Um trem de alta velocidade da estatal Renfe atingiu a traseira de uma composição da empresa privada Iryo que estava parada na mesma via, nesta quarta-feira, na província de Toledo, na Espanha. A colisão deixou ao menos 68 mortos e dezenas de feridos.
Entre a ordem para que os trens voltassem a circular em velocidade normal, dada depois de uma falha no sistema, e o impacto, passaram-se 17 minutos. O ministro dos Transportes espanhol, Óscar Puente, classificou a decisão como “inexplicável” em entrevista coletiva após o acidente, considerado o mais letal desde 2013, quando o descarrilamento de um trem perto de Santiago de Compostela matou 80 pessoas.
Contexto: colisão entre trens de alta velocidade na Espanha deixa ao menos 68 mortos; circulação ferroviária foi interrompida Quer morar fora do Brasil? Veja guia interativo que reúne informações sobre 36 países
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Por volta das 8h30 (4h30 em Brasília), o LZB, sistema alemão que controla a velocidade e freia automaticamente os trens na linha Madri-Sevilha, falhou por um problema de comunicação nos computadores, segundo Puente. Cerca de seis trens que circulavam no trecho, três em cada sentido, pararam automaticamente, e o controle passou a ser manual.
Onde aconteceu o acidente na Espanha? Arte/O GLOBO
Por volta das 8h36, a central de controle da Adif, a empresa pública que administra a infraestrutura ferroviária, mandou os trens retomarem a viagem “com normalidade”, ou seja, em velocidade normal. Segundo o ministro, o trem da Renfe tinha a obrigação de permanecer parado, porque o trecho à frente estava ocupado pela composição da Iryo e havia um sinal vermelho no local.
Mesmo que fosse autorizado a seguir, o protocolo exigia marcha “à vista”, com no máximo 40 km/h. Equipes de emergência atuam no local de uma colisão entre trens de alta velocidade
JAVIER SORIANO / AFP De acordo com o jornal El País, um dos trens chegou a corrigir o controlador, lembrando que o protocolo exigia marcha lenta, mas a correção não foi repassada ao trem da Renfe.
Os alertas ignorados O trem da Iryo não conseguiu arrancar e ficou parado na entrada da estação de Urda.
Segundo a reconstituição feita pelo governo e divulgada pelo El País, a composição recebeu às 8h41 a instrução de seguir viagem. Às 8h48, cinco minutos antes do choque, a maquinista ligou para a central para avisar que o trem estava parado e não conseguia reiniciar o sistema.
Ninguém repassou o aviso ao maquinista da Renfe. Imagens aéreas mostram resgate de vítimas após colisão de trens na Espanha
Segundo fontes do governo ouvidas pelo jornal, o controlador tinha três alertas: o aviso da Iryo, a tela que mostrava a composição parada e o sinal vermelho no ponto onde ela estava. Ele também não estava sozinho, já que trabalhava com um auxiliar e sob a supervisão de um superior.
Nenhum dos três mandou o trem da Renfe parar ou reduzir a velocidade. Sem o LZB, o maquinista não recebe nenhum aviso na cabine sobre a presença de outro trem e depende apenas das orientações da central.
O choque O trem da Renfe, que havia saído de Madri às 8h rumo a Sevilha com 393 passageiros, percorreu os 25 quilômetros que o separavam do Iryo, que levava 151 pessoas, e o atingiu por volta das 8h53 (4h53 em Brasília).
A velocidade ainda não foi determinada, mas naquele trecho os trens podem chegar a 200 km/h, segundo Puente. A frente da composição da Renfe ficou completamente destruída.
Dois vagões traseiros do trem da Iryo tombaram, e um terceiro descarrilou. Entenda como ocorreu a colisão entre trens na Espanha
Arte / O Globo — Estávamos parados e, de repente, sentimos um impacto muito forte — relatou ao El País Iñaki, de 60 anos, que viajava no vagão 2 da Iryo.
'Se houve negligência, virá à tona': Premier espanhol decreta três dias de luto após colisão de trens que deixou dezenas de mortos Dos 68 mortos, 24 estavam no trem da Renfe e 44 no da Iryo, segundo o governo de Castilla-La Mancha.
Cerca de 15 pessoas estão em estado grave ou crítico, e outras 53 foram hospitalizadas com ferimentos moderados. O que acontece agora
O controlador, isolado desde a manhã no centro de controle e acompanhado por um advogado e por um psicólogo, foi interrogado pela Guarda Civil e está sob investigação. O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, decretou três dias de luto oficial e afirmou que, “se houve alguma negligência, ela virá à tona”.
O primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez Borja Puig de la Bellacasa/La Moncloa/AFP
Terceiro acidente do ano A colisão é o terceiro acidente ferroviário grave na Espanha neste ano.
Em 18 de janeiro, 46 pessoas morreram quando dois trens de alta velocidade das mesmas companhias colidiram perto de Adamuz, em Córdoba, até então o pior desastre ferroviário do país desde 2013. As investigações apontam a ruptura de um trilho como causa provável.
Dias depois, um trem suburbano descarrilou perto de Barcelona ao bater em um muro de contenção que havia desabado sobre os trilhos, matando o maquinista.
O Globo