Com chuvas, Cantareira recupera nível e se aproxima de um terço de capacidade
O sistema Cantareira, a principal rede de represas que abastece a Região Metropolitana de São Paulo, chegou nesta terça-feira (10) a 30% de volume útil de água reservada, depois de ter se reduzido a 19% em dezembro num período de estiagem.
Com a recuperação, o sistema integrado de abastecimento da cidade, que chegou a menos de um quarto da capacidade há dois meses, está agora com 40% de suas reservas com mais de 800 milhões de metros cúbicos (800 hm³).
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A recuperação ocorreu principalmente durante os últimos 30 dias, com um acumulado de chuva entre 250mm e 300mm na área onde fica o Cantareira, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet).
Segundo cálculos do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), a região está com chuvas bem acima da média agora. Se janeiro teve apenas 72% da chuva esperada para o mês, fevereiro chegou a 81,5% da chuva esperada em apenas dez dias.
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Parte da recuperação ocorreu, também, porque desde agosto, a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) opera com o sistema em pressão baixa durante a noite para economizar água.
Segundo a empresa, em pouco mais de cinco meses essa medida foi suficiente para economizar mais de 80 hm³. Com a despressurização, a intensidade de vazamentos se reduz, mas imóveis sem caixa d'água e em regiões altas da cidade podem enfrentar problemas.
Entre os dias 27 de agosto e 21 de setembro, a medida ocorreu por oito horas, começando às 21h e encerrando às 5h. A partir de 22 de setembro, o horário foi ampliado em duas horas, com início às 19h e término às 5h.
Essa restrição, segundo a empresa, permitiu que fosse possível retirar menos água da água do Cantareira. Foi reduzida de de 27 m³/s (metros cúbicos por segundo) para 23 m³/s a velocidade de retirada de água do manancial.
Desde que a medida foi adotada, a Agência Nacional de Águas (ANA) autorizou a Sabesp a captar água da bacia do Rio Paraíba do Sul, que abastece o Rio de Janeiro, a uma taxa de até 33 m³/s. Na prática, a transferência foi menor, porque o Vale do Paraíba também enfrenta estiagem.
Normalmente, o Cantareira, composto por uma série de represas enfileiradas ao norte da cidade e indo até quase a divisa de Minas Gerais, é responsável por abastecer cerca de metade dos 22 milhões de habitantes da Região Metropolitana. Ele está agora, porém, abastecendo cerca de um terço. Uma boa parte da recuperação do sistema integrado municipal se deveu ao sistema Guarapiranga e a outros menores.
Pior crise em dez anos
O período dos últimos dois meses representou a situação mais crítica desde a crise hídrica de 2015 e 2016, anos em que o nível do Cantareira chegou a entrar em "volume morto", ou seja, abaixo da altura necessária para escoar até a cidade.
Mesmo com essa melhora parcial de agora, a situação do Cantareira continua preocupante. No início do mês, a ANA e a Agência de Águas do Estado de São Paulo (SP Águas) já informaram que o sistema integrado metropolitano de represas vai continuar operando até o fim de fevereiro em faixa de restrição nível 4, que abarca medidas como a despressurização do sistema e a transposição de água entre bacias.
"A manutenção nessa faixa de operação ocorre em razão do Sistema Cantareira ter registrado, em 30 de janeiro, último dia útil do mês, um armazenamento de 22,16% de seu volume útil, valor entre os limites superior (30%) e inferior (20%) que determinam a operação do Sistema na Faixa 4", informou comunicado conjunto das agências.
Apesar de relatos de moradores com problema de abastecimento, a Sabesp afirma que a redução de pressão não deve afetar imóveis que estão construídos dentro do padrão exigido. Um decreto da década de 1970 em São Paulo determina que casas e prédios tenham caixa d'água com capacidade para garantir o consumo dos ocupantes por pelo menos 24 horas.
A companhia de abastecimento, que foi privatizada há menos de dois anos, afirmou em comunicado que a crise atual tem relação com a mudança do clima e disse estar trabalhando em ampliação da capacidade.
"A Sabesp reconhece que os desafios do abastecimento de água na Região Metropolitana de São Paulo são históricos, estruturais e amplamente conhecidos, decorrentes de um sistema complexo, altamente demandado e sujeito a eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes", disse em nota. "A empresa está investindo mais de R$ 5 bilhões em obras de segurança e resiliência hídrica na região até 2027, o que representa 8 mil litros de água por segundo acrescidos."
