark Horse: filme sob investigaçãoGo Up Entertainment/Divulgação
De fato, a má repercussão entre aliados mostra que a derrota de Flávio e o subsequente autoexílio abrem uma nova etapa para a direita. A união das legendas desse campo será testada agora pela força do campo gravitacional do novo governo Lula.
União Brasil, PP, PSD, MDB e Podemos reconheceram a vitória do petista e, já seduzidas pelos acenos de Lula e honrando a tradição de aderirem ao governo da vez, seja ele qual for, sinalizaram apoio à reeleição dos chefes da Câmara, Hugo Motta (Republicanos), e do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil), em movimento que pode isolar o PL nas duas Casas.
Caciques alinhados com Flávio, como Antonio Rueda, presidente do União Brasil e deputado eleito, mostraram discordância pública. Em nota, Rueda afirmou que a soberania popular se manifestou livremente nas urnas e é hora de unir o país em torno de uma agenda comum.
Deputado reeleito, Marcos Pereira, presidente do Republicanos, parabenizou Lula ainda no domingo. “O novo mandato traz a responsabilidade de governar para todos os brasileiros, inclusive os que votaram em Flávio Bolsonaro”, afirmou.
Outros partidos, como o PSD, presidido por Gilberto Kassab, também reconheceram o resultado do processo eleitoral e sinalizaram algum entendimento com Lula. Kassab afirmou que os parlamentares e governadores eleitos pela legenda deverão manter uma relação republicana com o governo.
Os presidentes do MDB, Baleia Rossi, e do Podemos, Renata Abreu, que também caminharam com Flávio no segundo turno, apontaram para a necessidade de cooperação com o governo Lula baseada em uma agenda comum. Continua após a publicidade
ALVO - Operação da PF contra Willer Tomaz: inquérito no STF levou à apreensão de passaporte de FlávioReprodução; Gabriela Biló/Folhapress/. As manifestações públicas ainda não respondem à principal questão: se os partidos tradicionais da centro-direita buscarão uma candidatura independente da família Bolsonaro.
Kassab diz que o resultado das urnas consolidou um quadro político dividido em três: o PL à direita, o PT fortalecido na esquerda e um grupo de partidos de centro que conserva expressiva representação parlamentar. Para ele, o PL não ficará menor com a ausência de Flávio.
“Todo partido é feito por um conjunto de lideranças. Na democracia, tem a troca de bastão: chega um, sai outro”, afirma.
Partido de direita que proporcionalmente mais cresceu na Câmara (passou de cinco para dez deputados), o Novo acredita que o seu campo terá dificuldade no Parlamento. “Não existe isso de que a direita cresceu e agora é maioria no Congresso.
Não é verdade. A maioria hoje da Câmara é do Centrão”, entende a deputada eleita Marina Helena.
O grande nó da equação, por ora, é o quanto a derrota de Flávio e o seu autoexílio ferem o potencial do clã Bolsonaro para liderar o campo político conservador no país, como faz desde 2018, quando Jair Bolsonaro chegou ao poder canibalizando toda a direita tradicional. Agora, apesar dos milhões de votos conquistados por Flávio na eleição, tudo parece mais nublado.
O patriarca da família está em prisão domiciliar, condenado a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado. A sua liberdade dependia em grande parte do sucesso eleitoral do filho.
Eduardo Bolsonaro, que chegou a ser o deputado federal mais votado da história, foi o primeiro da família a se autoexilar nos Estados Unidos, em março de 2025, de onde iniciou uma campanha contra autoridades brasileiras. Ficou sem mandato e não pode voltar ao Brasil, porque tem contra ele um mandado de prisão após condenação por tentativa de obstrução da Justiça.
Sem os três nomes politicamente mais pesados do clã, a vitalidade do sobrenome vai depender do improvável. Na eleição, quatro Bolsonaros chegaram ao Congresso, mas dois deles — o filho do ex-presidente, Jair Renan, e o irmão, Renato Bolsonaro — têm pouco punch político para se destacar em Brasília.
Carlos Bolsonaro, o filho Zero Dois, tem um caráter reservado e é pouco afeito a articulações políticas. Continua após a publicidade
NO PÁREO - Tarcísio de Freitas e o ex-candidato do PL: reeleito, o governador de São Paulo vira opção ao Planalto para 2030Miguel Schincariol/AFP Mas há pelo menos um sobrenome Bolsonaro que pode se aproveitar do vácuo deixado por Jair, Eduardo e Flávio.
A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro foi a senadora mais votada da história do Distrito Federal e deverá se posicionar como a mais forte entre os parentes de Jair que terão cargo a partir de 2027. Figura carismática, com projeção nacional e popularidade entre as mulheres de direita e no eleitorado evangélico, a ex-primeira-dama tem uma relação tumultuada com os enteados.
O episódio mais notável foi o vídeo no qual acusava Flávio de tê-la desrespeitado. Depois, anunciaram as pazes, mas Michelle não participou de um ato sequer de campanha de Flávio.
No dia em que ele foi derrotado, ela festejava a vitória de sua aliada, Celina Leão, ao governo do Distrito Federal. Quando Flávio rumava para os Estados Unidos, Michelle teve um encontro, cheio de sorrisos, com o presidente do PL, Valdemar Costa Neto.
