A vida digital depende de estruturas que quase nunca vemos. Em edifícios protegidos e conectados por vias de alta capacidade, milhares de servidores armazenam e processam dados que permitem o funcionamento de serviços de nuvem, redes sociais, plataformas de comércio eletrônico e sistemas de inteligência artificial (IA).
São máquinas que precisam funcionar sem interrupção, dia e noite. À medida que empresas e governos transferem mais atividades para o ambiente digital e que a IA amplia a demanda por processamento, cresce a disputa para construir e operar esses centros de dados.
A corrida exige grandes áreas, equipamentos avançados, sistemas potentes de refrigeração, conexões de alta velocidade e energia abundante. Reunir essas condições pode colocar o Brasil em posição de destaque no mapa global da tecnologia e atrair indústrias de ponta.
Especialistas preveem uma aceleração dos projetos após a aprovação, em setembro, do programa de incentivos do governo federal batizado de ReData, que ainda precisa ser regulamentado pelo Executivo. Os projetos em construção dão a medida do interesse pelo Brasil.
Segundo recente relatório da consultoria JLL, são 24 unidades, com investimentos estimados em 90 bilhões de reais, que se somarão às 218 já existentes no país. Em Sumaré, no interior paulista, a Ascenty, controlada pela americana Digital Realty e pela canadense Brookfield, ergue o primeiro de quatro empreendimentos previstos na região, ao custo de 6 bilhões de reais.
Marcos Siqueira, vice-presidente executivo da Ascenty, afirma que 60% da capacidade dos novos centros será destinada à inteligência artificial. “A unidade de Sumaré será uma das mais avançadas da América Latina”, afirma.
Segundo ele, a procura por capacidade aumentou desde o anúncio do ReData. O programa procura reduzir uma desvantagem importante: antes dos incentivos, construir um data center no Brasil poderia custar quase 40% mais do que em outros países.
Para diminuir essa diferença, o ReData suspende por cinco anos tributos federais sobre equipamentos, em troca de compromissos de sustentabilidade, da oferta de parte dos serviços ao mercado nacional e de investimentos em pesquisa. “O ReData coloca o Brasil em posição muito privilegiada”, entende Siqueira.
<span class="hidden">–</span>./. O avanço dos grandes projetos, porém, ainda não se traduz em uma distribuição equilibrada da infraestrutura.
Dos 218 data centers do país, 83 estão no estado de São Paulo, dos quais 79 se concentram na região metropolitana da capital e em Campinas. Fora desses polos, faltam capacidade de processamento e conexão.
A dificuldade para obter financiamento é um dos entraves. “Empresas grandes têm acesso a crédito, mas isso não acontece com as menores”, diz Ricardo Brito, diretor-presidente da agência estadual de fomento Desenvolve SP.
Para reduzir essa lacuna, a agência se uniu à gestora Möbius Capital na criação de um fundo de 70 milhões de reais para financiar provedores e data centers de menor porte. Os recursos podem ser usados na compra de equipamentos, na expansão das redes e no capital de giro.
Ao aproximar o processamento das empresas locais, essas unidades reduzem o tempo de resposta das conexões e a dependência dos grandes polos. A Möbius pretende ampliar o fundo para 500 milhões de reais no médio prazo e financiar até cinquenta centros em novas cidades.
“Se o provedor precisa buscar os dados em São Paulo ou Campinas, a conexão demora mais para responder e o tráfego custa caro”, diz Roberto Savaris, fundador da Möbius Capital. Continua após a publicidade
O maior projeto anunciado no Brasil fica no Complexo do Pecém, no Ceará. A primeira fase do data center da chinesa ByteDance, dona do TikTok, começou a ser construída em janeiro de 2026, em parceria com a Omnia, do grupo Patria Investimentos, e a Casa dos Ventos, empresa de energia renovável.
O início da operação está previsto para 2027, e o investimento total supera 200 bilhões de reais. Desse montante, cerca de metade será destinada a equipamentos até 2035.
