Conheça a história dos dois vinhos da Concha y Toro que tiveram tantos prêmios que deram origem a uma nova vinícola

 

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Com o sucesso dos premiados Amelia Chardonnay e Amelia Pinot Noir, a gigante sul-americana Viña Concha y Toro montou uma empresa apenas para cuidar dessa linha de vinhos. À frente dela, estará o respeitado enólogo Marcelo Papa, que se tornou diretor técnico da recém-criada Viña Amelia. Ela é a primeira vinícola chilena que terá a distribuição internacional voltada apenas para a produção das variedades Chardonnay e Pinot Noir. Vale lembrar que as variedades mais consagradas do Chile são as tintas Cabernet Sauvignon e Carménère.

O enólogo Marcelo Papa

Divulgação Concha y Toro

Confira abaixo os principais pontos da entrevista exclusiva:

Nos passos do Don Melchor

"O Amelia é um vinho que nasceu após Don Melchor. O Don Melchor teve a primeira safra em 1987 e a ideia de fazer este vinho tinto de muito boa qualidade, um par de anos antes. Ele foi lançado como um vinho do portfólio da Concha y Toro. Depois, no início dos anos 90, a vinícola segue o mesmo caminho e quer um vinho branco à altura do Don Melchor. E é lançado o Amelia, um Chardonnay que feito naquele tempo do Vale de Casablanca, a primeira incursão no Chile com vinhedos próximos à costa. Em geral, em Chile, os vinhedos requerem ser regados, porque temos uma temporada seca que é longa.

Precisamos de irrigação, por isso, os vinhedos estão plantados em lugares onde havia acesso à água, perto de rios. Casablanca é uma zona que não tem acesso à água e, portanto, os vinhedos levaram mais tempo chegar a esta zona costeira, fresca, de Casablanca. Foram feitos poços e se introduziu a tecnologia de irrigação por gotejamento."

O tinto chileno Don Melchor

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Mudança de terroir

"O Amelia foi produzido em Casablanca até 2016. Aí entrei na direção técnica de todos os vinhos, à exceção do Don Melchor, e decidi mover o Amelia para um lugar que poderia produzir vinhos mais importantes. E fomos para o Vale de Limari, onde a Concha y Toro já fazia alguns vinhos, e particularmente um muito bom, em Quebrada Seca. Ali, plantamos vinhedos em 2009. Após isso, a companhia decide lançar a Viña Don Melchor, dando mais força ao vinho. Ele ganha um ritmo diferente, mais acelerado e de maior independência.

Com a Amelia, fazemos o Chardonnay e também o Pinot Noir, porque, quando nos mudamos de Casablanca para Limari, eu quis introduzir um Pinot Noir. É sabido que, nos lugares onde se o Chardonnay vai bem, o Pinot Noir também vai. São variedades da Borgonha. A verdade é que o vinho começou a ir muito bem, com muitos reconhecimentos. O vinho de Quebrada Seca é espetacular, e a zona de Limari se consolidou como provavelmente uma das zonas mais importantes para produzir Chardonnay e Pinot Noir.

Há outro par de zonas muito interessantes, Leyda, a zona sul do Chile, mas o que se produz em Limari é muito particular, distinto, tem mineralidade, tem salinidade. São vinhos com uma tensão fantástica."

Amelia Chardonnay: vinho premiado

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Lançamento no Brasil e na Ásia

"Este ano, na 10ª colheita, em conversas com Eduardo Guilisasti (diretor-geral da Concha y Toro), surgiu a ideia de seguir o caminho exitoso do Don Melchor. Lançamos a Viña Amelia em abril. Vim ao Brasil para a divulgação e depois sigo para Ásia e Inglaterra, que são mercados importantes para o nosso vinho."

Mercados importantes

"Obviamente, o Brasil é muito importante em vendas. Em primeiro, ficam Estados Unidos e Chile, que disputam o primeiro lugar. Imediatamente atrás, bem de perto, vem o Brasil. Quando 'tomei' o Amelia em 2017, vendíamos 500, 600 caixas de Chardonnay, com 12 garrafas. Hoje estamos vendendo, entre Chardonnay e Pinot Noir, mais de 5.000. A ideia é chegar idealmente a 10.000. Estamos muito bem este ano. O consumidor começa a reconhecer como um Chardonnay e um Pinot Noir importante na região."

A escolha das variedades

"Como vinícola, como Concha y Toro, temos um foco muito forte na Cabernet Sauvignon, principalmente através do Don Melchor. As pessoas geralmente reconhecem que os Cabernet Sauvignon chilenos são atraentes, ricos e têm um ótimo desempenho, mas não se trata apenas de Cabernet Sauvignon.