Com quatro anos de mandato até 2030, não é improvável que a senadora, que já aparecia bem como presidenciável em 2025, ganhe musculatura para tentar um voo maior. A encruzilhada em que a direita se encontra neste momento vai depender em grande parte do vácuo que a ausência de Flávio deixará e da capacidade de outros líderes à direita de ocuparem esse espaço.
Michelle e Tarcísio, com mandatos importantes, certamente estão credenciados a representar esse campo. O governador de São Paulo, que tem o apoio de setores expressivos da política e da sociedade insatisfeitos com os anos de gestão petista, terá de se equilibrar em trilhar o seu caminho sem romper com o eleitorado bolsonarista.
“Tarcísio pode convencer um eleitor moderado como alguém à parte dos enroscos do clã Bolsonaro, mas não pode trombar com a família”, diz Glauco Peres, professor de ciência política na USP. Uma possibilidade é a aliança entre Michelle e Tarcísio, algo já cogitado em 2025, inclusive por Valdemar.
“A evasão de Flávio gera desconfiança e enfraquece seu discurso. Michelle não conta com o mesmo apoio do clã, e os outros familiares têm projeção muito mais tímida junto ao eleitorado”, diz Marco Antonio Teixeira, cientista político e professor de gestão pública na FGV.
Continua após a publicidade AFINADOS - Valdemar e Michelle: encontro no dia em que Flávio deixava o paísBeto Barata/PL/.
Há ainda a possibilidade de nomes da direita não bolsonarista ganharem espaço, como Renan Santos, que chegou em quarto lugar no primeiro turno, com 2,24% dos votos válidos, pelo Missão, o mais novo partido do ecossistema político brasileiro. “Renan demonstrou uma grande força para mobilizar o eleitor jovem, mas não para romper a barreira da polarização”, avalia o cientista político Juan Carlos Arruda, diretor-geral do Ranking dos Políticos.
Um fator que pode favorecer uma outra via é a saída de Lula da disputa — o presidente, cuja popularidade ultrapassa em muito a do próprio PT, é considerado o fator polarizador, que força rivais a investirem no arquétipo “anti-Lula” para ter chance de sucesso. “A ausência de Lula nas urnas abre espaço para alternativas menos polarizadas, contanto que a candidatura seja construída desde já.
O próprio Jair Bolsonaro começou a se projetar nacionalmente anos antes de romper a hegemonia PT-PSDB em 2018”, diz Marcelo Vitorino, consultor em marketing político. Levantamento recente da Quaest mostra que a direita é maioria no eleitorado (39% se dizem desse espectro ideológico), mas apenas 15% se dizem bolsonaristas.
<span class="hidden">–</span>./. Nem só a política pode definir os rumos da direita após a derrota eleitoral.
Ao viajar para os Estados Unidos, Flávio deixou para trás não só aliados perplexos, mas uma série de enroscos policiais e judiciais com potencial para causar danos não só eleitorais. Um deles é o inquérito que investiga sua relação com o advogado Willer Tomaz, alvo de apurações por lavagem de dinheiro.
A Polícia Federal apura se Flávio é sócio oculto do advogado, o que o senador nega. Foi na investigação relativa a esse caso que Moraes determinou a apreensão do passaporte do senador — decisão tomada sete minutos após o resultado da eleição, sem consulta à PGR.
Willer fugiu para os EUA às vésperas do segundo turno e também está em Miami. Ainda paira sobre Flávio a investigação em torno do financiamento do filme Dark Horse, uma cinebiografia de seu pai, que recebeu milhões de reais de Daniel Vorcaro, do Banco Master.
A saída de Flávio do país pode criar um constrangimento internacional com o governo Donald Trump, caso haja algum mandado de prisão contra o senador. A gestão trumpista, em especial o secretário de Estado, Marco Rubio, é aliada de Flávio, com quem esperava praticamente fechar a “onda azul” que varreu a América do Sul nas últimas eleições.
O mandatário americano anunciou que Flávio e sua família são bem-vindos e declarou estar desconfiado da lisura do pleito brasileiro. “Vocês viram aquilo? Não foi nada legal.
Eu não tomei partido, mas aquilo não pareceu nada bom”, disse. Ele, no entanto, ressalvou gostar de Lula e disse que não iria intervir no pós-eleição ao ser questionado sobre a carta de Flávio.
“Bem, não vou comentar isso, mas sei que demos a ele autorização para entrar no país, então vamos ver. Mas não vou me envolver nisso”, afirmou.
TRIO - Antonio Rueda, Marcos Pereira e Ciro Nogueira: Centrão monitora a crise@marcospereira1010/Instagram Considerado um candidato fácil de ser batido na disputa presidencial, até pelos aliados à direita, Flávio Bolsonaro surpreendeu na eleição e poderia ter saído dela muito maior do que entrou, reunindo credenciais para guiar os passos da direita rumo a 2030.
A declaração dele recusando-se a reconhecer a vitória de Lula e a fuga para Miami o desmoralizaram junto aos aliados e a boa parte de seus eleitores. A direita terá agora de se reinventar no Brasil, a partir de novas lideranças.
Combater sandices como as da carta de Flávio e outros pendores antidemocráticos foi o primeiro passo essencial. Publicado em VEJA de 30 de outubro de 2026, edição nº 3019
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