'Conversar' com parentes mortos vira negócio com IA e preocupa pesquisadores

'Conversar' com parentes mortos vira negócio com IA e preocupa pesquisadores - Foto
Fonte da notícia: Epoca Negócios Epoca Negócios

Empresas de inteligência artificial passaram a oferecer uma forma de manter contato com a memória de parentes e amigos mortos: sistemas que simulam conversas com essas pessoas. Conhecidos como griefbots, os programas usam informações pessoais para produzir respostas que imitam sua maneira de se comunicar. A promessa comercial é preservar vínculos, mas pesquisadores ainda investigam como essas interações afetam quem enfrenta uma perda. Pesquisadores da Universidade do Colorado Boulder acompanham o desenvolvimento desses serviços. Segundo reportagem do The Guardian, o psicólogo Dan Wolfson teme que esses serviços afastem enlutados do apoio de amigos e familiares. Um dos projetos desse mercado nasceu de uma experiência pessoal. Justin Harrison, fundador da You, Only Virtual, desenvolveu o conceito da plataforma Versona depois de sofrer um grave acidente de moto e receber a notícia de que sua mãe tinha câncer terminal. Segundo a empresa, ele buscava preservar a relação com ela. O serviço apresenta as recriações digitais como uma maneira de continuar conversas depois da morte. Voz e personalidade como produto As ferramentas procuram reproduzir características que tornam alguém reconhecível para seus familiares. Na Séance AI, por exemplo, o usuário informa traços de personalidade, relacionamentos e assuntos sobre os quais deseja conversar. Também pode fornecer exemplos da escrita da pessoa para orientar a simulação. A página do serviço anuncia uma modalidade gratuita e acesso premium por US$ 19,99, com recursos de recriação de voz e animação de imagens. Apesar da linguagem promocional associada a sessões espíritas, a própria plataforma informa que oferece uma experiência fictícia de entretenimento. A disposição para usar tecnologia depois de uma perda, porém, varia conforme sua finalidade. Um levantamento da Empathy, empresa que oferece serviços de apoio ao luto e planejamento de legado, ouviu mais de 6 mil adultos que passaram por uma perda. Enquanto 56% disseram se sentir confortáveis com o uso de IA em tarefas práticas, como lidar com documentos, 23% manifestaram essa disposição para recriar a voz de alguém querido. Os números medem atitudes diante da tecnologia. Não demonstram que simular a presença de uma pessoa morta ajude a enfrentar o luto. Conforto e receio de dependência Na Universidade do Colorado Boulder, uma equipe investigou como 16 adultos reagiam a versões digitais de parentes ou amigos que haviam morrido. Cada participante conversou com dois sistemas: um falava em primeira pessoa, como se fosse o falecido; o outro se referia a ele em terceira pessoa. As interações tinham cerca de 20 minutos cada e contavam com acompanhamento dos pesquisadores. O estudo, apresentado na conferência Designing Interactive Systems de 2026, encontrou uma característica relevante para o desenvolvimento desses produtos: a sensação de familiaridade podia pesar mais do que a precisão dos dados biográficos. O vocabulário, o tom e o ritmo da conversa ajudavam os participantes a reconhecer a pessoa na simulação, mesmo quando havia erros factuais. Segundo a universidade, todos disseram que usariam a tecnologia novamente. Ao mesmo tempo, surgiram preocupações com dependência excessiva, especialmente quando os participantes imaginavam outros familiares utilizando os programas. O experimento, contudo, avaliou encontros breves e contou com intervenção humana no funcionamento dos sistemas. Seus resultados não estabelecem os efeitos do uso prolongado nem comprovam eficácia como tratamento para o luto. Há também o problema de quem autoriza a recriação. Em um artigo publicado em 2024 na revista Philosophy & Technology, Tomasz Hollanek e Katarzyna Nowaczyk-Basińska, da Universidade de Cambridge, defenderam que os serviços considerem tanto o consentimento da pessoa representada quanto o de quem vai interagir com sua versão digital. Os pesquisadores também propuseram restringir o acesso a adultos, esclarecer as limitações das simulações e estabelecer procedimentos para encerrá-las. Pela proposta, familiares devem poder recusar o contato desde o início e interrompê-lo posteriormente, mesmo quando a pessoa falecida desejava deixar uma versão digital de si. Mais Lidas

Compartilhar: WhatsApp Facebook Telegram X

Deseja ler a íntegra original na fonte jornalística?

Acessar matéria no site Epoca Negócios