De Cingapura a Bangkok, via Malásia, roteiro de trem conecta gastronomia, atrações naturais e grandes cidades

De Cingapura a Bangkok, via Malásia, roteiro de trem conecta gastronomia, atrações naturais e grandes cidades - Foto
Fonte da notícia: O Globo O Globo

Em 2026, a maneira mais rápida de ir de Cingapura para a Malásia é uma viagem de cinco minutos no Shuttle Tebrau, que leva os passageiros do posto de controle ferroviário de Woodlands até o terminal de transporte Johor Bahru Sentral. No entanto, os dias desse trem a diesel estão contados: até meados de 2027, ele deve ser substituído por uma nova linha conectada ao sistema metroviário da cidade-Estado. Esta mudança me fez pensar nas conexões ferroviárias entre os dois países. Antes do surgimento das low cost regionais, no início dos anos 2000, a viagem de trem para a Malásia era uma das opções mais comuns de lazer para os cingapurianos. Foi por isso que, em uma tarde sufocante de março, paguei 16 ringgits (US$ 5) por uma passagem, dando início à viagem de uma semana até Bangkok, com paradas na capital da Malásia, Kuala Lumpur, e no estado de Penang, para comer e explorar. Cada trecho levou entre uma hora e quatro horas e meia, exceto pela esticada noturna até o destino final. No total, foram sete dias, seis trens e um custo de US$ 135 no total, ficando duas noites em cada cidade e gastando aproximadamente US$ 1.400 com hotéis, refeições, transporte e outras despesas. Delícias da Malásia Depois da viagem de ônibus, peguei o Electric Train Service, intermunicipal, na JB Sentral rumo a Kuala Lumpur, serviço que começara a operar três meses antes com grande alarde, reduzindo o tempo de viagem entre as duas cidades de sete para quatro horas e meia. Os bilhetes podem ser comprados pelo aplicativo da empresa operadora, a KTMB. Com seis vagões, não chega aos pés dos trens de alta velocidade da China ou do Japão, mas a classe executiva, a 171 ringgits, tem assentos reclináveis e bastante espaço para as pernas. Um dos melhores lugares para comer em Kuala Lumpur, famosa pelo cenário gastronômico, é na Jalan Alor. Com um século de história, a rua vende de tudo, desde frutos do mar grelhados até culinária chinesa muçulmana e o popular satay. Eu comi um rougamo magnífico, muitas vezes chamado de “hambúrguer chinês”, que leva carne de porco em tirinhas, cozida lentamente, dentro de um pãozinho de massa folhada. Rougamo, ou “hambúrguer chinês”, é preparado numa das muitas barraquinhas na rua Jalan Alor, tradicional ponto de gastronomia popular em Kuala Lumpur, capital da Malásia Amrita Chandradas/The New York Times Porém, minha melhor refeição foi, sem dúvida, o almoço do dia seguinte, no famoso Village Park Restaurant, em Petaling Jaya. Provei o prato nacional (nasi lemak), que leva arroz com leite de coco acompanhado de frango frito crocante, amendoim, tiras de pepino e sambal de pimenta doce com um toque bem picante. Antes de comer, aventurei-me em Batu, complexo de cavernas de calcário na periferia da cidade que abriga uma série de templos e santuários hindus considerado um local importante de peregrinação. Lá dentro o ar estava impregnado de aroma de incenso e os macacos-de-cauda-longa brincavam por toda parte. Comida de rua em Penang No dia seguinte, encarei uma viagem de três horas e meia na classe executiva (175 ringgit) de um trem elegante e moderno até Butterworth. Ao descer para pegar o catamarã com destino a George Town, capital de Penang e Patrimônio Mundial da Unesco, ouvi sotaques britânicos, australianos, chineses e coreanos. O bilhete custa 2 ringgits e o percurso dura dez minutos. Penang é conhecida como a capital gastronômica da Malásia. Ali você encontra uma variedade incrível de comida de rua, como o char koay teow, macarrão de arroz chatinho refogado com ingredientes como camarões, cebolinha e broto de feijão na banha. Um prato no Siam Road Charcoal Char Koay Teow, restaurante estrelado pelo “Guia Michelin” saiu por apenas 10 ringgit; saboroso e apimentado, tinha