De parafusos a motores elétricos e metais sanitários, empresas da região conquistaram mercados internacionais. Parafusos! Essas pequenas peças que sustentam de pé pontes, torres de energia, estádios, aviões, tratores e eletrodomésticos, ajudaram a construir uma história industrial firme e que hoje conecta Santa Catarina a mercados internacionais.
Vamos entrar agora em mais um assunto do projeto Multiplataforma do grupo ND, SC 500 anos. No norte do estado, o mesmo território que produz elementos de fixação, também abriga fabricantes de motores elétricos, compressores e metais sanitários.
Uma torneira instalada em uma casa pode ter origem nessa cadeia produtiva, que reúne empresas de diferentes portes, conhecimento técnico e gerações de trabalhadores. O caminho até essa potência, porém, começou longe das linhas de produção automatizadas.
Em março de 1851, quando um navio vindo de Hamburgo trouxe os primeiros colonos para a Colônia Dona Francisca, futura Joinville, a realidade encontrada era bem diferente da prometida. A companhia colonizadora anunciava terras férteis e barracões abastecidos.
Os imigrantes, no entanto, encontraram dificuldades para cultivar a terra. Ao subir o Rio Cachoeira, depararam-se com áreas de mangue, enquanto a umidade prejudicava as sementes.
“Então o início foi bastante dificultoso, mas nem por isso eles desistem da colônia. Afinal de contas, a passagem era só de vinda, era ficar ou ficar!”, resume a historiadora Dolores Tomaselli, ao explicar as condições enfrentadas pelos primeiros moradores.
Uma das primeiras fontes de renda da região vinha do planalto. Pela Estrada Dona Francisca, carroções transportavam erva-mate até Joinville, onde o produto era beneficiado e enviado pelo Porto de São Francisco do Sul para mercados como Argentina, Uruguai e Paraguai.
A atividade comercial criou demandas por ferramentas, peças e serviços. Foi nesse ambiente que pequenas iniciativas de trabalho com metais começaram a ganhar espaço.
“De pequenas iniciativas na metalurgia para fazer os aros das carroças, as molas, pequenas habilidades que deram origem a grandes indústrias e transformaram então Joinville de uma colônia agrícola para uma cidade industrial que vai ser batizada de Manchester catarinense”, explica Dolores Tomaselli.
A transformação exigia, além de habilidade, dinheiro para comprar equipamentos. Uma das soluções encontradas foi a caixa de pecúlio, uma espécie de poupança coletiva: quem tinha recursos disponíveis podia deixá-los à disposição de quem precisava investir em maquinário.
Em 1881, a família Schneider abriu uma loja no centro da colônia. Vendia aço, ferramentas, sementes de flores e até as primeiras bicicletas da cidade.
Anos depois, as dificuldades provocadas pela Segunda Guerra Mundial e pela interrupção do comércio internacional evidenciaram a dependência de produtos importados. A falta de elementos de fixação, como parafusos, levou à criação de uma fábrica em Joinville.
O empreendimento, que começou pequeno, com quatro ou cinco funcionários, viria a se tornar a Ciser, uma das referências da região nesse segmento. “As guerras, sem dúvida, dificultam ou travam o comércio internacional.
Então, durante as guerras, não existia importação. Mas, mesmo depois da guerra, o pessoal da casa dos meus antepassados sentiu dificuldade em encontrar elementos de fixação.
É isso que levou à ideia de se criar uma fábrica de elementos de fixação aqui em Joinville”, conta Carlos Rodolfo Schneider, presidente da Ciser. A história da empresa ajuda a explicar uma característica importante da industrialização catarinense: a capacidade de identificar uma necessidade e desenvolver localmente uma solução.
A vocação metalúrgica também impulsionou outros negócios. A Tupy nasceu em 1938, com a fundição de ferro.
Em Jaraguá do Sul, a WEG surgiu em 1961, voltada à fabricação de motores elétricos. Em Joinville, a Schulz começou em 1963, produzindo compressores.
Entre as décadas de 1950 e 1970, o Brasil passou a ampliar a fabricação de produtos que antes precisava importar. O Norte catarinense ganhou espaço como fornecedor da indústria nacional.
Para o economista e professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Lauro Mattei, a integração com outros mercados foi decisiva para consolidar esse protagonismo. “Se olharmos pra indústria de Joinville, vamos ver que ela manteve uma relação importante e muito mais integrada com Curitiba e, por meio dela, com o polo industrial de São Paulo”.
E a conexão com cadeias produtivas maiores elevou as exigências de qualidade e produtividade. Com o tempo, essa capacidade técnica também abriu portas no exterior.
A história da Docol começou em 1956, quando três sócios criaram uma fábrica que consertava diferentes tipos de equipamentos. A experiência inicial com aparelhos para dentistas ajudou a desenvolver uma cultura de precisão que seria aplicada, mais tarde, à fabricação de torneiras, chuveiros e válvulas.
“No início, a gente fazia equipamentos para os dentistas, que certamente exigiam alta precisão. E isso faz com que, quando a gente produz uma torneira, um chuveiro, uma válvula, a gente busque isso também”, explica Guilherme Bertani, presidente da Docol.
A empresa hoje conta com quatro parques fabris, 321 patentes e é apresentada no episódio como a maior exportadora de metais sanitários da América Latina, com produtos vendidos em 35 países. A exigência por precisão também acompanha a evolução da indústria de elementos de fixação.
Novas tecnologias ampliam a resistência das peças e permitem desenvolver sistemas capazes de rastrear onde e como elas são utilizadas. Para Maurício Cappra Pauletti, gerente executivo de Inovação e Tecnologia do Senai de Santa Catarina, empresas que integram cadeias produtivas mais exigentes, como a automotiva, acabam desenvolvendo padrões elevados de produtividade e desempenho, cobrados também por clientes e parceiros internacionais.
Hoje, Santa Catarina lidera a produção brasileira de motores elétricos e compressores. Por trás das máquinas, existe outra engrenagem menos visível: a forma como as empresas administram seus recursos.
Para Cristiano José Ribeiro dos Santos, sócio-diretor da Martinelli Auditores, parte da solidez de negócios familiares está na decisão de reinvestir os resultados em vez de distribuir todo o lucro. “Às vezes, o empresário vem de uma origem familiar.
Ele é mais conservador. Então, ele quer ter a reserva, como dizem, para os dias de chuva”, observa.
A estratégia pode ajudar a atravessar períodos de instabilidade e financiar melhorias. Nesse processo, a auditoria também pode atuar como parceira da gestão.
Segundo Victor Dippe, sócio-diretor da Martinelli Auditores, o trabalho vai além de examinar números e concluir um procedimento. “O auditor não está lá puramente para pegar uma informação fria, auditar e concluir um processo.
Ele está lá para somar no dia a dia, para tentar ver aonde o dia a dia não enxerga”, afirma. Sobre o Projeto “SC 500 Anos”É um movimento multiplataforma do Grupo ND que tem a curadoria de Lelia Pereira Nunes, Sueli Petry, Claudio Silveira e Moacir Pereira e é patrocinado pela Aegea SC, Fiat, Martinelli, Blumenau Iluminação, Fiedler Automação Industrial, Alínea Urbanismo, UNC – Universidade do Contestado, Koerich e Trimania Norte, Trimania Sul e Trivale e Diamante.
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