247 – Diante do encarecimento continuado de itens essenciais e da insatisfação crescente da população, a elevação do custo de vida consolidou-se como o obstáculo central para o governo de Donald Trump, ameaçando a maioria republicana na Câmara dos Deputados dos Estados Unidos, informa o Jornal Nacional.
A crise econômica atinge diretamente a base do comércio local e o cotidiano das famílias. No Texas, a disparada dos preços alterou hábitos tradicionais.
O empresário Andrew, proprietário de uma churrascaria local, viu-se obrigado a retirar o corte mais popular do cardápio, o brisket (peito bovino), substituindo-o por bochecha de boi. “O brisket é o item mais popular do churrasco texano.
Então, é um pouco estranho, sabe? Só que essa carne nunca esteve tão cara. Já foi metade do que está agora”, diz Andrew.
Os fatores de pressão sobre os custos são múltiplos, englobando fretes, combustível e a retração do rebanho bovino norte-americano. Além disso, as operações contra trabalhadores imigrantes têm paralisado cadeias de fornecimento.
“Esta semana, a gente não recebeu a encomenda das outras carnes porque uma das fábricas sofreu uma batida da polícia de imigração, o ICE. Aí eles nos avisaram que a fábrica foi fechada”, conta Andrew.
Atualmente, cerca de 7,5 milhões de trabalhadores em situação irregular atuam nos Estados Unidos, representando mais de 10% da força de trabalho em setores estratégicos como agricultura e construção civil. A repressão a essa mão de obra reflete diretamente no consumo final e no descontentamento dos eleitores.
“Neste momento, as coisas estão difíceis. Eu votei no Trump na última eleição e não estou feliz com esse governo agora”, diz Milton.
Outro vetor central da inflação é a crise energética associada aos conflitos internacionais. “Precisamos acabar com essa guerra no Irã”, afirma Joseph.
A maioria dos cidadãos considera a intervenção militar um erro, empurrada pelos reflexos diretos nas bombas de combustível: nos últimos 12 meses, a gasolina acumula alta de 34%, enquanto o diesel subiu quase 70%. Analistas apontam que o cenário é agravado por decisões da própria administração.
“Não é um problema que começou agora. Agora, o Trump, como sempre, fez muita coisa para piorar.
Entre elas, evidentemente, as tarifas, que encareceram muitas coisas. A campanha dele contra imigrantes, que em certas áreas aumentou muito o custo do trabalho.
E, em terceiro lugar, um déficit muito grande”, explica José Scheinkman, economista e professor da Universidade de Columbia. Os impactos são sentidos em pequeno e grande porte.
A comerciante Daisy, que já administrou quatro sorveteiras, mantém apenas uma unidade em funcionamento. “Os números simplesmente não estão fechando”, afirma Daisy.
Dados de outubro revelam que 73% dos norte-americanos declaram extrema preocupação com os preços de alimentos e artigos de primeira necessidade. Ademais, quase 30% da população relata incapacidade de quitar as contas mensais.
Na cidade de Perry, em Iowa, a busca por apoio em despensas comunitárias tornou-se frequente para famílias da região. “É que tudo está muito caro agora: aluguel, contas de luz e água, gasolina, até atendimento médico”, diz Amanda, moradora assistida pelo serviço comunitário.
“O que eu espero é que eu não precise mais dessa ajuda e que eu possa estar aqui como voluntaria”, acrescenta. Com o desgaste econômico ameaçando o controle parlamentar, governos estaduais alinhados à Casa Branca promoveram alterações nos mapas dos distritos eleitorais para conter possíveis perdas nas urnas.
“O que a gente está vendo como parte das ações de Trump são tentativas de modificar as regras eleitorais ou modificar uma parte delas, pelo menos, para amenizar o tamanho da derrota ou, às vezes, até evitá-la”, diz Cesar Zucco, professor de Relações Internacionais da Universidade de Columbia.
No sistema de voto distrital dos EUA, a delimitação das fronteiras geográficas define a distribuição das vagas na Câmara. A manipulação partidária desses limites, prática conhecida como gerrymandering, foi aprovada em sete estados sob gestão republicana, incluindo o Texas, gerando reação imediata dos democratas em estados como a Califórnia.
“Só mudando o mapa, você muda o resultado da eleição. Não é o governo federal que desenha os mapas.
São governos estaduais. Mas os governos estaduais alinhados com Trump foram muito agressivos no redesenho”, afirma Cesar Zucco.
A consequência da polarização e do redesenho distrital é a redução das áreas de disputa real entre os partidos. “Cada ciclo que muda, a gente tem cada vez menos disputas reais.
Cada vez mais, a gente já sabe quem são os vencedores dos distritos antes da eleição. Então, essa é a grande mudança”, afirma Mauricio Moura, economista e professor da Universidade George Washington.
Das 435 cadeiras em jogo na Câmara dos Deputados, a competição efetiva ficará restrita a cerca de 20 distritos, que definirão o equilíbrio de poder em Washington. “Pela matemática que a gente tem hoje, é altíssima a probabilidade de os democratas ganharem a Câmara”, diz Mauricio Moura.
Brasil 247