De barbeiros a criadores de aplicativos, IA dá impulso a microempreendedores

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

Antes de abrir a própria barbearia em João Pessoa (PB), Alysson Christian, de 29 anos, fotografou o imóvel vazio e recorreu à inteligência artificial (IA) para decidir onde ficariam os móveis e os espelhos, e como seria a decoração. A tecnologia também foi usada para montar o plano de negócio, criar a identidade visual, pensar o logotipo e organizar os primeiros conteúdos para o Instagram. Depois de quase dez anos trabalhando em outra barbearia, ele dominava o atendimento ao cliente, mas não tinha experiência com a parte administrativa e de marketing. De pizza proteica a perfume, as novidades das marcas no Rock in Rio Camiseta a R$ 49,99, inovação e design: Os planos da Hering para voltar a atrair as classes B e C e turbinar vendas — Meu trabalho antes era praticamente o mesmo, mas sem a gestão e a administração, que representa grande parte do que uma empresa necessita, além do operacional — afirma. Para microempreendedores, a IA pode funcionar como uma primeira estrutura de apoio para colocar um negócio de pé antes de ter equipe, capital ou domínio sobre marketing e planejamento. Um ano e meio depois de abrir a barbearia, Christian deixou de ser MEI, passou a microempresa e hoje divide o espaço com outros dois barbeiros, também formalizados como microempreendedores. Christian sempre teve o sonho de empreender, mas só conseguiu tirá-lo do papel após anos juntando dinheiro e encontrar um ponto comercial estratégico. Investiu R$ 15 mil para abrir a barbearia. No processo, a IA ajudou a organizar etapas que ele não dominava e a reduzir custos com serviços, enquanto a presença nas redes sociais contribuiu para consolidar uma base de clientes. Antes de abrir a barbearia, Christian buscou ajuda da IA para planejar a decoração e a identidade visual Arquivo pessoal/Alysson Christian Apesar da preocupação de que a IA substitua diversas funções, a tecnologia ajuda os pequenos empreendedores a superar barreiras de tempo, dinheiro e formação. Dados do Sebrae mostram que 47% dos MEIs já usam ferramentas de IA. Em levantamento feito pela entidade em parceria com a Fundação Getulio Vargas e o Google, a criação de conteúdo para redes sociais aparecia como o principal uso entre esses empreendedores em 2025: 79%. — Pelas nossas pesquisas, 17% dos microempreendedores individuais no Brasil já funcionam totalmente on-line. Eles conseguem vender e entregar produtos simplesmente funcionando de forma digital — explica Rodrigo Soares, presidente do Sebrae Nacional. Economia de tempo é vantagem Para o doutor em Economia e professor da UFPB Cássio Besarria, a velocidade exigida pelo mercado digital ajuda a explicar a adoção dessas ferramentas. A IA, afirma, aproxima pessoas que têm uma ideia, mas não dominam todas as etapas necessárias para executá-la: — É isso que chamamos de produtividade. Para expandir um negócio, você precisa apresentar o seu produto, e o marketing é uma frente importante. Essa atividade acabou sendo potencializada em decorrência dessas novas ferramentas. Camiseta a R$ 49,99, inovação e design: os planos da Hering para voltar a atrair as classes B e C e turbinar vendas Besarria ressalta que a IA reduz custos e viabiliza negócios, mas também aumenta a concorrência, porque as ferramentas estão disponíveis para diferentes empreendedores: — Um setor que antes não era tão competitivo pode se tornar mais disputado. Isso pode reduzir preços, mas também levar pequenos negócios que não conseguem acompanhar esse movimento a fechar. Nestlé anuncia nova fábrica de fórmulas infantis no Brasil, projeto de R$ 600 milhões Os microempreendedores, no entanto, não podem depender somente da IA. Natan Valladares, designer gráfico de 23 anos e nascido e criado na comunidade da Maré, no Rio, usou inteligência artificial para criar o aplicativo BoraMiga, que visa aproximar mulheres com mais de 30 anos através de eventos sociais em grupo. O desenvolvimento da plataforma, porém, exigiu uma busca por editais de fomento ao empreendedorismo, o que garantiu um investimento inicial de R$ 80 mil — recursos destinados à contratação de uma empresa especializada. — A IA democratizou parte desse processo para nós. Conseguimos chegar a um patamar que talvez não alcançássemos tão rapidamente sem ela. É uma grande ferramenta para o empreendedorismo, mas não trabalha sozinha. É necessário haver alguém que saiba o que quer, conheça a proposta e tenha uma direção — afirma Valladares. Com bandeiras e slogans, robôs fazem 'protesto' contra uso descontrolado da IA na Polônia O principal ganho, para ele, está no tempo. Com a ajuda da IA, tarefas que levariam uma semana puderam ser feitas em até um dia: — Não é que seja impossível trabalhar sem IA. A questão é que ela reduz o desgaste e libera tempo para outras áreas que também precisam de atenção. Parte do trabalho manual mais pesado pode ser delegada à ferramenta. Nem sempre usamos exatamente o que ela entrega: refinamos