Custo da comida supera alta dos salários e deve subir mais

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Unsplash Os preços dos alimentos e dos serviços compõem uma dupla que empurrou a inflação brasileira para bem acima da meta nos últimos anos — e ela nunca mais voltou para perto dela. A deflação observada no IPCA em agosto (-0,32%) e a virtual estabilidade do índice em julho (0,07%) foram agradáveis surpresas passageiras. O IPCA acelerou em setembro (0,88%), compondo cenário negativo. A inflação voltou a ultrapassar o teto da meta, de 4,5%. Um dos principais fatores de alta, depois do fim do bônus de Itaipu e dos preços dos transportes, empurrados pelos combustíveis, foi o fim do período de bom comportamento do custo da alimentação e bebidas. Ele subiu 0,83% em setembro, com impacto de 0,18 ponto na elevação do índice geral. Foi uma reviravolta após três meses consecutivos de queda, favorecida pelo aumento da oferta sazonal de produtos in natura. Em junho, os alimentos e bebidas ficaram 0,24% mais baratos, em julho, 0,67%, a maior queda em dois anos, e, em agosto, 0,34%. Mas os produtos cujos preços caíram naqueles meses e aliviaram a conta de supermercado da população agora são vilões. Entre eles estão o tomate e a batata, que subiram 37% e 24%, respectivamente, em setembro, em consequência das chuvas acima da média no Sudeste, além da cebola, arroz e carnes — todos itens importantes na dieta diária da população. Algumas quedas amenizaram a alta, como é o caso do frango inteiro e em pedaços e de frutas sazonais. Não deu para evitar que a alimentação fora de casa também ficasse mais cara, com aumento de 0,48% dos preços em setembro, ante 0,36% em agosto. O custo das refeições em restaurantes subiu 0,49%, ligeiramente acima da variação de 0,47% dos lanches. Entre os componentes da inflação, o grupo de alimentos e bebidas é o que tem potencial de influenciar o humor da maior parcela do eleitorado. O encarecimento dos alimentos afeta diretamente a população e dissemina o sentimento de elevação do custo de vida. A compra de alimentos, segundo a Fundação Getulio Vargas (FGV), consome de 22% a 25% da renda dos mais pobres, e entre 18% e 20% das faixas mais elevadas. Em outra forma de dimensionar o problema, sondagem do Mercado de Trabalho também feita pela FGV em agosto constatou que a compra de alimentos é a despesa com maior impacto no orçamento das famílias, mencionada por 81,9% dos entrevistados. Na faixa de renda de até dois salários-mínimos, o percentual sobe para 87% (Valor 6/10). O número é expressivo. Entre os trabalhadores ocupados no Brasil, 32,2% recebem até um salário-mínimo por mês, de acordo com dados do IBGE do segundo trimestre deste ano. A parcela de quem ganha até dois salários-mínimos chega a quase 70% (69,1%). Isso significa que apenas 30,9% das pessoas ocupadas têm renda mensal acima de R$ 3.242 por mês. A percepção da população em relação ao encarecimento do custo dos alimentos tem fundamento. Os preços da refeição em domicílio cresceram nada menos que 60,8% entre abril de 2020 e agosto de 2026, mesmo tendo caído nos três últimos meses desse período. Esse aumento superou a inflação em 12,7%, que foi de 42,7% medida pelo IPCA no mesmo espaço de tempo. Pior do que isso, os alimentos também subiram mais do que o rendimento médio dos trabalhadores, superando em 9,5% a inflação entre abril de 2020 e julho de 2026, o que significa que os salários, de fato, não acompanharam o aumento de custo da comida. As perspectivas nessa área não são tão positivas, como se seria de supor após a Conab projetar uma safra recorde de grãos para 2026-27, de 367,1 milhões de toneladas, 1,4% acima do registrado no ano passado. Os riscos climáticos, potencializados por um El Niño muito intenso, pode prejudicar a produtividade, frustrar as estimativas iniciais e impactar o custo da alimentação. Isso já começou a ocorrer. O excesso de chuvas no Centro-Sul tem dificultado o plantio da soja no Rio Grande do Sul, pelo excesso de umidade, e afetado a colheita da safra de inverno e o início das ações para a safra de verão no Paraná (Valor, 16-10).

Como setembro já demonstrou, novas altas de preços são esperadas não só pelo efeito do El Niño, que começa a pesar mais nesse período do ano, mas também pelo prolongamento do conflito no Oriente Médio, que tem mantido as cotações do petróleo acima de US$ 100 o barril, e encarecendo insumo importante da agricultura durante o plantio e colheita, e também o transporte. O grande temor de escassez aguda de fertilizantes, dos quais o país importa 85% de suas necessidades, parece afastado, mas os agricultores estão desembolsando mais dinheiro para comprá-los este ano. A previsão é que a variação dos preços dos alimentos e bebidas no IPCA feche o ano em 6,7%, acima dos 2,95% de 2025 e dos 5% estimados pelo boletim Focus. O peso de uma despesa tão relevante no orçamento das famílias como a alimentação é um dos fatores que explicam a insatisfação do brasileiro com a economia, com emprego e renda recordes.

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