247 – Uma mensagem enviada pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), em 16 de novembro de 2025, véspera de sua prisão, revela dificuldades para realizar transferências financeiras e uma promessa de regularizar pagamentos nos dias seguintes.
O conteúdo foi encaminhado por meio de uma imagem de visualização única no WhatsApp, após ser digitado no aplicativo Bloco de Notas do celular. Segundo a coluna do jornalista Cézar Feitoza, do UOL, nesta terça-feira (3), a mensagem foi recuperada a partir de arquivos temporários armazenados no iPhone de Vorcaro, mesmo depois de o texto original ter sido apagado.
A conversa ocorreu em meio às dificuldades enfrentadas pelo dono do Banco Master e às investigações sobre o financiamento de um filme dedicado à trajetória política de Jair Bolsonaro. “Vai dar certo essa semana.
O cara que mandei a grana nao liquidou, e eu estou num momento dificil demais. Foram duas parcelas que mandei e ele nao liquidou.
Muito foda. Mas ja organizei pra fazer de novo na terça.
Ta muito dificil mas vamos vencer. Se eu passar da semana que vem ai resolvemos tudo em seguida”, escreveu Vorcaro.
O texto foi enviado em resposta a uma mensagem de Flávio Bolsonaro, que havia encaminhado duas fotografias de visualização única e reafirmado sua proximidade com o banqueiro. “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente.
Só preciso que me dê uma luz! Abs!”, escreveu o senador, às 15h46 daquele domingo. Depois de receber a resposta de Vorcaro, Flávio Bolsonaro reagiu no minuto seguinte: “Amém!”.
A sequência sugere que os dois discutiam dificuldades relacionadas a compromissos financeiros. A reportagem associa o diálogo ao financiamento do filme Dark Horse, produção cinematográfica sobre a trajetória do ex-mandatário Jair Bolsonaro (PL) até a Presidência da República.
O conteúdo recuperado, porém, não identifica expressamente o destinatário das transferências mencionadas pelo banqueiro. Vorcaro havia prometido R$ 132 milhões para filme sobre Bolsonaro
De acordo com a reportagem, Daniel Vorcaro assumiu um compromisso contratual de R$ 132 milhões para financiar Dark Horse. O montante deveria ser transferido em 14 parcelas, mas apenas sete pagamentos haviam sido realizados até a prisão do banqueiro.
Os repasses efetuados somaram R$ 67 milhões. A Polícia Federal investiga se os recursos foram efetivamente utilizados na produção cinematográfica ou se tiveram outra destinação.
Entre as suspeitas examinadas estão os crimes de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção. As conversas entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro mostram que o senador acompanhava o andamento do projeto e mantinha contato frequente com o financiador.
Em 7 de novembro de 2025, Flávio Bolsonaro enviou um vídeo de visualização única ao banqueiro e afirmou que o material apresentado era “possível por causa de vc!”. Quatro dias depois, em 11 de novembro, encaminhou outro vídeo relacionado às gravações do filme.
Nos dias 13, 14 e 15, tentou conversar por telefone com Vorcaro, mas não conseguiu completar as ligações. Na manhã de 16 de novembro, Flávio Bolsonaro voltou a procurar o banqueiro.
Vorcaro respondeu que não poderia atender porque estava na igreja. À tarde, o senador retomou o contato e enviou as mensagens que antecederam a resposta sobre as parcelas não liquidadas.
Mensagem foi recuperada após ser apagada do celular A reportagem do UOL detalha o procedimento utilizado para recuperar o conteúdo enviado ao senador.
Vorcaro chegou à sua residência no Lago Sul, em Brasília, por volta das 14h50 de 16 de novembro. Ele havia desembarcado na capital federal e aguardava um encontro com o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).
Flávio Bolsonaro enviou sua última mensagem daquela sequência às 15h46. O banqueiro a visualizou quatro minutos depois.
