De Quixadá para Los Angeles

De Quixadá para Los Angeles - Foto
Fonte da notícia: Carta Capital Carta Capital

A produção cearense Feito Pipa entra em cartaz no País ao mesmo tempo que realiza a campanha para tentar uma vaga no Oscar Depois de conquistar o Grande Prêmio do Júri Internacional e o Urso de Cristal, concedido pelo júri jovem do Festival de Berlim, e quatro Kikitos no Festival de Gramado, a produção cearense Feito Pipa chega aos cinemas, na quinta-feira 5, em plena campanha para tentar uma nova indicação brasileira ao Oscar de filme internacional.

O terceiro longa-metragem de Allan Deberton foi escolhido pela Academia Brasileira de Cinema para representar o País na disputa pela indicação depois de dois anos seguidos de presença nacional na premiação norte-americana. Em 2025, Ainda Estou Aqui levou a estatueta e, em 2026, O Agente Secreto ficou entre os finalistas na categoria.

Ambos os filmes tiveram ainda indicações nas categorias principais. A seleção local é só o primeiro passo no caminho até a lista de 15 pré-selecionados da Academia de Hollywood, a ser divulgada até o fim do ano.

“Os filmes brasileiros que nos antecederam já eram concorrentes antes mesmo de começarem a campanha”, diz Karen Castanho, da Biônica Filmes, produtora de Feito Pipa. Karen observa que Walter Salles e Kleber Mendonça Filho estão entre os grandes diretores do Brasil e do mundo, e que o fato de terem circulado em dois anos consecutivos desperta a curiosidade dos votantes da Academia para o que vem depois.

“Isso nos ajuda na campanha, pois o trabalho é para que vejam o filme”, prossegue ela. “Mas há concorrentes fortíssimos, inclusive obras-primas de grande orçamento.

Temos os pés no chão e humildade para caminhar passo a passo, com o primeiro objetivo de estarmos na shortlist (a lista prévia)”. Feito Pipa é protagonizado por Gugu (Yuri Gomes), garoto de 11 anos que sonha ser jogador de futebol.

Ele vive em Quixadá, no interior cearense, com a avó, Dilma (Teca Pereira), professora aposentada que o cria sem se importar com a maneira como o menino se veste ou se comporta. “O sertão é exuberante, engraçado, contraditório, cheio de invenção e beleza”, diz o diretor Allan Deberton, premiado em Berlim

Tanto quanto o garoto, a viúva Dilma se move com liberdade pelo mundo. Ela sai para o forró, mantém um namorado e diverte-se brincando com o neto, mas começa a apresentar sinais de Alzheimer.

Para evitar que o pai, Batista (Lázaro Ramos), homem mais bronco, tenha sua guarda, Gugu decide esconder a doença. “Batista é um pai que ama o filho, mas ainda aprende a lidar com uma criança que escapa de tudo aquilo que idealizou”, diz Allan Deberton.

“Existe uma violência nessa tentativa de corrigir o outro, mesmo quando se acredita estar fazendo o melhor.” O roteiro, assinado por André Araújo, começou a ser desenvolvido em 2019, a partir de duas imagens que o marcaram na infância: a de cidades do interior cearense que reaparecem quando as águas das barragens baixam e a lembrança de um menino que sofria perseguição de outros garotos numa partida de futebol por dançar e rebolar na comemoração de gols.

Araújo apresentou a primeira versão para o célebre programa Lab Cena 15, mantido pela Escola Porto Iracema das Artes. O laboratório, que tem, entre os consultores, os cineastas Karim Aïnouz e Sérgio Machado, permitiu que o roteiro evoluísse.

“Quando ele trouxe a primeira ideia de Feito Pipa, me impressionou especialmente a imagem de uma cidade submersa que reaparece com a seca, enquanto uma mulher começa a perder suas próprias memórias”, descreve Deberton, que havia trabalhado com Araújo em Pacarrete (2019). “Conversamos muito sobre como contar a história a partir do olhar do Gugu, sem transformar o filme num discurso sobre identidade ou preconceito.”

As filmagens foram realizadas em 2024, em Quixadá, município marcado por formações rochosas. A opção por rodar no próprio território que inspira a história reforçou a ligação entre a produção e o lugar de origem de seus realizadores, ambos nascidos em Russas, no Vale do Jaguaribe.

“Nunca reconheci completamente aquele Nordeste que muitas vezes aparece no cinema associado à escassez, ao sofrimento e à paisagem sem cor”, diz Deberton. “O sertão é exuberante, engraçado, contraditório, cheio de invenção e beleza.

Quixadá tem uma geografia impressionante. Queria que o filme tivesse essa dimensão quase fantástica, mas sem perder a intimidade da vida cotidiana.”

A principal mudança em relação à ideia original deu-se a partir da escolha de Yuri Gomes para o papel – depois de testes realizados com 700 meninos. O personagem era, no roteiro, um adolescente.

“Havia alguma coisa no Yuri que não podia ser fabricada pela direção”, relembra Deberton. “Ele tinha a presença muito viva, uma liberdade corporal e a capacidade impressionante de transitar entre o humor e a emoção.”

O fato de Yuri ser criança levou a mudanças não só no texto, mas no planejamento original de produção, uma parceria da Deberton Filmes com a Biônica, de São Paulo, que tem grande experiência em trabalhos com crianças por ser a produtora dos filmes da franquia Turma da Mônica. A chegada da empresa ao projeto remonta a 2020, quando Karen Castanho assistiu a Pacarrete.

“Foi amor à primeira vista pelo roteiro e pelo Allan”, relembra Karen. “Sabíamos do desafio que seria financiar um próximo filme dele e nos preparamos.

No início da nossa parceria, imaginamos um filme de baixo orçamento, mas ao longo do processo percebemos que merecia ter mais recursos e fomos em busca disso. Foi mais fácil do que imaginávamos porque o roteiro era muito bom, e Pacarrete era um belo cartão de visitas.”

O projeto, que teve uma produtora associada, a Mistika, contou com a participação do governo do Ceará e do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), teve patrocínio do Nubank e apoio do Projeto Paradiso, do programa Cinema do Brasil e da Apex Brasil. A distribuição ficou a cargo da Paris Filmes, responsável pelo maior sucesso nacional deste ano, a comédia Minha Melhor Amiga.

• Publicado na edição n° 1438 de CartaCapital, em 11 de novembro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘De Quixadá para Los Angeles ‘ Muita gente esqueceu o que escreveu, disse ou defendeu.

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