Crise estrutural do Rio favorece ‘voto antipolítica’ e avanço da extrema direita, diz economista

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Fonte da notícia: Valor Valor

Na avaliação do economista Mauro Osório, professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o avanço do campo bolsonarista no Rio de Janeiro reflete uma crise estrutural que se arrasta há décadas e alimenta um sentimento de descrença na política.

Para ele, o resultado das eleições de domingo (4) — com a vantagem de Douglas Ruas (PL) na disputa pelo governo no primeiro turno, a eleição de Carlos Portinho (PL) e Carlos Jordy (PL) para o Senado e a conquista de 21 cadeiras na Câmara dos Deputados — reflete esse cenário de insatisfação.

Para o pesquisador, o resultado vai além do antipetismo e deve ser compreendido como expressão de um voto "antipolítica", impulsionado pela deterioração econômica e institucional do Estado. "O Rio vive uma crise profunda. É a economia que menos cresce há décadas, tem indicadores sociais muito ruins e uma máquina pública desestruturada. Esse ambiente reforça um discurso de descrença no Estado e na política, que acaba favorecendo a extrema direita", afirmou.

O economista citou dados que ajudam a contextualizar. Entre 1970 e 2023, a participação do Rio de Janeiro no Produto Interno Bruto (PIB) nacional caiu de 16,7% para 10,7%, uma retração de 35,7%. O Estado ocupa apenas a sexta posição na indústria de transformação, atrás de São Paulo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina, e foi o único a perder empregos formais na indústria de transformação entre 1985 e 2025. Além disso, destaca o especialista, o Estado registra taxa de desemprego de 16,7% entre jovens de 18 a 24 anos, bem acima da média nacional, de 11,7%.

Para Osório, esse ambiente favorece candidaturas que se apresentem como ruptura com a política tradicional. Ele vê a vitória de Douglas Ruas como continuidade de um padrão observado desde a eleição de Wilson Witzel, em 2018. Na sua avaliação, Ruas conseguiu dialogar especialmente com eleitores da periferia metropolitana ao construir uma narrativa de renovação política.

"Ele se apresentou como o novo e conseguiu falar de integração do Estado, olhando para um Rio que muitas vezes não aparece no debate público. A periferia metropolitana do Rio tem indicadores muito precários, e isso alimenta um discurso de outsider, do 'vingador'", afirmou. Segundo o especialista, a surpresa provocada pelo desempenho de Ruas pode ter sido ampliada por limitações das pesquisas eleitorais, com parte do eleitorado da extrema direita não declarando seu voto aos institutos.

"Pode ter existido um voto envergonhado da extrema direita, mas também houve uma onda de crescimento do PL que, no Rio, parece ter sido ainda mais intensa. A crise mais pesada do Estado gera uma desorientação maior e pode exacerbar ondas antipolíticas como essa", afirmou.

Embora reconheça que o avanço da direita tenha ocorrido em todo o país, com fortalecimento do campo conservador nas disputas para o Senado e a Câmara, Osório avalia que o fenômeno assume proporções maiores no Rio devido às fragilidades econômicas e institucionais acumuladas.

Para ele, é necessário fortalecer as instituições públicas e construir uma agenda de desenvolvimento para o Estado. "A saída não é pela raiva nem pela extrema direita. É preciso mudar essa hegemonia política, fortalecer o Estado e discutir mais profundamente os problemas do Rio de Janeiro".

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