A indústria de criptomoedas encontrou novamente Sherrod Brown no caminho para Washington. Tratado pelo setor como um de seus adversários históricos no Congresso, o democrata venceu a eleição para o Senado por Ohio apesar dos cerca de R$ 346 milhões (US$ 63 milhões) mobilizados para impedir seu retorno.
Brown derrotou o republicano Jon Husted e ocupará a cadeira aberta depois que JD Vance deixou o Senado para assumir a vice-presidência dos Estados Unidos. A vitória, confirmada pela Associated Press, devolve ao Congresso um político que passou anos em confronto com empresas e investidores do mercado de ativos digitais.
O retorno acontece apenas dois anos depois de Brown perder sua antiga cadeira para Bernie Moreno, republicano apoiado por comitês financiados pelo setor. Naquela ocasião, a derrota do então presidente do Comitê Bancário foi celebrada como uma demonstração da capacidade da indústria de retirar do Congresso políticos contrários aos seus interesses.
Em 2026, o investimento foi ainda maior. A disputa de Ohio tornou-se a maior aposta eleitoral dos grupos cripto e terminou com o resultado que eles mais tentaram evitar.
Por que o setor queria derrotar Brown Brown presidiu o Comitê Bancário do Senado, uma das instâncias mais importantes para a elaboração de regras sobre bancos, mercados financeiros e criptomoedas.
No cargo, impediu o avanço de propostas defendidas pela indústria e cobrou controles mais rígidos sobre corretoras e emissores de ativos digitais. O democrata também defendeu maior fiscalização sobre o uso de criptomoedas para financiar grupos terroristas, lavar dinheiro e contornar sanções econômicas.
Para representantes do setor, sua passagem pelo comando do comitê ajudou a bloquear a criação de uma legislação mais favorável aos negócios com ativos digitais nos Estados Unidos. A organização Stand With Crypto, apoiada pela Coinbase, atribuiu nota F ao democrata.
Husted recebeu nota A depois de votar a favor de projetos defendidos pela indústria, entre eles o Clarity Act, que buscava dividir entre órgãos federais a supervisão do mercado. A diferença entre os candidatos transformou a eleição em uma disputa com consequências que iam além de Ohio.
Com o avanço democrata no Senado, Brown pode voltar a ocupar uma posição relevante em comitês com poder sobre criptomoedas, plataformas de negociação e mercados de previsão. O The Block apontou a possibilidade de Brown assumir um posto de comando no Comitê de Agricultura, que divide com o Comitê Bancário a jurisdição sobre partes do mercado de ativos digitais.
As atribuições, porém, ainda dependerão da composição e das decisões internas do novo Senado. A aposta de R$ 346 milhões que fracassou
A maior parte do dinheiro investido na eleição passou pela rede do Fairshake, principal estrutura de financiamento político da indústria cripto. O grupo e seu braço voltado a candidatos republicanos, o Defend American Jobs, destinaram quase R$ 307 milhões (US$ 56 milhões) à disputa de Ohio, segundo levantamento da CoinDesk baseado nos registros federais disponíveis até 1º de novembro.
Os gastos foram divididos entre anúncios favoráveis a Husted e peças destinadas a atacar Brown. A distinção formal evita classificar todo o valor como oposição direta ao democrata, mas as duas frentes compartilhavam o objetivo de conservar a cadeira com o republicano.
Outros R$ 39,5 milhões (US$ 7,2 milhões) foram aplicados em Ohio pelo Digital Freedom Fund, comitê financiado principalmente por Tyler e Cameron Winklevoss, fundadores da corretora Gemini e dois dos primeiros investidores no Facebook. Desse total, R$ 23 milhões (US$ 4,2 milhões) foram gastos diretamente contra Brown.
O Fairshake arrecadou R$ 759 milhões (US$ 138,2 milhões) entre janeiro de 2025 e 14 de outubro de 2026, de acordo com os registros da Comissão Eleitoral Federal. Entre os principais financiadores de sua rede estão Coinbase, Ripple e Andreessen Horowitz.
A estratégia já havia funcionado contra Brown. Em 2024, grupos ligados ao mercado cripto aplicaram aproximadamente R$ 220 milhões (US$ 40 milhões) na eleição em que Bernie Moreno retirou do democrata a cadeira que ele ocupava desde 2007.
A vitória republicana transformou Brown no exemplo mais conhecido do poder adquirido pelos comitês do setor. Desta vez, o dinheiro encontrou uma disputa atravessada por outros temas.
Brown explorou as relações de Husted com empresas de data centers, o aumento do custo de vida e a conexão do adversário com um escândalo de corrupção no setor elétrico estadual. A AP também identificou um desempenho melhor do democrata entre eleitores jovens e moderados.
Husted tentou apresentar Brown como liberal demais para um estado vencido por Donald Trump nas três últimas eleições presidenciais. O republicano também contou com a presença do presidente na campanha, mas acabou derrotado em uma corrida que movimentou mais de R$ 2,7 bilhões (US$ 500 milhões).
Somadas as duas eleições, a indústria cripto destinou mais de R$ 549 milhões (US$ 100 milhões) para afastar Brown do Senado. A primeira ofensiva tirou dele a cadeira e o comando do Comitê Bancário.
A segunda devolveu o democrata a Washington no momento em que o Congresso se prepara para retomar a disputa sobre quem controlará o mercado de ativos digitais. Mais Lidas
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