O que aconteceu com o vinhedo de Quebrada Seca e particularmente com a região de Limari, é que tanto nós quanto outras vinícolas da área construímos, nos últimos 10 anos, uma história de muito sucesso, com altas pontuações e reconhecimento. Hoje, com esta região e com Chardonnay e Pinot Noir, conseguimos alcançar pontuações tão boas quanto as do Don Melchor. Isso obviamente nos mostra um caminho muito claro: esta região de Limari, e particularmente o vinhedo Quebrada Seca, tem um potencial de qualidade extremamente alto. E por que não mostrar ao mundo a qualidade que podemos produzir com essas duas variedades? O conceito da Viña Amelia está centrado no vinhedo Quebrada Seca. E nesse vinhedo, devido às características do local, Chardonnay e Pinot Noir são as variedades que prosperam excepcionalmente. Não faz sentido produzir Cabernet Sauvignon ou qualquer outra variedade nesse vinhedo.

O vinhedo de Quebrada Seca, no Chile

Divulgação Concha y Toro

É uma área fria, com solos argilosos calcários, temperatura amena e muitos dias nublados. Há um fenômeno chamado camanchaca, que é uma alta cobertura de nuvens presente todas as manhãs e provavelmente até o meio-dia ou mesmo durante a tarde. Uma névoa densa, que filtra a luz, criando uma bela interação entre a quantidade de luz que chega às vinhas. Não é excessiva, mas é suficiente para que as uvas Chardonnay e Pinot amadureçam adequadamente sem perder o frescor e o caráter frutado natural. Ocorre o ano todo, mas obviamente, em alguns anos é mais pronunciado.

No segmento de vinhos de alta gama, nem toda variedade consegue produzir um vinho de alta qualidade. De modo geral, os vinhos mais caros do mundo costumam ser tintos à base de Cabernet Sauvignon ou blends, às vezes com Merlot, e ocasionalmente com Syrah, mas estes estão um passo atrás. Em outras palavras, globalmente, os vinhos mais caros ou prestigiados são geralmente vinhos de origem única, feitos com Cabernet Sauvignon, Merlot ou Cabernet Franc, à base de variedades bordalesas, e o Pinot Noir.

Chardonnay de vinhedo em Quebrada Seca

Divulgação Concha y Toro

Se olharmos para os vinhos brancos, fica claro que Chardonnay pode produzir vinhos excelentes, ideais para o mercado de alta gama. Alguns Rieslings também, mas são bem limitados. Os Sauvignon Blancs são muito bons, mas têm dificuldade em atingir preços mais altos. O Chardonnay, por outro lado, é indiscutível. Quando um Chardonnay é bom, as pessoas estão dispostas a pagar mais.

Então, se encontraram um terroir perfeito, não faz sentido plantar outras variedades ali, porque Chardonnay e Pinot Noir são variedades mundialmente renomadas, com resultados incríveis. Não há necessidade de reinventar a roda, se você quer produzir um vinho de alto nível, é preciso ouvir com muita atenção o terroir. E Quebrada Seca pode produzir Chardonnay e Pinot Noir excepcionais, mas não outras variedades. Devido à temperatura, ao clima e às características do solo, algo muito específico se desenvolve para essas duas variedades."

Os vinhedos de Quebrada Seca

"Quebrada seca é um vinho de aproximadamente 110 hectares, mas plantados são 70 hectares, o máximo que podemos plantar. Os outros 40 hectares são vias, áreas com natureza, que vamos deixar como estão. Com esses hectares de vinhedos, podemos produzir uma boa quantidade de caixas. As vinhas mais antigas foram plantadas em 2009, há 17 anos. As últimas parcelas foram plantadas em 2018. São aproximadamente 55 hectares de Chardonnay e 15 de Pinot Noir.

Quando chegamos a esta região, não havia vinhedos. Fizemos estudos de solo, e originalmente estávamos buscando um bom lugar para Chardonnay. E quando encontramos, decidimos plantar Pinot Noir em menor quantidade. Isso porque a gente sempre sabe que, onde o Chardonnay se faz de forma espetacular, normalmente o Pinot Noir se faz bem. Nas vendas, temos dois terços de Chardonnay e um terço em Pinot Noir.

Pinot Noir do vinhedo Quebrada Seca

Divulgação Concha y Toro

A ideia é que, em breve, possamos incluir algum outro Chardonnay e no futuro outro Pinot Noir, provavelmente a um valor similar ou um pouco mais baixo, de tal maneira de ir alcançando uma massa crítica de consumidores que conheçam a Amelia com seus ícones, que são de Quebrada Seca.

No caso de Chardonnay e Pinot Noir, falamos de variedades muito delicadas, que expressam de forma muito transparente o lugar. Portanto, se uma parcela tem mais ou menos calcário, ou um pouco mais de argila, você os vinifica separadamente e sente as diferenças. Portanto, o mundo do Chardonnay e do Pinot Noir se move, na gama alta, 'jogando' com o mesmo lugar e vai conseguindo, sem a mão do homem, produzir vinhos de forma diferente.