A previsão é gerar mais de 4 000 empregos entre construção e operação. O Ceará reúne três vantagens competitivas: energia renovável abundante, conectividade e uma Zona de Processamento de Exportação (ZPE) estruturada.
O estado tem capacidade de geração superior a 7 gigawatts para um consumo de apenas 1,5 gigawatt. Além disso, dezoito cabos submarinos passam por Fortaleza, a cerca de 40 quilômetros do complexo, e a ZPE oferece incentivos tributários e aduaneiros às empresas.
“É um combo de vantagens extremamente raro de encontrar no mundo”, afirma Max Quintino, presidente do Complexo do Pecém. NA DIANTEIRA - Data center da Scala, em Barueri: São Paulo lidera o setor, com 83 dos 218 centros de dados do paísFrancisco Cepeda/Governo de SP/.
Continua após a publicidade A onda que beneficia o Brasil faz parte da corrida global por tecnologia.
Segundo o banco americano Goldman Sachs, os investimentos mundiais ligados à inteligência artificial devem superar 1 trilhão de dólares em 2026. Na liderança dos aportes estão os Estados Unidos, seguidos de perto pela China.
Cinco gigantes puxam a expansão americana: Alphabet (dona do Google), Amazon, Meta, Microsoft e Oracle. O Data Center Map lista 4 767 unidades em território americano, além de outras 400 em construção e 1 200 planejadas.
Stijn Van Nieuwerburgh, economista da Universidade Columbia, calcula que a infraestrutura de IA dos Estados Unidos — edifícios, redes, chips e sistemas de energia — exigirá 10 trilhões de dólares até 2032, o equivalente a 3,6% do PIB ao ano. Trata-se de um marco histórico, pois supera em 50% o pico da construção de ferrovias, em 1870-1890, e é três vezes a média da recente expansão das telecomunicações e da internet.
“É difícil encontrar um parâmetro para medir o tamanho desse movimento”, diz Anirban Basu, da Associated Builders and Contractors, entidade que representa empresas da construção civil. Em disputa acirrada com os Estados Unidos, a China preparou o terreno para multiplicar seus data centers.
Em 2022, lançou um plano para transferir parte do processamento do leste industrializado para as províncias do oeste, onde há terrenos abundantes e ampla oferta de energia renovável. A iniciativa definiu oito polos de computação e dez grandes áreas para concentrar centros de dados.
Só em 2026, o país acrescentou à rede quase 500 gigawatts de capacidade de geração renovável, cerca de dez vezes a expansão americana no período, segundo a Agência Internacional de Energia. Para reduzir a dependência dos dois países, a União Europeia anunciou um plano que prevê mobilizar 20 bilhões de euros, apoiar até cinco grandes centros de computação e triplicar a capacidade de data centers do bloco em até sete anos.
Já a Índia aposta em incentivos fiscais e crédito farto para quadruplicar a capacidade do setor nos próximos cinco anos. Continua após a publicidade
MEGAPROJETO - Obras em Pecém, no Ceará: a dona do TikTok vai investir 200 bilhões de reais no empreendimentoAfonso França Engenharia/. Os bilhões anunciados, contudo, não eliminam os obstáculos à expansão.
Data centers dependem de energia, linhas de transmissão, água e profissionais especializados — e sua instalação nem sempre é bem recebida. Nos Estados Unidos, seis em cada dez americanos não querem essas unidades como vizinhas, segundo pesquisa do instituto americano Pew Research Center.
Entre os principais temores estão o consumo de recursos naturais, sobretudo água, e o aumento da conta de eletricidade. No Brasil, a abundância de fontes renováveis, ampliada pelos parques eólicos e solares, oferece uma vantagem, mas não resolve a dificuldade de levar energia até os empreendimentos.
“Se não tiver infraestrutura, não tem o resto”, diz Marcos Peigo, da Scala, um dos principais grupos em operação no país. O mundo digital será construído a partir de data centers.
O Brasil tem condições de estar na linha de frente, desde que transforme suas vantagens naturais em capacidade tecnológica. Continua após a publicidade
Publicado em VEJA de 23 de outubro de 2026, edição nº 3018 Publicidade
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