O futebol brasileiro já tinha dívidas demais quando o governo Lula resolveu apresentar uma nova conta. Ao proibir as bets, a Medida Provisória nº 1.394/2026 cortou uma das principais fontes de financiamento dos clubes e tornou ainda mais difícil fechar seus balanços.
Segundo a consultoria Sports Value, as casas de apostas respondem por 34% das receitas de marketing das equipes e ocupam o espaço de patrocinador master em catorze dos vinte times da Série A. Para um setor que convive com salários atrasados, credores à porta e orçamentos comprometidos, a decisão do Planalto tem o efeito de uma canelada nas finanças.
Agora, os dirigentes buscam anunciantes provisórios e alternativas para preservar os contratos com as bets, enquanto tentam ganhar tempo, torcendo para que o Congresso ou o STF reveja a medida. A insatisfação dos clubes ganhou espaço dentro de campo.
No confronto com o Vasco, em 17 de outubro, o São Paulo estampou na camisa a mensagem “Proibir não é proteger”. Por trás do protesto está uma conta que não fecha: os patrocínios saem, mas as despesas permanecem.
“Não teremos dinheiro para pagar o salário do Lucas Paquetá em janeiro com essa MP”, afirmou o presidente do Flamengo, Luiz Eduardo Baptista, conhecido como Bap, em entrevista recente, referindo-se a uma das estrelas do elenco. Se até o clube de maior força financeira do país prevê dificuldades, o impacto sobre as equipes mais endividadas tende a ser ainda mais perverso.
RECADO - “Proibir não é proteger”: protesto do São Paulo no jogo contra o Vasco pelo BrasileirãoMarina Uezima/Brazil Photo Press/Ag. O Globo/.
A perda dos patrocínios ameaça até desmontar os acordos que permitiriam reorganizar algumas finanças. É o caso do Botafogo.
Documentos obtidos por VEJA mostram que a recuperação judicial do clube está em risco. Seu contrato com uma casa de apostas prevê receitas anuais de 50 milhões de reais.
Na ação direta de inconstitucionalidade apresentada ao STF, o Botafogo sustenta que a intervenção ameaça também quem tem valores a receber. “A supressão abrupta do patrocínio compromete a execução do plano de recuperação judicial, com reflexos sobre toda a coletividade de credores”, afirma o documento.
Continua após a publicidade Entre a urgência de manter o dinheiro entrando e a esperança de reverter a proibição, os clubes improvisam soluções.
São Paulo e Fluminense passaram a exibir a marca Superscore, mantendo a exposição de um negócio associado à antiga patrocinadora. Outros buscaram anunciantes temporários até dezembro: o Corinthians fechou com a Shopee; o Santos, com o Agibank; e o Flamengo, com a Lubrax.
A intenção é atravessar os próximos meses sem romper os vínculos com as bets, na expectativa de que o Congresso rejeite a MP ou de que o Supremo acolha os argumentos dos clubes. <span class="hidden">–</span>./.
Continua após a publicidade Encontrar quem ocupe o espaço das bets nas camisas, porém, não significa encontrar quem pague a mesma conta.
Segundo Amir Somoggi, fundador da Sports Value, as casas de apostas desembolsam, em conjunto, entre 500 milhões e 600 milhões de reais a mais em publicidade do que empresas dos demais setores. A diferença aparece na evolução das receitas: de 2023 a 2025, o faturamento dos clubes com marketing cresceu 95%.
“Sem os recursos das bets, o avanço teria sido de apenas 25%”, afirma o especialista. Os acordos provisórios podem aliviar o aperto imediato, mas deixam os clubes diante de um mercado que tende a anunciar por valores inferiores aos oferecidos pelas bets.
A decisão atabalhoada do governo Lula ameaça produzir um duplo prejuízo: agravar a penúria do futebol e empurrar apostadores para plataformas ilegais. Em vez de interromper contratos e deixar os clubes à própria sorte, o Planalto deveria ter previsto um período de adaptação, com restrições graduais e tempo para reorganizar os orçamentos.
Foi o caminho escolhido pela Premier League: em 2023, os clubes ingleses decidiram retirar os anúncios de bets da parte frontal das camisas a partir da temporada 2026/2027, preservando outras modalidades de patrocínio. “Esse é um caso de evolução regulatória de sucesso, que trouxe um prazo de três anos de adaptação”, diz Carlos Lima, presidente do Instituto Brasileiro de Jogo Responsável.
Na pressa de proibir, o governo Lula marcou um gol contra o futebol brasileiro. Continua após a publicidade
Publicado em VEJA de 23 de outubro de 2026, edição nº 3018 Publicidade
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