247 – O governo dos Estados Unidos recebeu um lote inicial de 1 milhão de barris de petróleo vindo da Venezuela sem a necessidade de pagamento imediato pelos cofres públicos norte-americanos. A operação foi anunciada pelo presidente Donald Trump durante deslocamento para um comício político, ocasião em que classificou o envio do insumo sul-americano como uma oferta gratuita ao país, informa a CNN.
A movimentação de navios-tanque com o insumo desembarcou no porto de Corpus Christi, no Texas, e foi celebrada por Trump como desdobramento da intervenção militar promovida no país sul-americano no início do ano. Durante discursos no mesmo dia, o mandatário norte-americano vinculou a chegada da commodity às ações operacionais do início de 2026 que culminaram no sequestro do presidente Nicolás Maduro.
Em pronunciamento a repórteres, o líder da Casa Branca declarou: “assumimos o controle da Venezuela com muito sucesso, e eles me enviaram, como presente, um carregamento de um milhão de barris de petróleo; estou repassando isso aos Estados Unidos da América”. Em manifestação posterior em sua plataforma digital Truth Social, o presidente reforçou o teor da declaração ao publicar que, “graças à nossa relação renovada com a Venezuela — que se revelou verdadeiramente excelente —, o petróleo está sendo fornecido aos Estados Unidos SEM custo algum para o contribuinte americano”.
No período da noite, diante do público presente ao evento no Texas, acrescentou: “estão vendo aquele naviozinho ali? Ele traz 1 milhão de barris de petróleo da Venezuela, e nós estamos comemorando. Ao vencedor pertencem os espólios, não é?”.
A gratuidade momentânea do carregamento gerou ruídos nas comunicações da North American Blue Energy Partners (NABEP), produtora privada atuante no território venezuelano e parceira do governo dos Estados Unidos. A empresa pertence à família do empresário internacional Alejandro Betancourt López, estabelecido no Reino Unido.
Por meio de um contrato firmado em agosto — classificado pela Casa Branca como o “maior negócio de petróleo da história mundial” —, o Pentágono comprou participação acionária na controladora da NABEP, garantindo ao Departamento de Estado dos Estados Unidos o direito de adquirir os primeiros 20% da extração a preço de custo, estipulado em US$ 30 (cerca de R$ 160) por barril.
Inicialmente, a produtora informou em nota oficial que o carregamento chegado ao território texano representava o exercício do direito de compra a preço de custo sem margem lucrativa, conforme previsto no termo assinado com os Departamentos de Estado e de Guerra dos Estados Unidos.
Contudo, após as falas públicas de Trump, a empresa retificou o comunicado para alinhar a narrativa, registrando que, “para reconhecer a natureza histórica do acordo entre a NABEP e seu novo comprador principal, o governo dos Estados Unidos, a NABEP entregou o primeiro milhão de barris de petróleo sem custo algum para o contribuinte norte-americano”.
O modelo financeiro acordado prevê que o valor desta primeira carga seja abatido por meio de reajustes em remessas futuras, sem doação definitiva. Uma fonte familiarizada com os termos da negociação explicou que “A carga está sendo entregue em conformidade com um acordo comercial, segundo o qual o seu valor é quitado por meio de ajustes nos preços de futuras retiradas, em vez de um pagamento em dinheiro feito de imediato”.
Na prática, enquanto o primeiro lote sai a US$ 0 por barril, o lote seguinte pode ser faturado por US$ 60 (aproximadamente R$ 321), estabelecendo a média contratual de US$ 30 por barril. Um porta-voz da Casa Branca confirmou que a ausência de desembolso limitou-se exclusivamente à remessa inaugural.
Ainda que haja a cobrança postergada de US$ 60 por barril, os Estados Unidos mantêm vantagem financeira relevante, uma vez que a cotação da commodity no mercado internacional gira em torno de US$ 80 (cerca de R$ 428). O governo norte-americano defende a operação alegando que a entrada de recursos estrangeiros é indispensável para reestruturar a indústria petrolífera venezuelana, cuja capacidade de extração recuou de mais de 3 milhões de barris diários na década de 1990 para cerca de 1,2 milhão de barris por dia.
A atuação de Washington na extração de recursos sul-americanos a valores reduzidos para revenda com margens elevadas é alvo de contestação por parlamentares da oposição. O deputado democrata por Illinois, Dan Casten, criticou a falta de transparência nas negociações e declarou que “o presidente Trump ocultou deliberadamente os detalhes de seu esquema envolvendo o petróleo da Venezuela.
Ainda não sabemos exatamente quanto dinheiro está envolvido nem para onde esse dinheiro está indo”. A intenção de direcionar as riquezas venezuelanas à economia norte-americana já havia sido ressaltada por Trump logo após a ação militar que resultou no sequestro de Maduro, em 3 de janeiro.
Na ocasião, o presidente discursou sobre a necessidade de salvaguardar os ativos daquele país e afirmou: “o futuro será determinado pela capacidade de proteger o comércio, o território e os recursos que são essenciais para a segurança nacional. Eles são fundamentais para a nossa segurança nacional.
Assim como as tarifas — que tornaram nosso país rico e fortaleceram nossa segurança nacional, deixando-a mais robusta do que nunca. Essas são as leis férreas que sempre determinaram o poder global.
E vamos manter as coisas assim”.
Brasil 247