Em que momento a França se ferrou? A antológica pergunta que Mario Vargas Llosa escreveu para seu personagem, contemplando os múltiplos fatores que faziam do Peru um país fracassado, vem à mente diante da orgia de violência que está chacoalhando o país, com um governo quase inerme, forças policiais subdimensionadas e medidas atrasadas, como o anúncio de implantação do toque de recolher no local mais afetado. Uma única certeza: elas vão acontecer. E vão replicar o mesmo padrão de sempre, envolvendo várias camadas de participantes. A mais evidente é a dos estudantes que começaram o ciclo de protestos, sob simpatia geral – quem pode ser contra melhorar as escolas e aprimorar as condições de ensino? Outra camada envolve militantes e agitadores do partido de extrema esquerda França Insubmissa, cujo líder, Jean-Luc Mélenchon, é recebido com aplausos.
Misturados a eles, estão o que os franceses chamam de “casseurs”, a turma do quebra-quebra, de cara coberta e palavras de ordem anarquistas, saídos da impenetrável rede dos black blocs ou com origem na periferia multiétnica. Para completar, os saqueadores praticamente profissionais. Parece que já chegam com uma “lista de compras” dos produtos que interessam. “Os homens chegam primeiro, arrombam as portas e pegam a mercadoria. Depois, passam para as mulheres”, descreveu Franck, identificado apenas pelo primeiro nome, funcionário de um hotel na Praça da República, o marco zero dos protestos que viraram baderna, onde foi decretado o toque de recolher a partir da noite de ontem. “Tive vontade de chorar”, disse ele sobre os pedaços de pedra de mais de um palmo de largura arrancados do contorno do monumento à República.
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Franck também tem vídeos mostrando como os “manifestantes profissionais” levam martelos e outras ferramentas para arrancar petardos contra a polícia. Num deles, a fachada de pedra de uma padaria é destroçada em menos de dois minutos. BEM-ESTAR ENDIVIDADO O governo de Emmanuel Macron está fraco e todo mundo sabe disso. Deveria ter decretado o toque de recolher e outras medidas mais severas quando a situação escapou totalmente ao controle no fim da tarde e começo da noite de sábado. São atos legítimos para defender a ordem, pilar fundamental dos deveres do Estado, do qual dependem todos os outros direitos. Desgastado pelos quase dez anos no poder e pela falta de sintonia, execrado à esquerda e à direita, Macron parece o retrato de um presidente em fim de linha, com discursos vazios e atitudes vacilantes. O oposto em tudo do dinâmico jovem que irrompeu na política com a promessa de promover as reformas de que a França precisa – mas que não faz por pressão da própria população.
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Muitos analistas interpretam a realidade atual como um retrato da armadilha fiscal em que países europeus desenvolvidos estão: o Estado de bem-estar social está endividado e não tem mais dinheiro para consertar o que insufla o estado de mal-estar social. É, obviamente, o pano de fundo. Mas existem também fatores culturais e políticos específicos, como a condescendência com protestos violentos, como se fossem um bem a ser preservado, um eterno e louvado repetir de 1968. A complacência da Justiça também contribui. Onde estão os punidos pela violência em protestos anteriores, com a constante repetição do mesmo roteiro (“Começou pacífico, depois uma minoria etc. “) durante as manifestações dos “coletes amarelos”? Prometer que será cortado aos desordeiros o equivalente à bolsa-família (646 euros por mês) não soa exatamente efetivo – e muitos duvidam que venha a acontecer.
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MARINE PRESIDENTE? Resultado: só existe uma pessoa hoje na França mais satisfeita do que o ultraesquerdista Mélenchon. É Marine Le Pen. Ela já chegou a 34,8% das preferências no primeiro turno, mais do que o dobro dos segundos colocados, o centrista Édouard Philippe e o próprio Mélenchon. Na Polymarket, a candidata da direita nacionalista bateu em 47%. Imaginem o que será a campanha presidencial do ano que vem – e o que seria um governo Le Pen em matéria de protestos. Alguns já falam em terceiro turno. O complexo conjunto de fatores que leva ao favorecimento de Marine Le Pen pode ser visto como a resposta à pergunta inicial. A França se ferrou – Vargas Llosa usa uma palavra menos publicável – quando não viu que tinha que dar um jeito na gastança e parar de cultuar a violência como manifestação política legítima e de condenar como fascismo tudo o que pediam os cidadãos ansiosos por ordem, além de mais controle na imigração. Saques e incêndios são execráveis, seja num pequeno comércio, seja numa loja da Hermès, como aconteceu no sábado, e a maioria dos franceses vê isso muito bem.
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Fora os de esquerda, que fazem libelos emocionados pelos “estudantes” enquanto Paris pega fogo, a resposta que estão dando, mesmo que não concordem com todas as suas ideias, é escolher Marine presidente. A probabilidade de que os problemas fiscais de fundo sejam resolvidos com ela é perto de zero.
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