Festas, hospedagens, jatinho, uísque e charutos. O vasto cardápio de benesses oferecido a autoridades pelo banqueiro Daniel Vorcaro, revelado em mensagens capturadas pela Polícia Federal (PF), mostrou um método de aproximação do poder conhecido por quem frequenta o mundo político em Brasília, mas que, para especialistas, foi elevado a proporções inéditas pelo ex-controlador do Master na tentativa de aumentar sua influência e obter vantagens. Leia mais: Ex-chefe de gabinete de Lula ganhou réveillon de luxo de empresário com contrato na Petrobras, mostram mensagens ‘Virou problema de saúde pública’: Paes faz maratona de agendas na Baixada para afagar aliados e aprova decisão de Lula contra Bets A avaliação de profissionais do Direito e da ciência política é que o banqueiro se especializou em promover “fantasias”, “ostentação” e “tentações exuberantes” para criar conexões em diferentes espaços institucionais. Um dos exemplos é o evento em Londres onde reuniu autoridades para degustar uísque da prestigiada marca escocesa Macallan e charutos. Entre os presentes, como mostrou foto revelada pelo GLOBO, estava o procurador-geral da República, Paulo Gonet. Contatado, ele disse que não iria comentar. A pessoas próximas, Gonet afirma que a imagem não revela nenhuma intimidade com Vorcaro. — Não se trata apenas do charuto, não se trata apenas do uísque. Isso por si só não tem comparativamente valor econômico quase nenhum. É o que está por trás disso. Qual é a empresa privada que vai oferecer esse tipo de vantagem se efetivamente não houver uma retribuição, uma resposta que seja na forma de satisfação de interesses? Como se diz: “Não há almoço grátis”. Tudo isso é em troca de alguma coisa — afirma o professor de Direito Penal Gustavo Sampaio. Mensagens de Daniel Vorcaro Arte O Globo Os diálogos mostram o empenho de Vorcaro para que pedidos de autoridades fossem atendidos nos detalhes, em uma atuação semelhante à de um concierge: escolhia a bebida que seria servida, o local em que cada autoridade seria hospedada e quem, e como, seus intermediários deveriam priorizar. Essa microgestão é observada, por exemplo, nas mensagens trocadas com um funcionário sobre a estadia do ministro Kassio Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal (STF), e de seu grupo, durante o carnaval de 2025. Em nota, o ministro disse que “nunca trocou mensagens com Vorcaro nem pediu nada a ele”. Nas conversas, reveladas pelo Metrópoles, Vorcaro discute o espaço que seria utilizado por cada convidado. “Vou organizar no detalhe e volto contigo”, diz o banqueiro em resposta a dúvidas de um funcionário sobre acomodações para autoridades no Rio. A PF aponta que Vorcaro utilizava, por exemplo, os serviços da Prime You, a primeira empresa de compartilhamento de bens de luxo do Brasil, como aeronaves, barcos, carros esportivos e mansões, para distribuir agrados a autoridades e tentar se aproximar delas. O banqueiro era um dos sócios do negócio até setembro de 2025, dois meses antes de ser preso pela primeira vez sob suspeita de fraude financeira. Entre os bens operados pela empresa está o jatinho utilizado pelo ministro Alexandre de Moraes, do STF, e sua mulher, a advogada Viviane Barci de Moraes, para voar ao Rio, como mostrou vídeo revelado pelo colunista Lauro Jardim, do GLOBO. Mensagens analisadas pela PF mostraram que Vorcaro tratava o escritório de advocacia da esposa do magistrado, com o qual firmou um contrato de R$ 130 milhões, como prioridade. “Não deixe de atender Barci”, escreveu ele a uma funcionária do banco ao ser questionado sobre um pedido para utilização do jatinho. O escritório de Viviane Barci disse, em nota, que usou serviços de táxi aéreo de diferentes empresas, entre elas a Prime You. A banca também afirmou que a contratação dos serviços segue critérios operacionais e não representa “vínculo pessoal com proprietários de aeronaves ou operadores específicos”. O texto acrescenta que cabe às empresas contratadas definir o avião que será usado. Além dos aviões e helicópteros, a Prime You administrava o hotel de luxo Six Senses Botanique, em Campos do Jordão, com diárias a partir de R$ 3 mil. A coluna de Malu Gaspar, do GLOBO, revelou que o hotel foi colocado à venda após a segunda prisão de Vorcaro, em março deste ano. Em conversas registradas em dezembro de 2023, Vorcaro instrui funcionários a prepararem uma “experiência completa” e “ultra VIP” para uma comitiva de Moraes e outros nove convidados no estabelecimento. A estrutura fornecida envolvia “organizar cantor, cavalos e seguranças”, segundo os diálogos. ‘Zona cinzenta’ O jurista e desembargador aposentado Vladimir Passos de Freitas aponta que há um “limite pouco claro” entre a falta ética e o crime de corrupção. Para ele, quando se trata de algo “incidental”, em que o beneficiado não tem “competência para ajudar no caso de determinada ação judicial”, pode haver apenas uma ofensa ética. De outro lado, uma “vantagem clara, concreta” pode levar ao enquadramento por corrupção. No entanto, na avaliação do professor, independentemente da forma, “não devem os magistrados aceitar ofertas inadequadas”. — Existe uma “zona cinzenta” que estabelece limites entre o receber um mimo ou algo que evidencia uma prática interesseira e condenável. Um homem simples do interior pode, por exemplo, dar um peixe a uma autoridade com o intuito de ser amigo, condição que o encherá de orgulho e fará inveja aos seus amigos. Já uma pessoa riquíssima, que dê joias caríssimas a alguém que possa beneficiá-lo de alguma forma, mostra claramente um interesse que vai bem além da estima — argumenta Freitas. Para a cientista política Maria Tereza Sadek, pesquisadora e professora da Universidade de São Paulo (USP), a estratégia explorada por Vorcaro não é inédita, mas sim sua dimensão: — Essa aproximação é frequente, mas em geral ela não tem esse tamanho todo que tem no caso do Vorcaro. É a Justiça de primeiro grau, de segundo grau, o Superior Tribunal de Justiça, o Supremo, o Executivo, o Legislativo. Não tem um setor que você diga: “Bom, esse está imune”. A cientista política avalia que iniciativas como a adoção de um código de ética para o Judiciário, defendido pelo presidente do STF, Edson Fachin, são benéficas, mas podem ser insuficientes para conter esse tipo de comportamento identificado nas mensagens de Vorcaro. Ela entende ser necessário um “maior grau de institucionalização e de controle”, assim como a priorização da transparência. — É a possibilidade de você ter isso muito claro, muito desvendado. É saber onde é que os ministros estão, quem essas autoridades recebem, por quanto tempo, se elas frequentam ou não frequentam esses locais públicos. Essa transparência pode funcionar como um fator de inibição — sustenta a professora da USP.
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'Concierge' do poder: mensagens obtidas pela PF mostram como Vorcaro aprimorou método usado para influenciar autoridades
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