O desequilíbrio das contas públicas e a escassez de mão de obra no campo são os pontos centrais de dois estudos inéditos encomendados pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e apresentados no evento "Agenda Brasil – Crescimento, Emprego e Competitividade". O fórum reuniu pesquisadores, economistas, autoridades, empresários e representantes do setor produtivo para debater crescimento econômico e competitividade do país. “Criamos uma agricultura e uma pecuária de padrão universal. Diante da crise de energia, criamos o Proálcool e descobrimos o Pré-sal com tecnologia própria. Diante da inflação, criamos o Plano Real. Diante de grandes problemas, somos capazes de grandes soluções”, afirmou o presidente da CNA, João Martins. De repente, “parece que nos tornamos menores do que os nossos problemas”. Mas, diz Martins, temos todos os meios para reagir. “O que é preciso é que os setores responsáveis da nação se disponham a elevar a sua voz. Não vamos assistir passivamente à destruição de nossas riquezas, de nossas empresas, de nossos empregos”. Descontrole dos gastos O primeiro estudo apresentado no evento analisou a qualidade do gasto público e seus efeitos sobre o ambiente nacional de investimentos; o segundo identificou o que motiva a falta de mão de obra na agropecuária. Ambos foram encomendados pela CNA. Carga tributária Como parte do primeiro estudo, a sócia-consultora do Instituto de Finanças Públicas (IFP), Selene Peres, avaliou dados divulgados pelo Banco Central que mostram que a dívida do setor público chegou a R$ 10,8 trilhões em junho de 2026. Se mantido no ritmo atual, a projeção debatida é de que o endividamento alcance 95,5% do PIB até 2030. A sócia-consultora do IFP, Selene Peres apresentou um dos estudos Daniel Fagundes/ Trilux O diagnóstico revela também que, no ano passado, a carga tributária atingiu 34,35% do PIB, sendo 21,60% referente à esfera federal, o que simboliza um aumento de mais de dois pontos percentuais em dois anos.
Segundo a consultora, o arcabouço fiscal em vigor não tem contribuído para a sustentabilidade da dívida pública. “Muitas pessoas dizem que o problema do Brasil é a alta taxa de juros, mas essa é só a ponta do iceberg. Por trás desse quadro existem problemas estruturais, como a rigidez do orçamento, a falta de credibilidade fiscal e a baixa qualidade dos gastos públicos”, analisou Selene. A avaliação do estudo é que, quando a arrecadação cresce, parte dos gastos também aumenta automaticamente, dificultando a geração de resultados primários compatíveis com a estabilização da dívida. Sob a perspectiva da CNA, uma recondução mais efetiva para corrigir desvios e maior transparência para padronizar estatísticas fiscais e evidenciar o esforço fiscal, por exemplo, poderiam melhorar a situação. Arcabouço fiscal O pesquisador associado do Insper e consultor legislativo do Senado Federal, Marcos Mendes, reforçou a necessidade de uma revisão no arcabouço fiscal. “Não se faz ajuste sem reforma da previdência e racionalização de programas sociais. Não existe bala de prata para reforma fiscal, é necessário um ajuste de R$ 250 a R$ 300 bilhões. É um grande desafio”, disse o pesquisador. O estudo lançado no "Agenda Brasil" mostrou que, na execução do orçamento do ano passado, o Brasil gastou R$ 2,3 trilhões em despesas, sem encargos especiais. Desse total, mais de 60% foram destinados para pagar Previdência (47,8%) e Assistência Social (12,6%), podendo provocar, a longo prazo, a compressão dos investimentos, que ficam sujeitos a cortes. O sócio-diretor da MB Associados (empresa de consultoria e análise macroeconômica), José Roberto Mendonça de Barros, destacou que o Brasil enfrenta um cenário global de rápidas transformações, marcado pelo aquecimento global e pelo avanço da inteligência artificial. Apesar disso, o país demonstra resiliência graças à produtividade de setores da agropecuária e indústrias extrativas, que sustentaram o crescimento nas últimas décadas. Escassez de mão de obra No segundo estudo apresentado, a