Conheça o brasileiro que trocou o balé clássico pela cozinha e seu restaurante entrou no Guia Michelin de Viena
Entrar no Guia Michelin de Viena era algo impensável na vida de Hilquias Burget, o chef Kias, brasileiro que há 17 anos desembarcou numa Áustria gélida, vindo de Brasília, para estudar dança no Conservatório de Viena. Balé clássico sempre foi o seu sonho, o projeto que traçou para a sua vida. Foi, no tempo passado, porque durante a pandemia, recluso em seu apartamento no centro de Viena, sem aulas de dança e sem sair de casa, começou a explorar os seus dotes culinários, paixão que até então praticava como hobby. " No conservatório, volta e meia cozinhava para os meus colegas. Eles adoravam e diziam que eu devia abrir um restaurante" conta Kias, 38 anos, ainda festejando a recente inclusão do seu restaurante, o Kias (seu apelido ) no Guia Michelin Viena 2026. "Nunca imaginei nada parecido, sou brasileiro, bailarino, autodidata e a casa só tem três anos. Estou nas nuvens".
O sorvete de jabuticaba é uma das criações do chef Kias, que quer mostrar por lá a mesa brasileira moderna e "sem clichês"
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Foi na pandemia que Kias, até então um bem sucedido dançarino clássico, descobriu uma nova paixão: a cozinha
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Ato dois: passada a pandemia, em seu primeiro passeio pelo bairro onde mora, se deparou com uma loja linda para alugar. Não pensou muito. Quando viu, já estava com as chaves nas mãos, contrato assinadíssimo. A dança "dançou". Seu projeto sempre foi o de mostrar uma cozinha brasileira moderna, contemporânea, fugindo dos clichês. "Viena tem mais dois restaurantes de cozinha brasileira, o Larica e o Carioca, mas são casas bem mais simples. Não que o Kias seja um "fine dinning", mas aqui recebo com uma cozinha mais elaborada", conta o chef, que procura usar os insumos locais. "Todas as verduras e legumes são orgânicos e conheço pessoalmente os produtores e isso é maravilhoso. Temos boas trutas, a amarela e a arco-íris, e o bagre daqui não tem gosto de terra. E não é complicado encontrar ingredientes brasileiros pelas lojas , como os derivados da mandioca, por exemplo. Até mesmo o tucupi deu o ar da graça por aqui".
O mocotó na versão do chef : apuro na confecção e na apresentação
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No Kias, o chef procura mostrar uma mesa brasileira que os austríacos não conhecem. Ou conhecem pouco. A feijoada, por exemplo, um dos maiores sucessos da casa, mas que dá trabalho. "Salgo todas as carnes e faço os embutidos, cada um deles. É uma feijoada de pouca gordura. Começo a função três semanas antes. Daí, só tem feijoada uma vez por mês. Lota, tem fila na porta". Outra iguaria que os austríacos apreciam é a moqueca. "Faço várias versões, mas com dendê, baiana".
Kias já dividiu sua cozinha com chefs brasileiros, como o mineiro Caio Soter, do Pacato, de Belo Horizonte; o casal Fabricio Oliveira e Lisiane Arouca, do Origem, de Salvador e a mas recente e ilustre parceira foi a chef sensação do Michelin Portugal: a brasileira Angélica Salvador, que ganhou uma estrela Michelin com o In Diferente, seu restaurante no Porto.