E é um pouco o que estamos fazendo com Amélia. Nem todas as parcelas plantadas entram neste blend. No caso do Chardonnay Quebrada Seca, somente as parcelas 9, 8 e uma parte do 11A são suadas no corte. Por quê? Porque nós as vinificamos há 10 anos, 15 anos. E ano após ano, essas são as que entregam esta qualidade. São 10 hectares que têm no solo uma combinação de argila com calcário que faz 'clique' na garrafa. O Pinot Noir nós fazemos hoje atualmente na parcela 15.

Em Quebrada Seca, há dois tipos de solo, duas áreas: Quebrada Seca e Santa Cristina. Ambas têm o mesmo material argilo-calcário, mas em diferentes proporções. Na Quebrada Seca, a parte calcária prepondera. Na Santa Cristina, a argila vermelha domina. Portanto, os vinhos Chardonnay e Pinot Noir que vêm da série Quebrada Seca são vinhos precisos, tensos, frescos. E os vinhos que provêm da série Santa Cristina, onde a argila é preponderante, são mais amplos, mais gordos, menos tensos. São vinhos distintos.

Os vinhos que fazemos hoje são o Amelia Quebrada Seca Chardonnay e o Pinot Noir Quebrada Seca Chardonnay. Faremos outros vinhos, mas não posso dizer as datas nem os nomes. O lançamento global no Chile será muito provavelmente este ano, mas no Brasil pode ser no final do ano ou no início de 2027."

Um terroir único

"Estamos falando de um lugar de 70 hectares que provavelmente tem 15, 20 tipos distintos de solos. É a mesma origem, o mesmo material, mas as proporções vão mudando, o calcário pode estar mais profundo ou mais acima. Portanto, cada lugar gera algo diferente; e isso é extremamente atrativo. À medida que você quiser dar valor a todos esses produtos, eles têm que ser únicos. É como a moda. Se um design faz uma jaqueta e sai um milhão delas, o valor pode ser alto, mas nunca altíssimo. Mas se faz algo sob medida e essa jaqueta é única pode alcançar preços altíssimos.

Mas se você o massifica, perde valor. E no vinho acontece o mesmo. Outras marcas vão tentar fazer um Amelia, mas não vão conseguir. Há vinhos especiais que, com o tempo, vão somando pontuações super altas. Os críticos buscam duas coisas. Primeiro, que um vinho tenha um selo muito particular e de alta qualidade. Segundo, que seja consistente ao longo do tempo. Só se consegue ser consistente no tempo quando se trabalha com o lugar.

É o caso do Don Melchor. O enólogo Enrique Tirado busca fazer uma combinação que o vinho lhe permitiu naquele ano. Se você faz uma degustação vertical com várias safras, vai encontrar pequenas diferenças, mas vai perceber imediatamente que ele sempre provém do mesmo lugar.

Com o Amelia é o mesmo. Já passamos da etapa de ver que o Amelia é um Chardonnay ou um Pinot Noir muito rico. Temos 10 anos em Limari e podemos fazer degustações com as 10 colheitas. Pode-se atestar o selo de qualidade de todas. Ele entrou em outra gama e é consistente com o lugar."

O Amelia Pinot Noir

Divulgação Viña Amelia

A safra 2026

"A safra deste ano foi muito rica. Foi um ano em que se combinaram duas coisas. As temperaturas foram ligeiramente mais altas que os anos anteriores. Quando digo altas, é no contexto de Limari, que tem temperaturas frias. Em janeiro, que é o mês mais quente, a média de máximas é de 25,5 graus. Por duas horas diárias, a temperatura está acima de 24 graus. As temperaturas mínimas são de 12 graus em média. Ou seja, é um lugar efetivamente muito fresco, mas que este ano foi ligeiramente mais quente. Ao mesmo tempo, teve maior nebulosidade. Então, houve mais temperatura e um pouco menos de intensidade de luz. Resultou em uma combinação muito atrativa. Um vinho com um caráter bem austero, muito concentrado e com uma mineralidade bem marcada. É uma boa safra. O Chardonnay é muito bom, mas o Pinot Noir é extraordinário.

Já a safra 2025 foi um ano um pouco mais frio, mas com um pouco mais de luz. A qualidade do Chardonnay é extraordinária; e a do Pinot Noir é muito boa."

O desafio

"Tenho muitos desafios. E um deles é ir construindo a marca. Antes, era um vinho que estava no guarda-chuva da Concha y Toro. Agora vamos fazer uma marca com mais independência e o desafio consiste em sermos capazes de chegar ao consumidor final. E que ele reconheça a qualidade nesses vinhos e que nos busque. E vamos fazer um trabalho também com restaurantes, porque é um vinho muito especial para a gastronomia."

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