economista sênior da CNA Isabel Mendes apontou a escassez de mão de obra como outro grande obstáculo enfrentado pelo mercado. Encomendado pela CNA, o estudo realizado pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/Esalq/USP) mostra que os produtores enfrentam dificuldades não apenas para preencher vagas, mas também para reter e encontrar profissionais qualificados, embora o salário agropecuário tenha crescido 35%, ante 24,8% nas demais áreas, entre 2021 e 2025. “A taxa de desemprego tem reduzido no Brasil, mas se pegarmos as pessoas que estão subocupadas, ou seja, que trabalham poucas horas ou vivem dos famosos bicos, por exemplo, e os desalentados, que são aqueles que não trabalham e não estão procurando emprego, esse número quase triplica”, disse a economista. Isabel Mendes, economista senior da CNA, apresentando o segundo estudo no Agenda Brasil Daniel Fagundes/Trilux Panorama regional A mesma tendência se aplica quando a pesquisa analisa, a partir de um panorama regional, a dificuldade para encontrar trabalhadores. De acordo com o que foi divulgado, em algumas regiões o índice de desemprego é mais crítico, como é o caso do Nordeste. Por lá, a taxa de desemprego é de 8,3%, mas quando esses outros componentes são acrescentados, o dado sobe para 24,4%. No período de 2012 a 2025, a área agrícola cresceu 43,2% no Brasil, enquanto o número de empregados por 100 hectares caiu 38,5%. O diretor técnico da CNA, Bruno Lucchi, avalia que a dificuldade de contratação passou a estimular mudanças no campo e a mecanização foi a principal estratégia adotada para conter o problema: “Foi identificado que hoje há uma escassez de mão de obra no campo. Estamos diminuindo o contingente na produção primária e muitos dizem que é por causa da mecanização, mas na verdade a mecanização é uma consequência. Por não ter pessoas, o produtor é obrigado a investir em mecanização”. Em alguns casos, segundo Lucchi, propriedades que trabalhavam com atividades que demandam mais recursos humanos, como fruticultura e horticultura, passaram a priorizar culturas que exigem menos trabalhadores.
Outro ponto destacado no levantamento foram os impactos do programa Bolsa Família sobre a oferta de trabalho. O relatório identificou que o aumento do valor do benefício e do número de beneficiários, no período recente, reduziu a participação na força de trabalho entre 2,2 e 4,7 pontos percentuais no país. No setor agropecuário, a queda foi de 3,07 pontos percentuais. De acordo com a pesquisa da CNA, 83% dos entrevistados sentiram que os programas de transferência de renda afetaram na disponibilidade de mão de obra. Enquanto, 63,2% afirmam já ter presenciado trabalhadores recusando uma oportunidade de trabalho para não perder o auxílio.
Para o professor Pedro Nery, do Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Profissional (IDP), o debate não é sobre se o Bolsa Família deve existir ou não, mas sim sobre identificar que as pessoas querem trabalhar formalmente, mas têm medo de perder seus benefícios e incentivos.
Diante das evidências apresentadas no estudo, a professora do Insper e ex-secretária de Desenvolvimento Social do Estado de São Paulo, Laura Muller Machado, destacou que uma das soluções para esse cenário é redesenhar os programas de transferência de renda para serem mais amigáveis ao trabalho. Em relação à produtividade do trabalho, o documento destaca o avanço do setor agropecuário nos últimos 30 anos, que cresceu 515% ante 28% na média da economia brasileira. “Isso tem a ver com o agro conseguir fazer mais com menos”, afirma Nery. Comparando internacionalmente, a produtividade do trabalho na agropecuária brasileira foi de US$ 12,7 mil por trabalhador, em 2024, o que equivale a 43% da média das nações de alta renda, que é de US$ 29,3 mil. Nos Estados Unidos, o valor chega a US$ 85 mil. Isso significa que há espaço para novos ganhos de produtividade, embora as possibilidades de avanço sejam heterogêneas entre regiões, atividades e sistemas produtivos brasileiros.
Globo Rural