Debate sobre atletas trans cresce, enquanto desigualdade no esporte feminino persiste
Nas últimas semanas, o debate sobre a participação de atletas trans nas categorias femininas esportivas ganhou força. Virou quase um divisor de águas sobre o “futuro do esporte”. E confesso: me incomoda o tamanho que a discussão tomou. Não porque ela não seja importante, mas porque parece desproporcional ao problema estrutural que deveríamos priorizar nesta pauta.
Inclusive, quantas atletas trans, de fato, estão competindo em alto nível? Quantas medalhas estão sendo disputadas nesse contexto? Quantas carreiras estão sendo redefinidas por isso? Quando olhamos para os dados, o número é mínimo. Quase simbólico.
Mas o barulho é imenso.
Enquanto isso, o que continua silencioso e estrutural é o abismo histórico que atravessa o esporte feminino. Menos patrocínio. Menos cobertura. Menos transmissão. Menos salário. Menos incentivo desde a base. Menos tudo. Mesmo num cenário onde já avançamos e precisamos celebrar frente às proibições que já existiram no passado, impedindo mulheres até de jogar futebol, ainda há muito a caminharmos.
Não vemos o mesmo nível de mobilização quando uma atleta nas mais diversas modalidades ganha uma fração do salário de um jogador. Quando campeonatos femininos não têm transmissão. Quando meninas de todos os tipos desistem dos esportes porque não enxergam futuro ali.
Não tem coletiva de imprensa para isso.
Penso se o debate atual sobre atletas trans, para além do exercício gratuito e coletivo da transfobia generalizada, não funciona, em alguma medida, como uma cortina de fumaça confortável. Porque discutir quem pode ou não competir é mais simples do que debater por que tão poucas mulheres conseguem sequer chegar à competição. É mais fácil falar de regras, especialmente as polêmicas, do que falar de dinheiro e distribuição de poder dentro e fora do esporte.
Obviamente, existe uma tensão legítima quando o assunto é competição justa. O esporte, por definição, precisa de critérios. Mas também precisa de honestidade intelectual. E hoje, o que a própria ciência mostra é que não existe um consenso definitivo sobre vantagens físicas de atletas trans após a transição hormonal ao competirem com as cis. Ou seja: estamos tomando decisões duras em um terreno ainda em construção.
E, ainda assim, essa pauta ocupa um espaço desproporcional, possivelmente porque mobiliza emoções, identidades, disputas políticas. Gera cliques. Talvez porque ela nos permita evitar o incômodo maior: reconhecer que o esporte feminino nunca foi tratado como prioridade.
Se a preocupação fosse, de fato, endossar as mulheres no esporte, o foco e a agenda prioritárias seriam outros. Seria sobre investimento ampliado e contínuo. Sobre garantir visibilidade. Sobre formar novas gerações com estrutura e incentivo. Sobre criar ligas fortes, narrativas potentes, referências inspiradoras. Sobre transformar talentos em carreiras e não em exceção.
Porque, no fim do dia, o que mais limita mulheres no esporte não é se quem está competindo é cis ou trans. É o quanto a corrida já começa desigual, em recursos, visibilidade e tantas outras questões estruturais que impedem tantas de sequer sonharem em cruzar a linha de chegada.
