O Banco Central do Paraguai submeteu o Ueno Bank a um procedimento de resolução na terça-feira (3) e suspendeu as operações da instituição depois de constatar insuficiência de solvência e irregularidades ligadas ao Grupo Vázquez, seu controlador. A medida interrompeu a corrida de apoiadores de Flávio Bolsonaro que, desde a vitória de Lula em 25 de outubro, buscavam no país vizinho um suposto refúgio ideológico e tributário.
Nas redes sociais e nas buscas na internet, o interesse por trâmites migratórios para o Paraguai cresceu em múltiplos dígitos na semana seguinte à eleição. O discurso de oposição e os relatos de influenciadores digitais empurraram a narrativa do refúgio ideológico e tributário.
Na semana seguinte à eleição, a Câmara de Comércio Brasil-Paraguai registrou procura tão intensa por orientação jurídica e contábil que faltaram horários na agenda dos consultores. Menos de duas semanas depois, a crise bancária trocou o entusiasmo pela cautela.
“Foi uma semana bem intensa. E recebemos a notícia com balde de água fria nesta última semana, de que muitos empresários já estão meio receosos de ir para lá”, afirmou Jeancarlos Araldi, vice-presidente financeiro da Câmara de Comércio Brasil-Paraguai.
Entre os associados da entidade, a maior parte dos clientes atingidos pelo banco era de pessoas físicas, não de empresas. “É muito difícil uma empresa ter uma conta nele, são mais pessoas físicas”, disse Araldi.
O Ueno Bank chegou a ter cerca de 3 milhões de clientes e era um dos principais bancos digitais do país; no círculo da Câmara, atendia sobretudo pessoas físicas, inclusive brasileiros com negócios na faixa de fronteira. A resolução expôs a fragilidade de um dos principais bancos do país, num sistema financeiro menor que o brasileiro.
O fluxo migratório vinha acelerado antes do susto. Em 2 de novembro, a Direção Nacional de Migrações (DNM) do Paraguai iniciou uma nova etapa do programa MigraMóvil, de atendimento itinerante a estrangeiros.
O serviço começou por Ciudad del Este, polo comercial vizinho a Foz do Iguaçu (PR), e seguiria para Pedro Juan Caballero, cidade ao lado de Ponta Porã (MS). Brasileiros respondem por mais de 70% de todos os pedidos de residência processados no país, segundo o diretor-geral da DNM, Jorge Kronawetter.
A narrativa se apoiava no governo de Santiago Peña, economista de perfil conservador eleito em 2023, que renunciou em 5 de novembro e foi destituído pelo Senado — o vice Pedro Alliana assumiu. “Muitas pessoas que eu conheço que estariam já dispostas a começar a pensar com mais seriedade pisaram no freio, o que é natural”, disse Araldi.
O presidente do Instituto Paulista de Contabilidade, Luiz Fernando Nóbrega, levou contadores e empresários ao Paraguai na semana anterior à crise para conhecer o ambiente de negócios. Nóbrega pondera que o impacto da quebra sobre as empresas brasileiras precisa ser medido com cautela, porque o banco servia mais a pessoas físicas.
A Câmara de Comércio Brasil-Paraguai montou uma equipe de economistas e advogados para atender associados com dúvidas sobre a movimentação dos recursos retidos. A entidade, no entanto, não dispõe de um levantamento do total de clientes afetados.
Na prática, o banco deixou de operar e o supervisor passou a administrar a devolução do dinheiro aos correntistas. O Banco Central do Paraguai deu início ao processo de transferência e pagamento de depósitos.
O ministro da Economia, Oscar Lovera, afirmou neste sábado (7) que 1 milhão e 196 mil pessoas já receberam a garantia estatal nos pagamentos de quinta e sexta (5 e 6), num total de cerca de 160 milhões de dólares. Os demais calendários seguem em processamento.
Cerca de 32 mil aposentados que recebiam pelo Ueno migram para outros bancos, e o instituto de previdência local afirmou que os pagamentos de 17 de novembro serão mantidos. O contraste com o Brasil é direto.
Aqui, a eleição de 25 de outubro foi seguida de transição institucional e do funcionamento regular do sistema financeiro. Do outro lado da fronteira, o paraíso anunciado agora convive com um banco em resolução e com uma restituição ainda incompleta.
A promessa de estabilidade do Paraguai dependia da confiança no sistema financeiro local. A resolução de um dos principais bancos do país abalou essa confiança justamente quando o país tentava atrair mais brasileiros.
O fluxo de brasileiros para o Paraguai não parou de imediato. A procura por residência continua e o programa MigraMóvil mantém o calendário no interior do país.
O que mudou foi o ânimo de parte dos interessados, que agora pesam o risco de deixar o dinheiro numa praça financeira menor e menos previsível. Para quem apostou no refúgio, o primeiro resultado é concreto.
O acesso ao dinheiro foi cortado, e a restituição plena ainda não está concluída.
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