Derrotado por Lula (PT) por mais de 4,4 milhões de votos, o senador Flávio Bolsonaro (PL) anunciou na noite deste domingo (25) que não reconhece o resultado do segundo turno e que vai pedir a anulação da eleição. “É impossível reconhecer o resultado das eleições no contexto de como essas coisas aconteceram”, disse, em pronunciamento divulgado após o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) dar a disputa como matematicamente definida.
O roteiro é conhecido. Em 2022, Jair Bolsonaro levou quase dois dias para se manifestar depois de perder para Lula por 2,1 milhões de votos e nunca reconheceu a derrota de forma explícita.
O PL chegou a pedir ao TSE a anulação dos votos de parte das urnas e foi multado em R$ 22,9 milhões por litigância de má-fé. O ex-presidente acabou condenado pelo Supremo Tribunal Federal, em setembro de 2025, a 27 anos e três meses de prisão por liderar a trama golpista que tentou impedir a posse do adversário.
Hoje cumpre a pena. Quatro anos depois, o filho repete o gesto com uma diferença: a margem da derrota é mais que o dobro da que o pai enfrentou.
Com 99,99% das seções apuradas, Lula tinha 51,79% dos votos válidos (64.255.541) e Flávio, 48,21% (59.825.679). No primeiro turno, o senador havia saído na frente, com 47,03% contra 45,16%.
No pronunciamento, Flávio concentrou as críticas na decisão do ministro Cristiano Zanin, do STF, que por volta das 17h determinou a prorrogação da votação em todo o país até as 19h. Os motivos que ele apresentou para não aceitar o resultado foram estes:
O senador afirmou que Zanin “atropelou a Justiça especializada” ao decidir sobre o horário de votação, matéria que seria do TSE, e que não aceitaria “que a regra do jogo tenha sido mudada em cima do jogo”. Como a decisão saiu quando algumas seções já tinham encerrado a votação e lacrado as urnas, Flávio disse ter havido “quebra total de isonomia entre brasileiros de diversos estados”.
“Eu nunca vou saber se, num estado onde as urnas não foram reabertas, quantos votos eu poderia ter”, afirmou. Flávio lembrou que Zanin foi advogado de Lula antes de ser indicado ao Supremo pelo próprio presidente e disse que o pedido de prorrogação partiu de um ex-sócio do ministro.
Chamou a decisão de “ultrajurídica” e atribuiu o resultado aos “amigos do Lula no Supremo Tribunal Federal”. O senador disse que fiscais do PL foram retirados da sala-cofre do TSE depois da decisão.
Não apresentou provas, documentos ou nomes. Flávio citou ainda “um ministro”, que não nomeou, que teria dito à imprensa que a eleição deveria ser anulada nessas circunstâncias.
Ao final, anunciou que o departamento jurídico da campanha vai pedir a anulação do pleito, sem dizer a qual tribunal nem quando, e encerrou com um apelo aos apoiadores: “Eu não vou desistir do meu Brasil. Espero que você que tenha assistido também não desista”.
A prorrogação não foi uma invenção da campanha de Lula aceita de surpresa pelo Supremo. Na tarde de domingo, uma inspeção judicial em Salvador constatou que mais da metade da frota de ônibus de um dia útil ficou nas garagens por ordem da agência de mobilidade da prefeitura, e o secretário de mobilidade da capital baiana foi preso por determinação da Justiça Eleitoral.
A coligação de Lula pediu primeiro ao TSE, por volta das 13h30, que o horário fosse estendido. O presidente do tribunal, Kassio Nunes Marques, não decidiu, e às 16h05 apenas deu meia hora para as prefeituras se explicarem.
Só então a coligação foi ao STF, que recebeu o pedido às 16h32. A campanha de Flávio também pediu prorrogação naquela tarde.
Pouco antes da decisão de Zanin, o senador protocolou no TSE um pedido para estender a votação em São Paulo, Paraná e Santa Catarina por causa das condições do tempo. A informação não entrou no pronunciamento.
O argumento de que Zanin passou por cima da Justiça Eleitoral também esbarra no que fez o próprio TSE. Nunes Marques, indicado ao Supremo por Jair Bolsonaro em 2020, telefonou para Zanin, apontou que seções já fechadas não poderiam reabrir e, em seguida, orientou os tribunais regionais a manter em funcionamento até as 19h apenas as seções que ainda estavam abertas.
A decisão foi ajustada exatamente para evitar a reabertura de urnas lacradas. Foi esse mesmo tribunal, presidido por um ministro indicado pelo pai do senador, que horas depois deu Lula como reeleito.
Sobre a conta que Flávio diz nunca poder fazer, os números ajudam. A diferença entre os dois candidatos passa de 4,4 milhões de votos.
Para que duas horas a mais de votação em seções que já estavam abertas, e abertas para os dois lados, tivessem invertido o resultado, Lula precisaria ter recebido nesse intervalo uma vantagem líquida maior do que todo o eleitorado de Goiás que compareceu às urnas no segundo turno, pouco mais de 4 milhões de pessoas.
O pedido de anulação, se chegar ao TSE, atinge também os 2.345.097 votos que os goianos deram ao senador. Flávio venceu em Goiás com folga, apesar de ter perdido 3,65 pontos em relação ao primeiro turno, e em Anápolis teve 70,28%.
É esse resultado que o próprio candidato agora diz não ser possível reconhecer. Até o fechamento desta reportagem, o TSE não havia se manifestado sobre o anúncio de Flávio, e nenhuma ação havia sido protocolada.
Os presidentes do Senado, Davi Alcolumbre, e da Câmara, Hugo Motta, telefonaram a Lula depois do resultado para pedir pacificação.
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