Como Netanyahu usou o medo, mais uma vez, para conquistar mais votos do que qualquer outro candidato em Israel

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, não venceu as eleições de Israel. Mas certamente também não perdeu.

Nem ele nem seu principal adversário têm um caminho claro para formar um governo. O que está claro, no entanto, é que Netanyahu teve um desempenho muito melhor do que seria razoável esperar de alguém que carrega um histórico tão grande de desgaste político.

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Quer ler mais notícias de Mundo? Acompanhe o canal no WhatsApp Seus adversários, liderados pelo ex-chefe militar Gadi Eisenkot, chegaram à decisiva votação de terça-feira depois de liderarem consistentemente as pesquisas e confiantes de que seu objetivo — conquistar uma maioria absoluta apoiada exclusivamente em partidos predominantemente judeus — estava ao alcance.

Netanyahu, em comparação, chegou ao dia da eleição enfraquecido, carregando a indignação da população por sua recusa em assumir a responsabilidade pelo ataque liderado pelo Hamas em 7 de outubro de 2023; o cansaço dos israelenses com um mandato de quatro anos durante o qual tentou ampliar seu poder às custas do Judiciário; e a frustração com sua resistência em obrigar os judeus ultraortodoxos a compartilhar o sacrifício do serviço militar.

Ainda assim, os resultados iniciais das eleições de terça-feira mostraram que seu partido, o Likud, superou todos os demais. O resultado deixou os líderes judeus da oposição diante de uma escolha difícil.

Com 95% das urnas apuradas, o bloco do premier conquistou 53 cadeiras no Parlamento — abaixo das 61 necessárias para formar maioria, enquanto os partidos de de oposição e as legendas lideradas por árabes reuniam 48 e 19 assentos, respectivamente, somando 67 assentos. Entenda: O que significa a eleição de Israel para Gaza, Cisjordânia e o resto do mundo?

Agora, eles podem desistir de derrotar Netanyahu de maneira definitiva e considerar a possibilidade de se juntar a ele em um eventual governo de unidade nacional, que deixaria de fora alguns de seus aliados mais extremistas. Ou podem tentar formar uma maioria governista por conta própria, superando a resistência a estabelecer uma parceria com partidos árabes, que Netanyahu — e a maioria dos judeus israelenses — têm tratado como politicamente inaceitáveis.

Exploração do medo A maneira como Netanyahu conseguiu essa façanha, porém, não foi nenhuma surpresa.

O veterano líder israelense, conhecido por sua habilidade de escapar de situações políticas aparentemente impossíveis, não apresentou nenhum truque novo. Mas talvez tenha sido o único a compreender que suas velhas estratégias continuariam funcionando.

— Ele recebeu uma mão muito difícil, mas usou os recursos que tinha da melhor maneira possível — afirmou Michael J. Koplow, analista do Israel Policy Forum, um centro de pesquisas sediado em Nova York.

Contexto: Boca de urna oscila e coalizão de Netanyahu passa ligeiramente à frente em eleição com votação recorde em Israel O principal desses recursos é a habilidade de Netanyahu de explorar os medos dos israelenses.

Netanyahu argumentou aos eleitores israelenses que, se eles consideravam ruim o que aconteceu em 7 de outubro — o dia mais catastrófico da história de Israel, quando 1,2 mil pessoas foram mortas e 251 sequestradas —, aquilo não seria nada comparado ao pesadelo que poderia resultar da criação de um Estado palestino.

Era um argumento claramente falso. Apenas o mais à esquerda entre os líderes da oposição israelense, Yair Golan, do partido Democratas, havia se manifestado favoravelmente a uma solução de dois Estados — e até ele afirmou que a criação de um Estado palestino seria inviável em um futuro próximo, especialmente depois de 7 de outubro.

Ainda assim, nada do que a oposição disse conseguiu rebater a acusação com a mesma força com que Netanyahu a apresentou: por meio de outdoors do tamanho de arranha-céus que proclamavam “Yamin o Filastin” — direita ou Palestina. Conheça: Líder nas pesquisas, Gadi Eisenkot não poderia ser mais diferente de Netanyahu.

Será que ele consegue derrotá-lo? Netanyahu também explorou os temores de muitos em relação à possibilidade de cidadãos árabes de Israel e seus líderes políticos exercerem poder.

Descendentes dos palestinos que permaneceram em Israel após a criação do Estado, em 1948, os cidadãos árabes são cerca de 20% da população. Frequentemente, porém, eles enfrentam discriminação e desconfiança em razão da solidariedade à causa palestina, sentimentos intensificados depois do ataque de 2023, embora cidadãos árabes também tenham sido mortos e sequestrados.

