Uma viagem da Suíça às paradisíacas Ilhas Canárias, arquipélago espanhol conhecido por suas praias e paisagens vulcânicas, terminou em prisão para dois homens apontados como líderes de uma organização criminosa suspeita de traficar ovos de aves silvestres brasileiras, especialmente papagaios. A dupla foi detida na Ilha de Gran Canaria, na Espanha, durante uma operação internacional deflagrada pela Polícia Federal (PF) na manhã desta segunda-feira. Batizada de Ninho Vazio, a ação mobilizou autoridades de três países e teve como ponto de partida a apreensão de 24 ovos escondidos sob a roupa de uma passageira suíça, a maioria no sutiã, no Aeroporto Internacional do Galeão, no Rio, em outubro do ano passado. Palácio Guanabara: Douglas Ruas define equipe de transição para novo governo Combate ao monopólio da internet pelo CV: Mãe e irmão de Oruam, além de vereador Fábio Silva (Podemos), são presos pela PF Os dois investigados haviam viajado juntos da Suíça para as Ilhas Canárias, região que abriga diversos criadouros e parques dedicados a papagaios e outras aves da mesma família. As prisões foram realizadas pela Polícia Nacional da Espanha, com base em mandados de prisão preventiva expedidos pela Justiça brasileira, no âmbito da cooperação policial internacional. Enquanto os suspeitos eram detidos em território espanhol, autoridades suíças cumpriam três mandados de busca e apreensão na cidade de Weinfelden. No Brasil, policiais federais prenderam temporariamente dois investigados e cumpriram outros três mandados de busca e apreensão em Curitiba, no Paraná. Morro da Coroa: operação mira suspeito de assaltar arqueóloga de 81 anos no Leblon Durante as buscas realizadas na capital paranaense, agentes encontraram dezenas de animais empalhados, além de ossadas e crânios de animais. Imagens divulgadas pela PF mostram exemplares de diferentes espécies dispostos no chão de uma residência e uma grande quantidade de crânios organizados em recipientes. O material foi apreendido durante o cumprimento dos mandados. Entre os materiais apreendidos na Operação Ninho Vazio estão animais empalhados, como macacos e aves, encontrados em imóvel de investigados em Curitiba Divulgação/Polícia Federal A mesma mulher suíça flagrada tentando embarcar com 24 ovos escondidos sob a roupa no Aeroporto Internacional do Galeão, em outubro de 2025, agora é alvo de um mandado de prisão preventiva. Apontada como responsável pelo transporte clandestino dos ovos, ela foi incluída na Difusão Vermelha da Interpol, mecanismo de cooperação internacional destinado à localização de pessoas procuradas pelas autoridades judiciais. Ovos no sutiã e viagens repetidas ao Brasil Na ocasião que deu origem à investigação, a passageira se preparava para embarcar para a Suíça quando foi interceptada por policiais federais. Com passaporte diplomático, ela levava 24 ovos escondidos sob a roupa, a maioria no sutiã, presos ao corpo com meias de nylon. Ao ser abordada, afirmou que eram ovos de galinha garnizé. A justificativa, no entanto, não convenceu os policiais. Os ovos foram apreendidos e começaram a eclodir já no dia seguinte. Dos 24 exemplares, apenas nove filhotes sobreviveram. Apesar do flagrante, a mulher foi liberada após a apreensão. O episódio levou os investigadores a aprofundar a análise do histórico de viagens da suíça. Os agentes descobriram que ela esteve no Brasil 17 vezes entre 2019 e 2025, sempre em estadias curtas. Em algumas ocasiões, chegou a embarcar de volta para a Europa no mesmo dia em que desembarcou em território brasileiro. Para a PF, o padrão reforçou a suspeita de que o transporte clandestino de ovos não se tratava de um episódio isolado. Aquela relíquia de família pode virar notícia: envie ao GLOBO uma foto e conte a história dela Entre os filhotes sobreviventes, foram identificados o papagaio-de-cara-roxa (Amazona brasiliensis) e o papagaio-charão (Amazona pretrei). Este último, encontrado principalmente no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, está ameaçado de extinção. Já o papagaio-de-cara-roxa, que vive no litoral de São Paulo e do Paraná, é classificado como quase ameaçado. Segundo a PF, além de comprometer a reprodução dessas espécies, a retirada ilegal dos ovos representa uma ameaça à conservação da fauna brasileira. As condições inadequadas de transporte também provocaram sofrimento e elevada mortalidade dos embriões. Viagens entre Brasil e Suíça por duas décadas Ao aprofundar as investigações, a Polícia Federal identificou um histórico de viagens recorrentes de integrantes do grupo entre o Brasil e a Suíça ao longo de aproximadamente 20 anos. Entre os deslocamentos analisados, havia diversas passagens de curta duração pelo território brasileiro. Para os agentes, o padrão das viagens, somado às comunicações entre os suspeitos, aos vínculos identificados e à apreensão dos ovos no Galeão, constitui indício de uma atividade reiterada de tráfico internacional. Polícia Civil investiga: morte de tio de filho de cantora gospel expõe divergência na família sobre o caso As apurações também apontaram uma divisão de tarefas entre os integrantes da organização. Enquanto alguns seriam responsáveis pela obtenção dos ovos no Brasil, outros atuariam na organização das viagens, no transporte clandestino e na recepção do material no exterior. Os investigados poderão responder, conforme a participação de cada um, por tráfico de animais silvestres, maus-tratos, contrabando e organização criminosa. As investigações continuam para identificar outros possíveis fornecedores, intermediários e destinatários dos animais, além de esclarecer a extensão das atividades ilegais atribuídas ao grupo. Tráfico de animais movimenta bilhões de dólares O tráfico de animais silvestres retira milhões de exemplares da natureza brasileira todos os anos. Segundo estimativas divulgadas pela Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais Silvestres (Renctas), cerca de 38 milhões de animais são retirados anualmente de seus habitats naturais no país. Desse total, a entidade estima que nove em cada dez animais traficados morram antes de chegar às mãos do consumidor final, seja durante a captura, seja em razão das condições de transporte. Ainda de acordo com a Renctas, o comércio ilegal de animais silvestres movimenta aproximadamente US$ 2 bilhões por ano no Brasil. A organização classifica o tráfico de fauna como a terceira maior atividade ilegal do mundo, atrás apenas do tráfico de armas e de drogas. As cifras são estimativas divulgadas pela entidade, e não uma contagem atualizada de ocorrências.
Das Ilhas Canárias à Suíça: PF prende suspeitos de tráfico de ovos de papagaios e apreende animais empalhados e ossadas
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O Globo
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