Como o PT pode se reestruturar após derrota em SP? Renovação e diálogo são desafios

Como o PT pode se reestruturar após derrota em SP? Renovação e diálogo são desafios - Foto
Fonte da notícia: ND Mais ND Mais

Cientista político aponta dificuldades históricas da legenda no estado e avalia o papel de novas lideranças e da aproximação com eleitores do interior A derrota de Fernando Haddad (PT) na disputa pelo governo de São Paulo nas eleições de 2026 levanta dúvidas sobre os caminhos do partido para conquistar espaço no maior colégio eleitoral do país.

Reeleito no primeiro turno, Tarcísio de Freitas (Republicanos) recebeu 62,65% dos votos válidos, contra 36,42% do petista. Para o cientista político Elias Tavares, o resultado não deve ser interpretado como um episódio isolado ou um problema restrito à candidatura de Haddad.

Para o especialista, a dificuldade do PT de conquistar o governo estadual é histórica e exige uma revisão mais profunda da estratégia política, da comunicação e da formação de lideranças. Embora tenha uma base eleitoral consolidada e experiência à frente do governo federal, o partido ainda enfrenta dificuldades para construir uma força majoritária no estado.

“Isso exige mais do que trocar candidatos. Exige construir um projeto de Estado, compreender o eleitor do interior, dialogar com os setores produtivos, com as classes médias, as periferias e apresentar propostas claras para a segurança pública e também desenvolvimento econômico, a mobilidade, a geração de emprego”, afirma.

Um dos principais desafios da legenda é desenvolver uma identidade estadual que não dependa exclusivamente da força eleitoral do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Para Tavares, a estratégia precisa considerar as particularidades econômicas e sociais de São Paulo, que reúne grandes centros industriais, regiões metropolitanas, cidades médias e municípios com forte presença do agronegócio.

Na avaliação do cientista político, reproduzir o discurso nacional do partido não é suficiente para conquistar o eleitorado paulista. A legenda precisa apresentar respostas concretas para problemas cotidianos, como segurança pública, emprego, renda, transporte, saúde e eficiência dos serviços públicos.

“O PT precisa deixar de ser visto apenas como uma alternativa de oposição e começar a ser reconhecido como uma alternativa real de governo”, diz. A renovação dos quadros políticos é outro ponto central para a reconstrução do partido.

Tavares destaca nomes que podem contribuir para esse processo, especialmente por representarem diferentes territórios e formas de atuação política. Entre eles está a deputada estadual Thainara Faria, de Araraquara, no interior paulista.

Advogada, ela construiu sua trajetória política no município antes de chegar à Alesp (Assembleia Legislativa de São Paulo), onde atua em pautas como geração de emprego e renda, combate à fome e desenvolvimento regional. Para o cientista político, a presença de Thainara pode representar uma oportunidade de fortalecer a atuação petista fora da capital e ampliar o diálogo com o interior, região em que o partido enfrenta dificuldades eleitorais.

Outro nome é Luna Zarattini, que chega à Câmara dos Deputados com votação expressiva. A trajetória da parlamentar está ligada à militância estudantil, à educação popular e à atuação política na capital paulista.

O especialista também menciona Alessandro Guedes, vereador com atuação na zona leste da capital e histórico de trabalho junto a movimentos populares e comunidades periféricas. Reeleito para o quarto mandato em 2024, ele assumiu a liderança da bancada do PT na Câmara Municipal de São Paulo em 2026.

Apesar da existência desses quadros, Tavares identifica uma dificuldade na estrutura partidária. “Não basta eleger novos deputados, é preciso preparar futuros prefeitos de grandes cidades, lideranças regionais e, principalmente, possíveis candidatos ao governo do Estado”, afirma.

Ex-governador de São Paulo por quatro mandatos, Alckmin tem trajetória política ligada ao centro e ao eleitorado mais moderado do estado. Para o especialista, essa experiência pode ajudar o partido a estabelecer pontes com setores da população que historicamente demonstram resistência à legenda, sobretudo no interior paulista.

Na avaliação de Tavares, Alckmin pode contribuir para a articulação com prefeitos, lideranças municipais e setores produtivos, mas não substitui a necessidade de o PT desenvolver um projeto próprio para o estado. O cientista político também defende que o partido amplie o diálogo para além dos espaços tradicionais da esquerda.

A relação histórica com sindicatos, movimentos sociais e organizações populares continua sendo relevante, mas não seria suficiente para sustentar um projeto majoritário em São Paulo. O desafio, segundo ele, é estabelecer interlocução com empreendedores, trabalhadores autônomos, eleitores ligados ao agronegócio e moradores de cidades médias, além de jovens que não possuem a mesma identificação histórica com o sindicalismo.

“É preciso sair dos espaços onde a esquerda já é forte e construir presença política nos lugares onde ela ainda encontra resistência”, ressalta. A disputa por eleitores mais jovens também exige mudanças na maneira como o PT apresenta suas propostas.

Para Tavares, além de manter presença nas redes sociais, também é necessário desenvolver uma comunicação direta, compreensível e conectada às preocupações dessa parcela do eleitorado. O especialista avalia que a direita conseguiu formar lideranças com capacidade de comunicação digital, mobilização e construção de identidade política, especialmente entre os jovens.

Para competir nesse cenário, o PT precisa investir na formação de porta-vozes que saibam traduzir propostas em uma linguagem adequada aos novos ambientes de informação. A estratégia também precisa considerar que as demandas do eleitorado paulista variam entre regiões e grupos sociais.

Uma comunicação concentrada na defesa de políticas nacionais ou na figura de Lula pode não ser suficiente para demonstrar como o partido pretende enfrentar os problemas específicos do estado. Por isso, a renovação defendida pelo cientista político envolve tanto a escolha de novos nomes quanto a capacidade de apresentar propostas para segurança, mobilidade, saúde, emprego e renda de maneira consistente.

Camila Souza é repórter do ND Mais em São Paulo, de onde apura e escreve sobre os principais assuntos da maior cidade do Brasil. Integrante do Núcleo Nacional, cobre política, economia, segurança pública e o que mais impacta a população do estado.

Acompanha especialmente movimentações políticas e o que acontece na Grande São Paulo, incluindo a capital paulista, Guarulhos, Campinas, São Bernardo do Campo, Osasco e a região. Formada pela UniRitter, em Porto Alegre, trabalha com comunicação desde 2020 e tem experiência em redação multimídia e edição de conteúdo, com passagens por portais de notícias e jornal impresso.

Foi repórter nas Eleições 2022 e integrou o Projeto Comprova, iniciativa nacional de checagem de fatos. Leia mais ▾

Publicação Original ND Mais ndmais.com.br
Acessar no site oficial
Compartilhar: WhatsApp Facebook Telegram X
Curadoria e Apuração Editorial QTU Conteúdo jornalístico publicado em conformidade com os nossos Princípios Editoriais e política de transparência.
Conhecer a Redação →