Democratas apresentam resolução na Câmara contra a Doutrina Monroe citando show de Bad Bunny
Deputados da ala progressista do Partido Democrata apresentaram uma resolução legislativa na terça-feira para que Washington encerre a política conhecida como Doutrina Monroe — a conhecida linha de política externa dos EUA para a América Latina e o Caribe, cuja reembalagem pelo presidente Donald Trump recebeu o apelido de "Doutrina Donroe" — e reestabeleça uma abordagem cooperativa com a região. A iniciativa, proposta originalmente em 2023, volta a ser apresentada pelos democratas em um momento em que os EUA expandem suas ações por todo o continente, e que políticas anti-imigração do presidente preocupam estrategistas políticos republicanos quanto ao humor do eleitorado latino.
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A resolução, que propõe a substituição da Doutrina Monroe (descrita como uma política de vigilância e intervenção) por uma política pautada na melhora das relações batizada de "Novo Bom Vizinho", tem o apoio de 18 parlamentares. Com minoria na Câmara, é improvável que a proposta seja aceita — o que não diminui o ato enquanto posicionamento político.
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A deputada Nydia Velázquez (Nova York), democrata de origem porto-riquenha e principal propositora da medida, reintroduziu o projeto citando o cantor Bad Bunny — que voltou aos holofotes políticos dos EUA com a apresentação no intervalo do Super Bowl, que irritou Trump. Ela usou a frase projetada por Bunny em no telão do estádio na Califórnia ("Há algo mais poderoso que o ódio, que é o amor") e citou o cantor como um exemplo da medida.
— Nós assistimos ao show do intervalo, e que declaração política fez 'Benito'. Aquele mundo de paz e oportunidades para todos é possível. Precisamos colocar nossos esforços nisso, e acredito ser muito oportuno estarmos apresentando essa resolução logo após a performance de domingo — disse Velázquez. — Ele está muito certo ao lembrar Donald Trump e o movimento Maga ("Faça os EUA Grandes Novamente") neste país: Somos todos América. Isso é todo um Hemisfério. E, inclusive, muitas das crises que estamos vendo em alguns países são resultado direto de políticas intervencionistas.
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A chamada Doutrina Monroe, atualizada pelo presidente americano Donald Trump em um documento de estratégia militar e diplomática no ano passado, foi proposta pelo presidente James Monroe em 1823. Essa doutrina estabelecia o direito de Washington se opor ao imperialismo de potências europeias da época, como Reino Unido, França e Alemanha. O projeto democrata aponta que, com o tempo, a linha de política externa passou, com o tempo, "a ser interpretada por muitos responsáveis nos Estados Unidos como um mandato para interferir nos assuntos soberanos" dos países vizinhos.
Além de fazer um levantamento das intervenções militares, diretas ou indiretas, de Washington ao sul de sua fronteira, a resolução propõe o fim do embargo a Cuba, a emenda de leis que permitem que o presidente imponha sanções sem controle do Congresso e a revisão imediata de qualquer tipo de ajuda bilateral caso ocorra uma mudança de governo "extraconstitucional" em um país da região. Ainda propõe a criação de uma controladoria independente no âmbito da Organização dos Estados Americanos (OEA).
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— Há apenas algumas semanas, o governo realizou uma operação militar ilegal na Venezuela — disse Velázquez, em alusão ao bombardeio e à captura em Caracas do então presidente Nicolás Maduro, ao qual ela se referiu como um "sequestro".
Trump ordenou essa intervenção, que depois apresentou como a aplicação da Doutrina "Donroe" — que tem como principais objetivos garantir os interesses americanos no Hemisfério, o combate à imigração ilegal em massa e a presença ameaçadora de outras potências. O republicano, porém, admitiu que o principal objetivo econômico da operação tinha sido controlar o petróleo venezuelano.
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— Isto não é sobre combater o narcotráfico ou promover a democracia. Trata-se de uma mudança de regime e de controlar os recursos de outras nações — criticou a deputada.
A resolução tem poucas chances de ser aprovada na atual Câmara dos Representantes, dominada pelos republicanos. O governo também não parece disposto a recuar. O chefe do Estado-maior conjunto dos EUA, o general Dan Caine, convocou líderes militares de 30 países ocidentais nesta quarta-feira a Washington, para discutir os temas de segurança prioritários para a administração Trump. Países como Dinamarca, Reino Unido e França, que detêm territórios na região, estarão representados.
Fontes ouvidas pelo New York Times afirmaram que a expectativa é que Caine lidere uma discussão sobre a nova estratégia nacional de segurança e defesa dos EUA, que prioriza o Hemisfério Ocidental, em relação ao Oriente Médio e a Ásia. Temas como combate ao tráfico de drogas e grupos de crime transnacional devem ser tratados.
Mensagem política
Durante a coletiva de imprensa sobre a reintrodução do projeto, outros parlamentares progressistas, como Delia Ramírez (Illinois) e Rashida Tlaib (Michigan) falaram com os repórteres. Também foram ouvidas vítimas de golpes de Estado na região, como Jennifer Harbury, ativista de direitos humanos que teve o marido torturado em Guatemala, durante a guerra civil de 1992.
— Os Estados Unidos insistiram que fariam da Guatemala um exemplo de democracia — disse a Jennifer, acusando Washington de ter precipitado o conflito ao ajudarem a derrubar o presidente reformista Jacobo Árbenz, em 1954. — O que se seguiu foi um banho de sangue.
Os Estados Unidos alegam que a recente deposição de Maduro permitirá, a médio prazo, que a Venezuela retorne à democracia por meio de novas eleições legislativas. Enquanto isso, sua estabilidade econômica será garantida com a exploração petrolífera, nas mãos de multinacionais. (Com AFP)
