Delator acusa ex-prefeito de Macapá e líder nas pesquisas ao governo estadual de pedir apoio de facção na última eleição

Delator acusa ex-prefeito de Macapá e líder nas pesquisas ao governo estadual de pedir apoio de facção na última eleição - Foto
Fonte da notícia: O Globo O Globo

Ex-candidato a vereador de Macapá em 2024 e alvo de uma operação da Polícia Federal (PF) que investigou campanhas financiadas pela facção criminosa Família Terror do Amapá (FTA), a maior do estado e aliada do Primeiro Comando da Capital (PCC), Luanderson de Oliveira Alves, o Caçula, negocia uma delação premiada com o Ministério Públio Federal (MPF). Ele acusa Dr. Furlan (PSD), ex-prefeito da capital amapaense e candidato ao governo estadual, de ter participado do esquema investigado há dois anos. Furlan lidera as intenções de voto, com 54%, de acordo com a pesquisa Quaest do dia 26 de agosto. Em segundo lugar está o atual governador, Clécio Luís (União), que tem o apoio do presidente do Senado Davi Alcolumbre (União). Procurado, Dr. Furlan negou qualquer acusação, se disse alvo de perseguição política e frisou que o titular da Divisão de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco), da Polícia Civil do Amapá, declarou que não existe, na unidade, investigações que o associem a facções criminosas. A Operação Herodes foi deflagrada em setembro de 2024, às vésperas das eleições municipais, e cumpriu 17 mandados de busca e apreensão e seis de prisão preventiva. Os alvos eram candidatos e ex-integrantes da prefeitura de Macapá, então sob gestão de Dr. Furlan, que teriam ligações com a FTA. Segundo a investigação, haveria um esquema de compra de votos a partir do controle territorial exercido pela facção em bairros e comunidades da capital. Alves, que concorreria a vereador pelo PSD, o mesmo partido do então prefeito, ficou foragido por cerca de um mês até se entregar à polícia em outubro de 2024.  Ele foi acusado de ter sua campanha eleitoral financiada pela FTA e chegou a receber 354 votos, o que correspondeu a 0,15% do total, conseguindo a vaga de suplente. Na semana passada, o Tribunal Regional Eleitoral do Amapá (TRE-AP) cassou o diploma de Luanderson Alves e declarou sua inelegibilidade, ao acatar recurso do Ministério Público Eleitoral, que afirmou que o "controle armado exercido pela facção atuou como o principal ativo econômico da campanha" de Caçula. Ex-subsecretário de Zeladoria Urbana de Macapá, Jesaias da Silva, conhecido como Geyza, também foi preso na operação. Considerado outro nome importante do esquema, ele foi depois exonerado pela prefeitura.

Atualmente, Alves cumpre pena sob liberdade condicional, com uso de tornozeleira eletrônica. Em um vídeo gravado pela sua defesa, ao qual O GLOBO teve acesso, ele afirma que Dr. Furlan teria conhecimento do esquema criminoso para compra de votos nas áreas dominadas pela Família Terror Amapá. 'Só entra se pagar' Segundo Alves, apenas candidatos autorizados pelos líderes da FTA poderiam fazer campanha nos territórios controlados pela facção. O aval dependia de pagamentos, complementou, que ele mesmo intermediou. No entanto, afirmou que nunca conversou diretamente com Furlan, mas sim com representantes da prefeitura. — Ele (Furlan) pediu apoio sim da organização — diz Caçula no vídeo, explicando como teria funcionado o esquema. — Através de dinheiro paga a comunidade, e a comunidade vota. Ele paga para isso. O aval é dado para votar no Furlan. Não entrava outra pessoa (para fazer campanha no território). Só entra se pagar. Se não der suporte, não entra. Alves cuidava especialmente da área do Macapaba, um conjunto habitacional onde moram cerca de 35 mil moradores. Ele explicou que cada localidade sob domínio da FTA tinha um "presidente de bairro", chamados de "cabeça de bairro", que organizavam o recebimento do dinheiro e a "autorização" para as campanhas. Em 2024, Dr. Furlan foi reeleito prefeito de Macapá no primeiro turno, com 85% dos votos válidos. Caçula disse, no vídeo, não saber se o esquema continua nas atuais eleições: — Antes presenciei, hoje estou fora, não sei mais. Quando começou a Operação Herodes acabou. Não sei como está agora Investigação a partir de apreensão de celular Segundo Alves, o dinheiro era entregue por Geyza a Bruna Pastana, esposa de Rafael Bocudo, líder do FTA, que está preso. Alves é primo de Bocudo. Já Bruna, também alvo da Operação Herodes, morreu em um acidente de carro no final de março. Em determinado momento, durante o esquema, Bocudo teria começado a desconfiar de Geyza devido a atrasos nos pagamentos. Por isso, de acordo com Alves,  as entregas passaram a ser feitas por Aluizio da Silva Carvalho, que foi diretor do Instituto Municipal de Políticas de Promoção de Igualdade Racial (Improir) de Macapá e candidato a vereador pelo MDB em 2024.  A ligação entre a administração de Macapá e a FTA foi investigada por inquéritos da Polícia Civil e da PF. As investigações começaram após a detenção, em julho de 2024, de Estéfany Caroliny Pantoja, uma jovem de 21 anos à época, com 72 porções de crack e uma balança de precisão. Reincidente e namorada do homem responsável pelo "núcleo financeiro" da FTA,  ela responde a um processo que tramita na 4ª Vara Criminal da Comarca de Macapá. Seu celular, apreendido naquela prisão, levantou suspeitas sobre a relação entre a prefeitura e a FTA. Foram extraídos áudios e conversas sobre transações de drogas e movimentações financeiras. Em um dos diálogos, policiais encontraram descrição do esquema de compra de votos por R$ 100 por pessoa, em 35 áreas dominadas pela FTA. O conteúdo mostrava papel o central de Bruna Pestana na comunicação entre Bocudo e os demais integrantes da organização criminosa. Ela transmitia ordens, organizava pagamentos, coordenava atividades do tráfico e repassava determinações que, de acordo com as apurações, incluíam até decisões sobre execuções.  A investigação identificou um encontro entre Bruna, Estéfany e Aluizio em um restaurante em uma área turística de Macapá. Um áudio enviado por Estéfany a Bruna Pastana no dia 10 de julho de 2024 foi o que mais chamou a atenção. No diálogo, Estefany diz que o "prefeitão" estaria enviando dinheiro através de "Geice do Macapaba".  "Prefeitão" é um apelido de Dr. Furlan, que passou a usar o bordão "O prefeitão tá on!" após vencer as eleições de 2020. Por causa dessa menção, ele chegou a ser investigado em um inquérito sigiloso, como mostram os relatórios acessados pelo GLOBO, mas não foi denunciado porque o Tribunal Regional Eleitoral do Amapá (TRE-AP) decidiu que não havia provas suficientes para apontá-lo como réu. MP e TRE não viram provas suficientes há dois anos Quando o áudio foi identificado, o delegado da Polícia Civil responsável apontou risco de foro privilegiado. O Ministério Público do Amapá, porém, afirmou que "não foi possível identificar nenhuma participação direta ou sequer ciência do atual prefeito de Macapá sobre eventual participação no esquema da facção Terror do Amapá".

