De pedir demissão a se vestir de gorila: site oferece recompensas por desafios 'questionáveis'
Uma nova plataforma de recompensas em criptomoedas virou alvo de críticas ao permitir que usuários ofereçam dinheiro para que outras pessoas realizem tarefas no mundo real. O modelo, apresentado como uma espécie de “mercado de desafios”, permite que uma pessoa crie uma missão, defina um valor e aguarde que outros participantes enviem vídeos ou provas de que cumpriram a tarefa.
A ideia parece simples, mas o efeito tem sido controverso. Em vez de limitar os desafios ao universo online, a “Pump.fun” leva a lógica dos memes, das redes sociais e da economia cripto para situações presenciais. Na prática, o incentivo financeiro transforma ações feitas na rua, em locais públicos ou diante de outras pessoas em conteúdo pensado para circular na internet.
Segundo a NBC News, o serviço ganhou tração ao reunir usuários dispostos a executar tarefas em troca de pagamentos digitais. Algumas propostas são banais ou aparentemente inofensivas, como alimentar gatos de rua e doar roupas para caridade, que renderam prêmios de US$ 71 (R$ 361) e US$ 114 (R$ 586), respectivamente.
Outras, porém, envolvem exposição pública, constrangimento, riscos físicos ou situações que levantam dúvidas sobre segurança e responsabilidade, como pedir demissão no emprego e enfiar a cabeça no vaso sanitário.
Um usuário ganhou US$ 72 (R$ 370) por despejar um galão de leite sobre a cabeça enquanto gritava o nome de uma criptomoeda. Outro faturou US$ 322 (R$ 1.656) por sair em público vestido com uma fantasia completa de gorila com a palavra “$bountywork” (trabalho por recompensa) escrita no peito.
Plataforma oferece desafio de pedir demissão, soltar pum em megafone e criar uma competição de melhor bumbum
Reprodução
O site distribuiu mais de US$ 370 mil (R$ 1,9 milhão) desde que foi lançado, em 4 de junho, segundo o New York Post. A plataforma, sediada na Califórnia (EUA), disse que mais de US$ 200 mil (R$ 1 milhão) em criptomoedas ainda estão disponíveis entre as cerca de 270 recompensas em aberto.
O funcionamento lembra sistemas de recompensa, comuns no universo da tecnologia e das criptomoedas, nos quais uma gratificação é oferecida pela conclusão de uma tarefa. A diferença, neste caso, é que o alvo deixa de ser um bug de software, uma colaboração técnica ou uma campanha promocional tradicional. O que passa a ser negociado é o comportamento de pessoas no mundo real.
Essa mudança ajuda a explicar a reação negativa. Para críticos, a plataforma cria um ambiente em que usuários com dinheiro podem terceirizar situações arriscadas, humilhantes ou socialmente constrangedoras para pessoas interessadas na recompensa. O problema se torna ainda mais sensível quando há diferença econômica entre quem paga e quem aceita cumprir a tarefa.
A discussão também toca em um ponto central da internet atual: a monetização da atenção. Durante anos, desafios virais se espalharam em redes sociais movidos por curtidas, visualizações e fama momentânea. Agora, esse mesmo tipo de dinâmica passa a ser associado a pagamentos diretos, muitas vezes em criptoativos ligados à cultura dos memecoins.
O resultado é uma mistura de entretenimento, especulação financeira e pressão por engajamento. Quanto mais chamativa for a tarefa, maior tende a ser o potencial de repercussão. E, quanto maior a repercussão, maior também pode ser o interesse de comunidades digitais em financiar novos desafios.
Especialistas e críticos veem nesse modelo um risco duplo. De um lado, há a possibilidade de danos concretos, já que algumas tarefas podem incentivar exposição excessiva, conflitos, invasão de espaços ou comportamentos perigosos. De outro, existe o risco de exploração simbólica, uma vez que pessoas são transformadas em personagens de um espetáculo financiado por terceiros.
A plataforma afirma ter regras e mecanismos de moderação, mas especialistas divergem sobre a eficácia desse controle. Também há questionamentos sobre como verificar se uma tarefa foi cumprida de forma legítima, como evitar fraudes, quem responde se algo der errado e que tipo de conteúdo deve ser barrado antes de chegar ao público.
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