Crime persiste em SP mesmo concentrado nas mesmas regiões há décadas, diz pesquisador da USP
O crime na cidade de São Paulo, assim como em outros grandes centros urbanos, se concentra em pequenos partes do território. Nesses locais, que podem ser esquinas de avenidas, o entorno de uma rodovia, saídas de estações ou áreas de vida noturna ativa, como bairros boêmios, os criminosos aprendem as melhores rotas de fuga e ali permanecem até que seja desconfortável seguir naquela região.
É o que mostram os dados do Mapa do Crime de São Paulo, ferramenta disponibilizada pelo jornal O GLOBO. O jornal disponibiliza o primeiro capítulo da série de reportagens com base nos dados do mapa. Mostramos as diferenças entre cada tipo de modalidade criminosa na capital paulista e como os delitos se concentram em lugares distintos da cidade, sejam eles próximos do centro ou em bairros periféricos.
CLIQUE AQUI E VEJA NO MAPA DO CRIME A SITUAÇÃO DOS ROUBOS NA SUA RUA
Os dados mostram, por exemplo, que 3,9% do território da cidade foi responsável por 25% dos roubos de celular registrados em 2025. Para além dos bairros, o levantamento revela em quais trechos específicos esse crime ganha tração, apesar da queda nos roubos que vêm sendo registrada na capital paulista.
São endereços como a Avenida do Estado, que corta diversos bairros do centro e concentra roubos do tipo “quebra-vidro”, com 314 roubos de celular em 2025, e lugares como o entorno de um raio de 100 metros do número 88 da Rua Álvaro Anes, em Pinheiros, que concentra bares e baladas, e acumula 130 roubos de celular, com a maior parte dos casos registrados durante a madrugada.
Doutor em sociologia e pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência da USP, Marcelo Batista Nery atua há mais de 15 anos integrando análise de dados espaciais e tecnologia para orientar políticas públicas urbanas. Ele explica, na entrevista a seguir, como o crime se acomoda em pequenas porções do território.
Por que em São Paulo o crime se concentra tanto em poucas ruas?
O crime tende a se concentrar. Nas maiores cidades do mundo, 5% do território concentra de 30% a 40% dos crimes. São Paulo é muito heterogênea. Quando falamos das periferias, por exemplo, não podemos falar de uma periferia no singular, que é violenta de maneira homogênea. Por exemplo, não é todo o Jardim Herculano (bairro da Zona Sul onde roubos a carro, moto e celular aumentaram) que concentra assaltos, mas sim pontos bastantes específicos do bairro.
Como tendência, o crime tende a se concentrar. Se você observa as maiores cidades do mundo, a gente pode falar que 5% do território de uma cidade concentra cerca de 30% a 40% de todos os crimes.
Qual o motivo da concentração do crime em determinadas áreas do território?
O crime, em sua natureza, acontece em lugares específicos e atinge grupos específicos. Características do território e do grupo que está naquele território em determinado momento aumentam ou diminuem o risco daquele grupo ser vítima de determinado tipo de crime. O que eu posso frisar é que isso é esperado e isso tem um viés até triste, porque mostra a desigualdade. Se você verificar quais são os lugares mais violentos na cidade de São Paulo com relação à mortalidade na década de 1990, 2000, 2010 e até hoje, você vai perceber que são lugares específicos, no Capão Redondo, no Jardim Ângela, no Jardim São Luís, no Grajaú, na Vila Andrade, na República, na Sé.
Há décadas a gente sabe que em determinado lugar pessoas são vítimas desse tipo de crime com maior frequência. E mesmo assim isso continua acontecendo. Se isso é uma verdade terrível para o homicídio, isso também acontece com relação a outros crimes.
Roubo de celular passou por uma mudança na cidade nos últimos anos. A gente via uma concentração de roubos maior em áreas do centro, mas ali o crime caiu. Ao mesmo tempo chegou a aumentar em outras áreas da cidade.
Dados do Mapa do Crime mostram uma mudança no eixo de roubos em São Paulo, saindo do Centro em direção às periferias. Por que isso aconteceu?
É um jogo de ação e reação. A segurança pública melhora sua tecnologia e inteligência, muda formas de operação e o crime se adapta. O investimento em monitoramento de câmeras de segurança na região central, por exemplo, foi muito maior do que em outras localidades. Mas, em São Paulo, a segurança pública é pensada de maneira reativa, ostensiva e não preventiva. Quando você age muito mais na reação do que na prevenção, o crime se adapta.
As mudanças no centro podem ter influenciado no surgimento de modalidades de roubo como o “quebra-vidro”?
É esperado que uma vez que o crime seja coibido em um lugar, que ele vá para outro. Quando você pensa no “quebra-janela”, com monitoramento, será que o centro é o lugar mais adequado? Não. E hoje, o celular não tem apenas um valor em si, mas é um meio para golpes digitais. Tem também a questão de roubar o celular na circunstância em que esteja mais vulnerável a um golpe digital, desbloqueado.
Dados oficiais mostram uma diminuição nos roubos. Isso pode dar uma impressão de eficiência do trabalho policial. O senhor avalia que o trabalho policial tem sido pautado pela inteligência ou essa queda também se deve a uma migração do criminoso para a prática do furto, por exemplo?
Hoje tem um discurso de segurança pública na qual a tecnologia é a solução para a maior parte dos problemas. Isso não é verdade. Ela é eficiente para alguns dos problemas de segurança pública. E entre os problemas específicos que a tecnologia e a inteligência se mostram bastante efetivas é na identificação de veículos roubados, por exemplo.
Então, pensando em tecnologia de monitoramento, câmeras, algoritmo de identificação de placa, de veículo, maior velocidade no registro da ocorrência, tudo isso nos leva a perceber que tecnologia e inteligência são um dos fatores fundamentais para compreender especificamente a melhora não só nos números de roubo, mas em encontrar os veículos roubados.
O roubo de celular também caiu.
Como tendência, no primeiro momento, o crime tende primeiro a se generalizar, para depois cada vez mais se especificar. Então o crime se adapta. Se antes o crime era generalizado e agora ele tem alvos específicos, o que acontece? Uma redução. Porque eu não estou atrás mais de qualquer veículo. Eu não estou mais atrás de qualquer celular.
Eu não estou atrás de qualquer perfil de vítima para roubo. Então quando a gente pensa em uma evolução da inteligência, da segurança pública, a gente tem que pensar também que há um aumento da inteligência do criminoso. Então a gente está em uma corrida contínua desses dois agentes.
