De Praça da Playboy a Salgueiro: os segredos de ‘Nosso sonho’

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

Há exatas três décadas, a letra de “Nosso sonho”, gravada por Claudinho e Buchecha, colocava no mapa favelas e comunidades de vários pontos do Rio, incluindo, é claro, São Gonçalo, de onde a dupla é cria. A música, lançada no primeiro CD dos funkeiros, em 1996, até hoje é o maior sucesso dos artistas. Claudinho morreu em 2002, em um acidente automobilístico, e depois disso o parceiro seguiu carreira solo. Apesar do tempo, o hit segue cada vez mais presente em vídeos e trends na internet, além de estampas de camisetas — e, há três anos, batizou um filme dirigido por Eduardo Albergaria. Investigação: Carros usados em roubo de carga de medicamentos faziam corridas por aplicativo no Rio, diz polícia Mapa do crime: Roubos dispararam em bairro da Zona Sul do Rio onde arqueóloga levou três tiros durante uma tentativa de latrocínio; entenda A letra extensa, com mais de 70 versos, relaciona um total de 46 localidades, umas bem conhecidas, outras nem tanto e algumas incógnitas, o que levanta dúvidas sobre determinados pontos. Essa particularidade faz de “Nosso sonho” caso raro na música brasileira. Ao contrário da maioria das canções, não é o refrão (“Nosso sonho não vai terminar...” ) que levanta e faz a plateia dos shows e o público dos bailes cantarem juntos, mas sim o trecho em que são listados os nomes dos recantos citados. — A gente estava acostumado a ouvir os grandes artistas falarem do Leblon, de Copacabana e de Ipanema. Havia sempre menções a áreas nobres do Rio. Acho que o público das comunidades passou a se sentir representado pela minha música — resume Buchecha, de 51 anos. Samba como inspiração O artista, que começou a compor a letra anos antes do lançamento, tomando como mote o trecho de um samba feito pelo pai, Claudino — que acabou dando origem ao refrão —, buscou inspiração em outro sambista para incluir os nomes das comunidades no funk que começa narrando a paixão de um jovem casal. — O primeiro que ouvi falar das comunidades foi o Bezerra da Silva (no samba “Saudação às favelas”, em que lista do Morro do Juramento à Favela do Cantagalo). Achei aquilo tão bonito e tão diferente que resolvi fazer algo parecido — conta o músico. Entre as maiores incógnitas da letra de Claudinho e Buchecha está a Praça da Playboy, que abre o rol de locais citados. Afinal de contas, onde fica? Quem for buscar a informação em dados da prefeitura não encontrará resposta. Isso porque na relação ela consta com o seu nome oficial: a Praça Amadeu Rocha fica na Taquara, na Zona Sudoeste do Rio, perto da Estrada do Guerenguê. A informação é confirmada pelo próprio Buchecha, que também explica a razão do apelido: — Fiquei sabendo que era uma galera de bailes que se reunia ali, para namorar e frequentar os bares que ficam por perto — lembra o funkeiro, que também não conhecia o lugar até fazer a música: — Frequentava bailes na Cruzada São Sebastião e ouvia a galera gritando “Praça da Playboy e não sei o que lá, é isso que te dói”. Não lembro bem o grito (de guerra), mas ouvia falar dessa galera e da praça. Então, resolvi botar na música. Num vídeo postado nas redes sociais, o guia de turismo e influenciador Ariel Carvalho, de 37 anos, lembra de uma outra teoria, menos provável, segundo a qual o apelido da praça teria se originado de um ensaio fotográfico que a revista masculina Playboy teria feito no local, com uma modelo. — Quando era criança ouvia essa história — disse o tijucano, que cresceu acreditando que o “Salgueiro” citado na música é a favela do seu bairro, e não a de São Gonçalo. Ele estava certo. Muita gente pensa o contrário, por razões óbvias: foi na comunidade gonçalense que Buchecha (nascido na vizinha Coronel Leôncio, também citada na letra) conheceu o parceiro e nela viveu de 1989 a 1997. O funkeiro justifica que, como o Salgueiro já havia sido lembrado em outras canções (incluindo o “Rap do Salgueiro”, do mesmo CD de 1996), preferiu homenagear a favela da Tijuca, juntamente com o Borel, no mesmo bairro. “Agora, e a Fazenda?”, pergunta um internauta na postagem de Ariel, na sua página “Rio de Segredos”, que traz curiosidades e histórias da cidade. Segundo Buchecha, a música se refere à Fazenda dos Mineiros, em São Gonçalo, e não à Fazenda Botafogo, no Rio, como muitos pensam. Outra dúvida é se Posse é a estrada em Campo Grande ou o bairro em Nova Iguaçu. O compositor põe fim ao mistério: ele se inspirou em outro funk dos anos 1990, “Estrada da Posse”, de Coiote e Raposão. O mapa do funk Homenagear lugares sempre foi uma característica da dupla, que em “Rap da união” (do CD “A forma”, de 1997) cita mais de 30 municípios fluminenses. Em seu lançamento mais recente, “Liberta, DJ” — primeiro CD de inéditas em dez anos —, Buchecha volta a citar, em “O bonde passou”, Cidade Alta, Morro do Estado, Santa Marta, Vila Kennedy, Rodo e Fazendinha, entre outras comunidades. Ele conta que, desde “Nosso sonho”, passou a ser cobrado pelo público para incluir suas comunidades nas músicas: — As que estão sendo citadas ficam felizes, e as que não são lembradas cobram a inclusão em outras composições. Com cerca de 1.700 favelas somente no município do Rio, segundo dados do último Censo do IBGE, o que não vai faltar a Buchecha é inspiração. Mas, enquanto os lugares citados em “Nosso sonho” são lembrados com carinho, outro trecho do funk envelheceu mal. O verso “Seus 12 aninhos permitem somente um olhar” deu margem a controvérsia. O funkeiro nega as associações feitas a pedofilia e diz que, quando escreveu a letra, tinha 15 anos, e a musa inspiradora, Rosana, com quem é casado, 12. — É uma declaração de amor de um menino para uma menina — diz o hoje pai de dois filhos com a musa do funk.

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