Às 15h51, Vorcaro abriu o aplicativo Bloco de Notas e começou a redigir a resposta. Levou aproximadamente 70 segundos para concluir o texto e fez uma captura de tela às 15h52.
Cinco segundos depois, abriu o WhatsApp, acessou a conversa com Flávio Bolsonaro e encaminhou a imagem com a configuração de visualização única. Entre a captura de tela e o envio transcorreram apenas nove segundos.
Embora a anotação tenha sido apagada e a imagem não tenha permanecido na galeria de fotografias, o sistema do iPhone conservou um arquivo temporário em PDF. O UOL cruzou os metadados desses arquivos com os registros de atividade do aparelho, o que permitiu reconstruir o conteúdo da mensagem e a sequência de ações realizadas pelo banqueiro.
Ex-banqueiro também procurou Alexandre de Moraes No mesmo período em que conversava com Flávio Bolsonaro, Vorcaro buscava contato com Alexandre de Moraes.
Segundo a reportagem, o banqueiro viajou a Brasília em 16 de novembro para se encontrar com o ministro. A reunião havia sido combinada na noite anterior, por meio de mensagens enviadas com o mesmo procedimento utilizado na conversa com o senador: textos digitados no Bloco de Notas, convertidos em imagens e encaminhados pelo WhatsApp com visualização única.
A Polícia Federal reuniu essas comunicações em um relatório encaminhado ao Supremo Tribunal Federal por determinação do ministro André Mendonça. Os investigadores conseguiram recuperar apenas as mensagens enviadas por Vorcaro.
Os registros indicam que o banqueiro já tinha conhecimento de uma possível ação policial contra ele e o Banco Master. Às 18h23 de 15 de novembro, Vorcaro escreveu a Moraes:
“Nao conseguimos reverter isso com Paulo ou Andrei? Muita sacanagem isso. Isso em Brasilia?”
Mais tarde, às 19h43, manifestou preocupação com a possibilidade de uma operação comprometer as medidas que afirmava estar tentando concluir. “Muitas sacanagem isso.
Esses caras devem estar sabendo que estou resolvendo tudo essa semana e querem acabar com tudo antes”, escreveu. Às 21h23, solicitou um encontro com o ministro:
“Podemos nos ver amanha rapidamente algum horario?” Dez minutos depois, acrescentou:
“Vou na parte da tarde entao. Veja um horario que nao vai te atrapalhar muito.
Pode ser bem rapido”. No domingo, 16 de novembro, Vorcaro voltou a procurar Moraes.
Às 13h40, informou que estava a bordo de um avião e que seguiria diretamente ao encontro. “Vou pousar 14:20 e irei direto praí, tudo bem?”, escreveu.
Vorcaro tentou adiar ação da Polícia Federal Uma das mensagens mais relevantes identificadas pela investigação foi enviada às 16h57 de 16 de novembro, pouco mais de uma hora depois da conversa com Flávio Bolsonaro.
Nela, Vorcaro pediu a Moraes que tentasse sensibilizar Andrei, em referência feita no contexto das tratativas sobre a operação policial, para que uma eventual medida fosse adiada. “Se o Andrei conseguir atrasar pra putra semana, pois tem feriado, o banco nao quebra.
Tenta chamar ele e sensibilizar isso se achar possivel”, escreveu o banqueiro. A mensagem indica que Vorcaro considerava o adiamento da operação decisivo para a continuidade do Banco Master.
O pedido também ajuda a contextualizar a preocupação expressa anteriormente a Flávio Bolsonaro, quando o banqueiro afirmou que precisava superar a semana seguinte para conseguir resolver suas pendências. As comunicações recuperadas mostram que, enquanto tratava de pagamentos com o senador, Vorcaro também procurava interlocução no Supremo diante da perspectiva de medidas policiais contra ele.
As defesas de Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro foram procuradas pela reportagem, mas não se manifestaram até a publicação da matéria.
Brasil 247