Companhia Ensaio Aberto reestreia ‘O dragão’ no Rio: 'peça tem lugar especial no teatro político', diz diretor

 

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Na primeira temporada de “O dragão”, em 2021, quando o personagem Lancelot (Leonardo Hinckel) dizia aos moradores da cidade da peça “não tenham medo”, a plateia do espetáculo aplaudia. A frase era claramente interpretada à luz da pandemia e de como o governo de Jair Bolsonaro lidava com ela. Morreram mais de 700 mil pessoas no Brasil de Covid-19 e suas consequências.

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Na reedição de “O dragão”, que estreia na sexta-feira, 1º de maio, no Armazém da Utopia (o Armazém 6 do Porto do Rio), o bicho que domina uma cidade anônima há 400 anos pode até fazer alusão à família Bolsonaro, mas não só. Segundo o diretor da Companhia Ensaio Aberto, Luiz Fernando Lobo, ele representa a extrema-direita internacional, a começar pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e pelo primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, responsáveis por guerras em curso.

— Há dez anos, ninguém se dizia de direita, muito menos de extrema-direita. A extrema-direita saiu do armário. E também saíram os apoios do empresariado e de parte da mídia. Há um crescimento real no mundo. Na Europa, a direita assume bandeiras como “Estrangeiros fora! Voltem para o seu país!” — diz Lobo, para quem é fundamental pensar o papel do fascismo hoje. — É uma ideia do (dramaturgo alemão Bertolt) Brecht: a burguesia e o capital, quando não conseguem o que precisam, põem os fascistas para conseguir.

Hitler e Stálin

“O dragão” é uma peça que o russo Eugene Schwartz (1896-1958) começou a escrever em 1939, ano em que Hitler e Stálin (duas figuras que o monstro representa) assinaram um pacto de não agressão — que Hitler romperia dois anos depois. O dramaturgo a retomou em 1943 e estreou no ano seguinte. Só houve uma apresentação, pois a peça foi logo proibida. A liberação só veio no final dos anos 1950, e aconteceu um boom de montagens na Europa na década de 1960.

Lobo a conheceu ainda adolescente, numa encenação do Teatro Tablado, no Rio. A tradução era a mesma que ele usa, de Maria Julieta Drummond de Andrade, filha do poeta Carlos Drummond de Andrade.

— Essa peça nunca saiu da minha cabeça, porque ela ocupa um lugar especial dentro da literatura soviética e do teatro político. É completamente antidogmática. Não te oferece nenhum tipo de resposta — afirma ele.

Schwartz classificava a peça como uma “fábula para adultos”. Afina-se com o que o pensador contemporâneo inglês China Miéville vem chamando de “marxismo fantástico”.

— Na visão dele, o fantástico pode rejuvenescer o marxismo — explica Lobo. —Para se chegar à democracia socialista, é preciso inventar novas formas, menos agressivas, menos invasivas, mais ecológicas.

O diretor vê nitidamente Lancelot representando as ideias de Lênin, o principal líder da Revolução Russa de 1917. Atraído pelo gato Mimi (Tuca Moraes), ele chega à cidade, é informado de que Elsa (Luiza Moraes) é mais uma jovem prometida para o dragão (o próprio Lobo na versão humana) e decide desafiá-lo. O confronto acontece no espetáculo, com o dragão de seis metros de comprimento criado pelo artista Eduardo Andrade sobrevoando a plateia.

— No texto, a cidade fica só assistindo e narrando. Que eu tenha conhecimento, sou o único diretor que fiz a batalha — diz o diretor, para quem Lancelot “não quer nada para ele”. — Ele organiza o povo local.

A encenação tem pirotecnia, mágica, acrobacia. Algo bem diferente do que a companhia, voltada para o teatro político, costuma apresentar.

— A esquerda vai ler na peça uma série de coisas que os espectadores comuns não vão ler, mas eles podem se divertir de outra forma. Há tiradas tão boas e cenas tão bonitas que eles acompanham como uma grande montagem de atrações, para usar o conceito do (diretor russo) Meyerhold — ressalta Lobo.

“O dragão” é outra parceria do diretor com o paulista José Carlos Serroni, um dos mais premiados cenógrafos brasileiros. J.C. Serroni, como é conhecido, está com a Ensaio Aberto desde “Sacco e Vanzetti”, espetáculo que estreou em 2014. Para o visual da peça de Schwartz, foi buscar, entre outras referências, a pintura de Marc Chagall (1887-1985), que nasceu no que é hoje a Belarus e se radicou na França.

— Vi que os dois foram contemporâneos. Um falava por metáfora e o outro tinha o lado onírico, meio surreal — aproxima Serroni, que trabalhou com o encenador Antunes Filho por quase 30 anos, com interrupções. — Meus trabalhos com o Antunes sempre foram muito cinzentos. Foi uma beleza trabalhar com cores.

Espírito de guerrilha

O cenógrafo diz se identificar com o espírito “quase de guerrilha” da Ensaio Aberto, que “faz um teatro voltado para a questão social”. É dele o projeto do Armazém da Utopia, reformulação do Armazém 6 que resultou num espaço de 7.417 metros quadrados de área construída. A inauguração foi em 2024, mas a Ensaio Aberto está no local desde 2010 e resistiu a várias tentativas de expulsão.

A companhia tem 16 atores fixos — mas “O dragão” tem 24 — e 60 pessoas contratadas. Promove oficinas com gente de fora, como as pessoas do projeto Crias da Comunidade, de favelas da cidade.

No próximo dia 7, Tuca Moraes reestreia num espaço menor, a Sala Sérgio Britto, o solo “Palavras”, baseado em Clarice Lispector.