Sou um rato de sebo desde sempre. Gosto de todos, mas principalmente dos sebos “raiz”, normalmente bagunçados, empoeirados, verdadeiros mafuás.
Para quem gosta e tem paciência de encarar uma longa garimpagem, o encanto desses lugares está na possibilidade de encontrar tesouros escondidos. O ritual é começar procurando algo que nem você mesmo sabe direito o que é e, no fim, ser surpreendido por uma descoberta.
Foi o que aconteceu com uma caderneta de apenas 34 páginas que encontrei num sebo no Centro do Rio. O título do livreto, “Endereço dos deputados”, e a data, abril de 1959, despertaram minha curiosidade.
Sem ter a menor ideia do que aquilo poderia render, paguei apenas R$ 2 pelo que viria a se revelar um pequeno tesouro — e dar origem a uma grande reportagem na editoria Rio. Leia a reportagem original: Onde moravam deputados federais da última legislatura antes de o Rio de Janeiro deixar de ser capital do país
Agenda do poder. O livreto encontrado pelo GLOBO em um sebo tem endereços e telefones de 336 deputados federais da legislatura de 1959,a última antes da mudança para Brasília
Marcelo Theobald A caderneta era uma publicação oficial da Câmara dos Deputados, que naquela época, quando o Rio ainda era capital do país, funcionava no Palácio Tiradentes, na Praça Quinze.
Suas páginas traziam os endereços de todos os deputados federais daquela legislatura, além de suplentes em exercício e ramais internos do Legislativo. Achei, no mínimo, curioso.
Um pedaço da história da cidade Mas o que vi inicialmente como uma curiosidade, o chefe de reportagem Giampaolo Morgado Braga enxergou como uma possibilidade de pauta.
Afinal, 1959 foi o último ano completo do Rio como capital federal. Ele me propôs fazer uma reportagem mostrando onde moravam os parlamentares da derradeira legislatura na cidade, antes da transferência da capital para Brasília, em abril de 1960.
Mais do que uma lista de nomes e endereços, aquelas páginas permitiam revisitar um pedaço da história do Rio, quando a cidade ainda concentrava o poder político do país. Uma conversa com uma historiadora especialista no período me ajudou a compreender melhor os dados encontrados na caderneta.
O passo seguinte foi ir para a rua com o fotógrafo Domingos Peixoto, atrás de alguns daqueles endereços. E foi aí que a velha caderneta começou a abrir portas, literalmente.
Com uma boa dose de sorte, conseguimos entrar no apartamento da Rua Bolívar, em Copacabana, onde residiu José Sarney. Também encontramos, num edifício na Praia do Flamengo, um morador cheio de histórias para contar sobre o tempo em que Carlos Lacerda vivia no mesmo prédio.
Tesouros de um rato de sebo Não foi a primeira vez que minhas andanças pelos sebos me trouxeram achados surpreendentes.
Entre eles, um disco com a marcha “Para frente Brasil”, hino da Copa de 1970, a do tricampeonato da Seleção Brasileira no México, autografado pelo autor, Miguel Gustavo. O autógrafo por si só já valeria a aquisição, mas o disco ainda trazia uma dedicatória ao general João Batista Figueiredo, quase dez anos antes de ele se tornar o quinto e último presidente do período militar.
Outra surpresa, que guardo com orgulho, foi um desenho de mulher numa folha branca, com dedicatória e assinatura de Braguinha, ninguém menos que o parceiro de Pixinguinha em “Carinhoso”. A ilustração estava num livro, cujo título nem me lembro mais, e hoje, emoldurada, enfeita a parede do meu apartamento.
Já encontrei também livros raros e antigos programas de shows e peças de teatro autografados, entre outros objetos. Relíquias: Repórter narra aventuras em sebos do Rio e abre acervo particular
Agenda do poder. O livreto encontrado pelo GLOBO em um sebo tem endereços e telefones de 336 deputados federais da legislatura de 1959,a última antes da mudança para Brasília
Marcelo Theobald À procura de Célia
Mas a pequena caderneta de 1959 teve um destino diferente: em vez de ir apenas para a minha coleção, acabou se transformando em reportagem. E ainda guarda algumas curiosidades.
Creio que fosse uma publicação de uso interno da Câmara. Além dos endereços dos parlamentares, trazia:
Telefones e ramais de setores como ar-condicionado e chapelaria Contatos dos partidos políticos
Números que poderiam ser acionados fora do expediente, em caso de emergência. Na capa, anotado a caneta, há um nome: Célia.
Imagino que fosse uma funcionária do Legislativo que, se ainda estiver viva, provavelmente estará perto dos 90 anos. Seria bacana se estas reportagens ajudassem a descobrir quem era ela.
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