As urnas brasileiras fecham às 17h e o país conta em horas. Como os países contam votos varia da urna eletrônica da Índia ao envelope duplo de Israel, e cada método troca velocidade por verificação.
Às 17h, horário de Brasília, as urnas fecham em todo o país. Em poucos minutos, os primeiros números aparecem na tela.
Em outros lugares do mundo, a mesma noite seria muito diferente: em alguns países o resultado só viria de manhã, e em outros, depois de dias. A apuração brasileira tem duas etapas.
Quando o último eleitor vota, cada urna eletrônica, que funciona sem conexão com a internet, apura os votos da sua seção e imprime cinco vias do Boletim de Urna (BU). Depois, os dados de todos os BUs são transmitidos e somados na totalização, feita pelo TSE.
Por regra do próprio Tribunal, a divulgação começa às 17h no horário de Brasília para todo o país, inclusive para o exterior. O TSE publica os BUs de cada seção, e o eleitor pode consultar o boletim da sua urna pelo QR code, com o aplicativo Boletim na Mão.
O placar muda ao longo da noite porque os boletins chegam em ordem diferente, por região. Em 2022, Lula passou Bolsonaro às 18h44, com 67,76% das urnas apuradas.
A eleição daquele ano foi definida em menos de três horas após o fechamento das urnas. O caso mais impressionante é o indiano.
Em 2024, havia 968 milhões de eleitores registrados, 1,05 milhão de locais de votação, 5,5 milhões de urnas eletrônicas e cerca de 15 milhões de funcionários mobilizados. A votação durou seis semanas, em sete fases, mas a contagem aconteceu em um único dia, 4 de junho, para os 642 milhões de votos.
A contagem começa pelos votos postais, e as urnas eletrônicas entram cerca de meia hora depois. Cada mesa conta rodadas de 14 máquinas por vez.
Como verificação, o comprovante impresso de cada voto (VVPAT) é conferido por amostragem, em cinco locais de votação por circunscrição. Os resultados saíram na própria noite de 4 de junho e na manhã seguinte.
O Brasil optou por outro caminho de verificação: boletim impresso em cinco vias, QR code, publicação de todos os BUs e testes de integridade no dia da votação. Reino Unido, Alemanha, França, Canadá e Espanha usam cédulas de papel contadas à mão no mesmo dia.
No Reino Unido, a contagem é feita nos centros de cada circunscrição, durante a noite ou no dia seguinte, e cada uma declara seu resultado. Na Austrália, os votos são contados duas vezes: no local de votação e, a partir da noite de segunda-feira, nos centros de contagem.
A transparência vem das pessoas que assistem. Partidos e cidadãos acompanham a contagem das pilhas de cédulas, e o resultado é conferido na frente de todos.
Isso só funciona porque, nesses países, a cédula costuma ter pouca coisa para contar, em geral uma única disputa. Contar à mão cédulas com dezenas de disputas é muito mais lento.
Os EUA não têm um sistema, têm milhares. Cada estado e cada condado define seus prazos e suas regras para votos pelo correio, e a maior parte das cédulas é de papel contada por máquinas de leitura óptica.
A contagem manual existe só em poucas jurisdições. O resultado é que a apuração se espalha por dias.
Em 2020, os votos presenciais, contados primeiro, favoreceram Trump; os votos pelo correio, contados depois, foram virando o placar para Biden. O resultado só foi confirmado dias depois da eleição, e a conferência de cédulas provisórias pode levar uma ou duas semanas.
Israel vota na terça, 27 de outubro, sempre em dia de feriado nacional. São 7,33 milhões de eleitores e 37 partidos disputando as 120 cadeiras do Knesset.
O voto é em cédula de papel, contada nos locais de votação, e as urnas seguem para um dos 25 centros de apuração, onde os dados entram num sistema de computador fechado, sem conexão com a internet. A particularidade é o envelope duplo.
Soldados, diplomatas no exterior, presos, doentes e outros eleitores fora do local de votação colocam o voto num envelope menor, dentro de outro com seus dados. O voto só é contado depois de conferido que a pessoa não votou também no seu local de origem.
O Exército abriu cerca de 850 locais de votação, inclusive móveis em Gaza, no Líbano e na Síria, e as 101 seções diplomáticas, em 99 missões, atendem cerca de 4.800 eleitores. Todos esses votos viajam para o Knesset e só são contados depois de todos os outros.
Para a eleição de terça, a Comissão Central de Eleições prepara um recorde de cerca de 650 mil envelopes duplos, o equivalente a cerca de 14 cadeiras. Eles não aparecem na noite da apuração.
Num cenário apertado, partidos perto da cláusula de barreira de 3,25% terão de esperar dias para saber se entram no Parlamento. Em 2022, mais de 600 mil envelopes decidiram o destino dos partidos Meretz e Balad.
O extremo oposto é a Estônia. Desde 2005, o país permite voto legalmente válido pela internet, com identidade digital.
Em 2023, 51% dos votos foram dados online, a primeira vez que um país passou da metade. O eleitor pode mudar o voto pela internet, e votar em papel no dia da eleição cancela o voto digital.
Só depois do fim da votação os votos online são cruzados com os de papel, para impedir voto duplo. Cada sistema abre mão de algo.
O Brasil trocou o papel pela velocidade e pela totalização centralizada, e criou formas digitais de verificar o resultado. A Índia ganhou escala, com contagem em um dia.
A Europa ganhou testemunhas humanas, ao custo de uma noite inteira de contagem. Os EUA ganharam federalismo e pagam com lentidão.
Israel ganhou a garantia de um voto por eleitor e perdeu a rapidez. A Estônia ganhou conveniência e depende da confiança na tecnologia.
Nenhum desses sistemas é perfeito. O que os separa é a clareza das regras antes da eleição e a possibilidade de conferir o resultado depois.
A velocidade da apuração não mede a qualidade da democracia, mede o método escolhido, e o que dá legitimidade a qualquer método é o resultado ser aceito por quem perdeu. Hoje, depois das 17h, o placar muda.
Acompanhe até o fim.
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