o resultado. Uso deve ser estratégico Além de estar disponível, a IA precisa ser incorporada à rotina do negócio para produzir efeitos. A diferença entre conhecer a tecnologia e utilizá-la aparece nos dados da pesquisa. Segundo Anna Carolina Gouveia, economista e pesquisadora do FGV Ibre, 96% das micro e pequenas empresas declararam ter algum grau de familiaridade com a tecnologia. Entre os MEIs, o percentual foi de 87%. Quando a pergunta considera o uso da IA para apoiar atividades do negócio, os índices caem para 46% entre micro e pequenas e para 42% entre MEIs. Atenção: IA avançada pode representar um 'risco existencial para a humanidade', alerta ONU Também há diferença na finalidade do uso. Entre MEIs e micro e pequenas empresas, o uso da tecnologia se concentra em marketing, divulgação e comunicação. Nas empresas médias e grandes, aparecem aplicações relacionadas a análise de dados, gestão e eficiência. — Não é apenas saber que a inteligência artificial existe. Todo mundo já sabe. A questão é a forma como ela é utilizada. Quanto mais estratégico for esse uso, melhor será para a empresa: ela poderá alcançar mais pessoas, crescer ou aumentar a produtividade — explica Anna Carolina. Atualizar é preciso A capacitação é outro fator. Nas empresas maiores, há mais recursos para contratar profissionais especializados e treinar funcionários. — Nas micro e pequenas empresas e entre os MEIs, muitas vezes é a mesma pessoa que faz tudo: vende, fecha as contas no fim do mês, cuida do marketing e da comunicação. Com isso, faltam tempo e recursos para a qualificação — diz Anna Carolina. Quer morar fora? Veja guia interativo com informações sobre 36 países O uso da tecnologia também exige atenção com as informações produzidas, os dados inseridos e as decisões tomadas a partir das respostas. Pedro Burgos, especialista em IA e fundador da Co.Inteligência, alerta para a possibilidade de a ferramenta apresentar informações erradas. Segundo Burgos, as versões gratuitas costumam ser a porta de entrada para quem começa a usar a tecnologia, mas é importante conhecer as limitações dos modelos, aprender a formular comandos adequados e, quando necessário, recorrer a versões mais avançadas — e pagas. No Quênia, uma indústria se desenvolveu fazendo trabalhos acadêmicos para estudantes no exterior. Então veio a IA A originalidade dos materiais também deve ser conferida: um slogan ou nome sugerido pela IA pode já existir no mercado. Além disso, Burgos recomenda, a quem procurar capacitação, buscar cursos que partam das necessidades do negócio, e não apenas do funcionamento de uma ferramenta: — Eu acho que a gente tem que pensar menos na tecnologia e mais no uso aplicado. Acho que muitos desses programas focam demais na tecnologia e menos no uso. Na parte administrativa, Soares, do Sebrae Nacional, recomenda que informações de contabilidade e gestão financeira sejam conferidas por profissionais. O Sebrae também alerta que é preciso garantir a proteção de dados de clientes e outras pessoas quando essas informações são utilizadas em ferramentas digitais, observando a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). A entidade tem cursos e ferramentas digitais gratuitos para pequenos negócios em suas plataformas. Erica Mester, fundadora da Divas do Lucro, iniciativa voltada à capacitação de mulheres empreendedoras, trabalha o uso da IA em um módulo de Redes Sociais para Negócios. Nas aulas, ensina a usar ferramentas como o ChatGPT para criar posts, legendas e imagens, mas também mostra como a tecnologia pode ajudar a identificar diferenciais, entender o público e pensar novas formas de apresentar produtos e serviços. — A principal dificuldade que percebo é entender que a inteligência artificial pode ajudar a pensar o negócio, e não apenas a produzir conteúdo para divulgá-lo — conta Erica. A experiência em sala também revela diferenças na forma como as empreendedoras chegam à tecnologia. Segundo Erica, as mais velhas frequentemente recorrem à ajuda de filhos ou netos, enquanto as mais jovens costumam buscar as ferramentas por conta própria. Atenção ao uso da ferramenta Confira as respostas: A ferramenta pode apresentar informações erradas. Decisões contábeis, financeiras e outras que tenham impacto no negócio devem ser validadas por profissionais. Proteja os dados: Informações de clientes, funcionários e fornecedores exigem atenção às regras da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) antes de serem inseridas em ferramentas de IA. Pesquise nomes e slogans: Um material criado por IA pode coincidir com algo que já existe. Verifique nomes comerciais, slogans e outros elementos antes de utilizá-los. Parta de uma necessidade: Busque uma capacitação que mostre como a IA pode resolver os problemas concretos da empresa, em vez de uma que apenas ensine a usar a tecnologia. Mantenha-se atualizado: Os modelos e recursos de IA mudam rapidamente. *Alunos do curso Jornalismo do Futuro, sob a supervisão de Luciana Rodrigues

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