‘Inimigos internos’ Os judeus israelenses estão polarizados em torno de Netanyahu há anos, o que faz com que a oposição frequentemente não consiga alcançar maioria parlamentar sem os votos dos árabes.

Se isso se repetisse, o desafio político de Netanyahu seria limitado: para permanecer no poder, ele precisaria apenas fazer com que os líderes judeus da oposição tivessem medo de concretizar a parceria com seus aliados árabes. Por isso, ele retratou incansavelmente políticos árabes como Mansour Abbas — que havia participado do governo em 2021 e 2022 — como inimigos internos e uma ameaça ao país.

Um de seus muitos anúncios produzidos com inteligência artificial mostrava Abbas e Golan, do Democratas, dentro de um cavalo de Troia que era arrastado para o interior das muralhas de uma cidadela israelense. Protagonista em Israel há 30 anos: Netanyahu vê em jogo nas eleições projeto de remodelar Oriente Médio à sua imagem

Outro mostrava Abbas fumando um narguilé, com os pés apoiados sobre a mesa do gabinete, enquanto vetava propostas de medidas de segurança contra os palestinos apresentadas por um governo liderado por Eisenkot. Em seguida, Abbas se animava e aprovava a “retirada de comunidades judaicas para construir confiança rumo a um Estado palestino”.

Toda a preparação antiárabe conduzida por Netanyahu acabou favorecendo sua campanha quando os eleitores árabes compareceram às urnas em números recordes na terça-feira. Netanyahu transformou a participação histórica em um alerta vermelho para a direita, publicando uma sequência de imagens nas redes sociais que mostravam árabes indo votar usando coberturas na cabeça ou montados em camelos.

Ele também pediu aos israelenses de direita que poderiam votar em outros partidos que escolhessem o Likud, como se isso fosse “uma questão de vida ou morte para nós”. — Acho que ele percebeu há muito tempo que uma alta participação eleitoral entre os árabes, na verdade, não seria ruim para ele, desde que o debate em Israel estivesse voltado para deslegitimar os árabes — disse Shira Efron, analista israelense da RAND.

Divisões persistentes Na realidade, Abbas e seu partido, o Raam, têm trabalhado para conquistar a aceitação de parlamentares judeus e da população israelense, de olho na participação em um futuro governo e até mesmo na possibilidade de ocupar um cargo ministerial.

Ele reconheceu que Israel era e continuaria sendo um Estado judeu e, em uma iniciativa ousada antes das eleições, colocou um parlamentar judeu, Yoav Segalovitz, na segunda posição da lista de candidatos do Raam. Eleições em Israel: Guia prático mostra como funciona sistema que definirá o futuro de Netanyahu

O maior dos dois partidos árabes, uma aliança de três legendas menores chamada Lista Conjunta, inclui uma facção nacionalista palestina e é visto como mais hostil ao sionismo. Seu líder, Yousef Jabareen, afirmou estar disposto a cooperar para derrubar o governo Netanyahu, mas poucos esperam que a Lista Conjunta ofereça qualquer tipo de ajuda além de apoiar um novo premier sem integrar a coalizão governista.

A campanha de Netanyahu também se beneficiou de outros fatores. Eisenkot nunca chegou a negar completamente que formaria um governo com parlamentares árabes, mas também nunca contestou com firmeza a ideia de que haveria algo de errado nisso.

O bloco de oposição tampouco chegou a se unir plenamente em torno de Eisenkot, já que seus aliados Naftali Bennett, ex-primeiro-ministro, e Avigdor Liberman, ex-ministro da Defesa, mantiveram as esperanças de articular suas próprias chegadas ao cargo de premier. Relação com Trump

Netanyahu também explorou sua relação com o presidente Donald Trump, que lhe deu um apoio entusiasmado, e utilizou os poderes de quem já ocupa o cargo para controlar a agenda política, que procurou manter concentrada no Irã e em suas ambições nucleares — outra grande fonte de temor entre os eleitores israelenses.

Quanto mais falava sobre possíveis crises de segurança no futuro, mais Netanyahu conseguia desviar a atenção dos israelenses das falhas de segurança que não havia conseguido evitar, disse Yaakov Katz, ex-editor do The Jerusalem Post e cofundador do Middle East-America Dialogue. Nesse sentido, embora a trajetória militar de Eisenkot transmitisse segurança, Netanyahu podia recorrer a uma relação com os eleitores de direita construída ao longo de 30 anos, disse Katz.

— Ele está falando de ameaças reais. Então, quando ele faz você pensar nelas, a próxima pergunta que você se faz é: “Quem vai me defender e me proteger dessas ameaças? E eu sei que ele tem um histórico de acertos e erros, mas pelo menos eu o conheço.

Os outros são uma aposta.”

Publicação Original O Globo oglobo.globo.com
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