Enquanto o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), articula sua recondução à Presidência da Casa e inicia os acordos para divisão de espaços na Mesa Diretora e pautas de interesse das bancadas, o Partido Liberal (PL) ainda lida com a “ressaca” da derrota de Flávio Bolsonaro e é escanteado das negociações.
Parlamentares da sigla afirmaram ao Valor que o clima ainda é de digestão do resultado das urnas e a bancada ainda não conversou sobre composições. “É uma tragédia.
Toda a vitimização que ele sofreu, ele tingiu negativamente com essa carta mal redigida, com erros grosseiros. Sinceramente, atrapalha toda a direita, desmoraliza, atribui a ele a palavra golpismo quando ele é quem estava sendo uma vítima e dá argumentos à esquerda”, avalia um deputado bolsonarista.
A legenda que conquistou a maior bancada na Câmara – e após o primeiro turno já calculava os espaços que teria direito no Congresso – agora se recupera de um baque, enquanto o Centrão e a esquerda se unem e articulam, isolando o PL. Reforma eleitoral
Entre os acordos que já estão em andamento, está o avanço da reforma política e do voto distrital misto. A proposta é uma defesa antiga de alguns caciques do Centrão, como Gilberto Kassab, presidente do PSD.
O líder do partido, deputado Antonio Brito (PSD-BA) foi o primeiro a declarar apoio à Motta e as mudanças nas regras eleitorais fazem parte do acordo para a composição. A sigla foi também a única do Centrão que não declarou apoio a Flávio Bolsonaro no segundo turno das eleições.
A proposta de reforma eleitoral é vista com ressalvas por alguns quadros do PL. Isso porque atualmente, as eleições para cargos do Legislativo seguem o sistema proporcional, no qual os votos recebidos pelos partidos e candidatos são considerados no cálculo das vagas que cada legenda pode ocupar.
Nesse modelo, o fenômeno dos chamados “puxadores de votos”, candidatos com desempenho expressivo nas urnas, contribuem para eleger outros nomes da mesma legenda. É o caso, por exemplo, de Nikolas Ferreira (PL-MG) e Lucas Pavanato (PL-SP), que tiveram individualmente mais de 3 milhões de votos.
Motta articula reeleição Enquanto os bolsonaristas ainda amargam a derrota presidencial depois do clima de êxtase após o primeiro turno – quando Flávio Bolsonaro ficou na frente – Motta já tem o apoio de 15 partidos e já colhe os pleitos de cada sigla.
A aliança reúne Republicanos, PSD, MDB, Podemos, PSB, PDT, Federação PT-PCdoB-PV, Federação União Brasil-PP, Federação PSDB-Cidadania e Federação PRD-Solidariedade. Já na bancada do PL ainda não houve nem conversas internas sobre compor ou não com Motta.
“Sobre Mesa e eleição na Câmara vamos começar a conversar na terça-feira da próxima semana. É cedo pra falar qualquer coisa sem ouvir a bancada [sobre compor ou não com Motta]”, disse o líder do partido na Casa, Sóstenes Cavalcante (PL-RJ).
“Em relação à reforma política, nós somos contrários ao voto distrital”, declarou. O tom entre parlamentares da bancada é de que ainda há muito tempo até a eleição da Mesa Diretora e é preciso respeitar o tempo de absorção da derrota.
“O PL pode até entrar no bloco do Centrão. Até lá ainda tem tempo para compor, não é a hora.
A eleição presidencial acabou tem uma semana, uma eleição que deixou marcas. A da Câmara ainda faltam três meses”, disse um quadro do partido.
Como o Valor mostrou, alguns nomes expressivos dentro da bancada do PL passaram a defender após o primeiro turno das eleições presidenciais que Motta não tivesse o apoio do partido para se reeleger, já que declarou apoio a Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Na avaliação de um deputado do PL, havia um quadro “de muito favoritismo do PL” nas eleições presidenciais e com a conquista da maior bancada na Câmara.
“Por isso Hugo começou as articulações bem antes do desfecho do segundo turno, porque ele leu corretamente que se Flávio ganhasse, as chances dele referendar o nome de Hugo seria bem menor do que um nome alternativo”, explica. A avaliação é de que, quando o desfecho da eleição presidencial foi a vitória de Lula, houve um avanço e consolidação das articulações e uma candidatura de Motta vinculada ao governo Lula.
“Toda essa cicatriz complicou as conversas e há uma situação de isolamento real do PL. Hoje Hugo é o favorito e a força isolada da bancada do PL não ameaça sua reeleição”, ressalta essa fonte.
Para parlamentares do partido, no entanto, isso não impede que o PL tenha espaços na Mesa Diretora e o partido seguirá pleiteando a primeira vice-presidência. Apesar da ala anti-Motta na bancada do PL, uma parcela dos deputados mais alinhada ao presidente do partido, Valdemar Costa Neto, defende a composição com o atual presidente da Câmara.
O apoio do Republicanos a Flávio Bolsonaro no segundo turno das eleições, inclusive, teria passado por uma sinalização do dirigente partidário ao presidente do Republicanos, Marcos Pereira, de que o PL apoiaria a recondução de Motta. Já parlamentares do PT, defendem que o partido não participe do bloco.
“No PT nós acreditamos que não dá para ter uma composição de bloco com o PL. Lógico que pelo tamanho da bancada, eles vão participar da Mesa.
Mas compor como bloco, aí não dá. Tem um simbolismo grande a gente compor bloco com eles”, afirmou um deputado petista.
De acordo com ele, a entrada do partido de direita no bloco do Centrão é prejudicial inclusive para essas siglas. “Se PL entra, por ter proporcionalmente a maior bancada, tira espaços dos próprios partidos do Centrão”, avalia.
Caciques do Centrão, no entanto, afirmam que não há “portas fechadas” para negociações com o PL. “Nenhum partido político pode ser alijado do processo de articulação, especialmente um que conquistou uma bancada expressiva.
O PL terá espaços e não será excluído da discussão”, avalia um líder de um partido do centrão.
Valor