Pelo risco de crime eleitoral, o caso foi parar no TRE-AP. Mas o juiz Normandes Antonio de Souza concordou com o MP e escreveu, em seu voto sobre a decisão de abrir ou não procedimento contra Dr. Furlan, que não houve comprovação de vínculo entre o prefeito e os investigados: "O nome do gestor municipal nunca foi citado nas conversas telefônicas". Assim, devolveu o inquérito à Polícia Civil. O Ministério Público Eleitoral, porém, recorreu da decisão, por entender que havia elementos concretos de possível prática de corrupção eleitoral. O processo foi ao pleno do TRE-AP, onde a decisão original foi mantida.  "O relatório policial aponta uma estrutura da FTA com domínio em 35 áreas em Macapá, oferecendo votos por R$ 100,00 cada, e menciona Jesaías e Aluizo como possíveis intermediários. Contudo, não há menção direta ao nome do prefeito em interceptações ou documentos. O Ministério Público Estadual, em parecer, concluiu pela inexistência de indícios de seu envolvimento. Os indícios levantados são insuficientes para estabelecer essa conexão", escreveu o juiz substituto Rivaldo Valente em seu voto.  Sem a inclusão de Dr. Furlan, a Operação Herodes foi deflagrada, e o prefeito foi reeleito com 85% dos votos válidos. Agora, ele é o favorito à vitória no pleito estadual, mesmo enfrentando uma poderosa aliança entre o atual governador, Cléssio Luís (União), e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União).  Menos de dois anos depois da Operação Herodes, Bruna Pastana morreu em um acidente de carro no dia 29 de março, enquanto voltava de uma festa promovida pela FTA. Ela usava tornozeleira eletrônica na época.  Procurado, o Ministério Público Federal afirmou que não comenta negociações de delação premiada. Citados respondem Procurada, a campanha de Dr. Furlan diz que o candidato é alvo de perseguição política e nunca foi "citado, notificado ou envolvido em qualquer apuração relacionada a essas acusações". Sua campanha reforçou depoimento público recente, do delegado Estéfano da Silva Santos, titular da Divisão de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco), de que não existe, no âmbito da unidade, investigação que associe Dr. Furlan a facção criminosa.

Em nota, também observou que mais de 40 delegados da Polícia Civil do Amapá assinaram carta aberta em defesa de Estéfano Santos, e que o delegado Uberlândio Gomes, ex-delegado-geral da Polícia Civil do Amapá, denunciou publicamente o suposto uso da estrutura da Segurança Pública estadual para perseguir adversários políticos da atual gestão. Por fim, afirmou que o advogado Hugo Barroso Silva, que representou Luanderson Alves na negociação de delação, teve sua candidatura a deputado estadual indeferida pelo TRE-AP após impugnação relacionada a vínculos com organização criminosa. Já Aluizio Carvalho afirmou que não foi alvo da Operação Herodes e que as acusações são "fruto de lações alimentadas pelo contexto da disputa eleitoral". Ele disse que não conhece Luanderson "Caçula e negou acusações de entrega de dinheiro. Ele admite, porém, o encontro com Bruna Pastana, mas disse que ocorreu após ter sido procurado por ela em busca de seus serviços como advogado criminalista, e que ela citou "relatos unilaterais e demandas sobre supostas disputas financeira". "Ouvir queixas e pretensões de pessoas com o perfil dela faz parte do cotidiano de quem atua na advocacia, o que jamais significou participação em esquemas, negociações ou repasses de recursos, práticas que nunca realizei", conclui.

Procurada, a defesa de Jesaias da Silva não respondeu.

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