um sabor defumado (ou “wok hei”) bem pronunciado. Em Penang Hill, reserva natural na periferia, outro trem me esperava: o funicular que me levaria ao topo, em um percurso de dois quilômetros. Construído pelos britânicos em 1924, lembra The Peak, de Hong Kong. Para curtir a vista panorâmica de George Town, sentei na parte de trás durante a viagem de cinco minutos. Depois, segui até The Habitat, trilha de pouco mais de um quilômetro e meio de extensão aberta pela Companhia Britânica das Índias Orientais, no início do século XIX, na borda de uma reserva de mata tropical. Com o som das cigarras ecoando e a visão dos langures se alisando casualmente uns aos outros, limpei o suor da testa e aproveitei para aproveitar a paisagem. Trens para Bangkok A etapa mais longa começou com uma viagem de trem de duas horas de Butterworth até Padang Besar, na fronteira entre a Malásia com a província tailandesa de Songkhla, espremido entre mochileiros e turistas a caminho da cidade de Hat Yai, destino popular de fim de semana para os malaios, onde pegaria um leito para Bangkok. A opção mais comum é alugar uma van compartilhada para o percurso de hora e meia, mas há três trens por dia de Padang Besar para Hat Yai, e o único senão é que as passagens só podem ser compradas no local (8 ringgits). O de seis vagões é operado pela Ferrovia Estatal da Tailândia e indiscutivelmente espartano, com ventiladores de teto e uma grossa camada de poeira nas janelas. Deixou os cerca de 20 passageiros sofrendo em uma temperatura de 32°C por meia hora. Quando finalmente desci em Hat Yai Junction, fui recebido pela multidão do fim de tarde e os vendedores se esticando para vender as mercadorias que levavam em cestos pelas janelas do trem. A seguir, embarquei no trem-leito com destino ao terminal central Krung Thep Aphiwat, em Bangkok, maior estação ferroviária do Sudeste Asiático. Com ar-condicionado, o trem parecia um verdadeiro oásis em meio ao calor reinante; com capacidade para mais de 400 passageiros, partiu no horário para a viagem de 15 horas. Por cerca de 1.800 baht (cerca de US$ 54), a passagem de primeira classe dá direito a um compartimento privado com dois assentos que se transformam em camas, porta com fechadura e uma pia, ainda que compartilhado com outro passageiro. Meu assento no vagão de segunda classe custou pouco mais de 1.000 baht. As passagens podem ser compradas em plataformas como a Thai Railways ou a Baolau. Horas depois, os funcionários transformaram os assentos em beliches superiores e inferiores, com cortinas para garantir privacidade. De manhã, fui acordado por um funcionário ansioso para transformar os beliches em poltronas de novo, com o trem chegando a Bangkok. Era hora de explorar a cidade, começando com uma refeição no Funky Lam Kitchen, onde os descendentes de dois príncipes do Laos servem pratos modernos da culinária laosiana. Os sabores picantes, terrosos e azedos me deixaram com vontade de repetir a dose. No último dia, fui para Song Wat, bairro badalado cheio de cafés, arte de rua e comida incrível, cujas ruas e becos estreitos encerram surpresas a cada esquina — como um prédio decorado com um mural de dois elefantes brincando aqui e um café encantador em uma loja de dois andares logo ali em frente. No Urai Braised Goose, estrelado pelo “Guia Michelin”, reina o caos em meio a um sistema de fila questionável, regido não tanto pela sequência de números, mas pelo humor dos garçons. Levei quase uma hora para conseguir um lugar, mas fui recompensado com tiras finas e saborosas de carne de ganso acompanhadas de um molho picante e arroz. Apesar da umidade, explorei Song Wat horas a fio antes de me refugiar no café Sleep Like Cats. Enquanto tomava um chá com leite gelado, o gato malhado de laranja do proprietário — que pode muito bem ser o verdadeiro dono — passou por mim e ficou me olhando com curiosidade. Eu o encarei de volta e pensei na lonjura que percorrera para chegar até ali.

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