O cultivo de uvas para a produção de vinhos finos pode demandar até 30 aplicações por safra de fungicidas para combate às duas principais doenças dos vinhedos: o míldio, que se manifesta com excesso de umidade, e o oídio, que aparece no verão seco. Alvorada 01: Conheça os segredos de produção da amêndoa de cacau mais premiada do mundo Manteiga: Popularização do murumuru garante renda e preservação na Amazônia No sul e sudeste de Minas Gerais, porém, dois agricultores estão cultivando experimentalmente uvas destinadas à produção de vinho com pouca ou nenhuma aplicação de fungicida, o que reduz o custo de produção e resulta em bebida mais sustentável. O segredo tem um nome: as uvas piwis, abreviação do termo alemão pilzwiderstandsfähige que significa resistência às doenças. Diferentemente das uvas dos vinhos de inverno, produzidos com a técnica da dupla poda, as uvas piwis são colhidas no verão. Orgulho: Em polo do agro em Goiás, abóboras gigantes ajudam a resgatar história da cidade A pesquisadora Claudia Souza, da Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig), explica que as piwis são uma nova geração de híbridos europeus resistentes a doenças, obtidos por retrocruzamentos (cruzamento de um híbrido com um de seus genitores) e seleção assistida por marcadores moleculares.
Esses híbridos apresentam mais de 85% de genes da espécie vitis vinifera, à qual pertencem as variedades de uvas usadas para elaboração de vinhos finos. A Epamig começou a estudar mudas de piwis importadas da Itália em novembro de 2021 em parceria com a Vinícola Stella Valentino, de Andradas, no sul de Minas. Foram plantadas na propriedade de José Procópio Stella 50 mudas de oito variedades: quatro tintas (Cabernet eidos, Cabernet Volos, Merlot Khantus e Merlot Khorus) e quatro brancas (Sauvignon Kratos, Sauvignon Rytos, Fleurtai e Soreli). As uvas foram colhidas em dezembro de 2023 e 2024. Qualidade: Portugal colhe uvas à noite para escapar do calor que chega a até 40°C — As piwis responderam muito bem no verão, com safras mais produtivas do que as das viníferas europeias puras e com bom índice de qualidade. Em 2024 e 2025 não aplicamos nada para controle do míldio e fizemos apenas três (em vez de 30) aplicações de fungicida para o oídio — diz Claudia Souza, que encerrou a pesquisa no ano passado. José Stella, dono da vinícola, gostou do resultado e decidiu aumentar a aposta nas piwis após o fim da parceria com a Epamig. Ele plantou 500 mudas da tinta Merlot Khantus e da branca Fleurtai para produzir vinho com as duas variedades durante três anos: Raro fora do Japão: Wasabi fresco desponta no interior de São Paulo — O futuro da viticultura na nossa região são essas uvas híbridas. Além de muito produtivas, não dão trabalho e não precisam de muita mão de obra. Não fiz aplicação de defensivo nas novas plantas. A qualidade dos vinhos da dupla poda é melhor, por enquanto, mas a técnica é cara, resultando em vinhos de R$ 300. Segundo Stella, o objetivo é oferecer um vinho das piwis por R$ 100 ou R$ 140.
O Globo