Como nascem as crônicas

 

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Caros Leitores,

Do jeito que a coisa está eu acho bom a gente fazer um contrato. Eu, Martha Batalha, brasileira, escritora, jornalista, ocupando quinzenalmente o alto da última página do Segundo Caderno, declaro em pleno gozo das faculdades mentais que enquanto aqui estiver eu serei sempre, eu. Posto isto, nenhuma linha desta coluna jamais será gerada por inteligência artificial.

Ah, mas como a gente sabe que você é você?

Eu gostaria de responder que é óbvio. Que nenhuma tentativa de gerar um texto similar ao meu chegará aos pés do que escrevo. Mas a cópia do estilo de uma autora feita por IA se parece cada vez menos com pastiche, e mais com a voz da autora. É assustador, e se eu fosse me render aos prognósticos estaria agachada no canto do quarto sentindo-me miserável.

Eu não estou no canto, mas aqui: manhã de domingo. Faz sol em LA. Escrevo da sala com o computador no colo. Chega o cachorro da área mastigando uma meia. Eu tiro a meia e mostro: “Pode?” Ele evita me olhar, envergonhado. Eu volto ao que escrevo. Ele começa a se lamber. Eu digo: “Para.” Ele olha para o outro lado. Eu volto ao que escrevo. Ele volta a se lamber. Eu digo: “Não pode, cadê seu brinquedo? Tira essa bola babada do meu colo.” Eu fecho o computador e penso na crônica. Quero escrever sobre como é bom ser maluca e ter um cachorro, porque antes eu só falava sozinha e agora disfarço falando com o cachorro. Sobre o odioso e sub-reptício hábito de enfiar azeitona no empadão. Sobre o prazer de tirar do fundo da mente um sub-reptício, uma tertúlia, estafeta, convescote, mnemonia, melopeia, alostrófico (o corretor de texto negou a existência dos três últimos e eu rá! Eu sei mais). Sobre o nojo de acompanhar simultaneamente a tragédia de Gisele Pelicot, a abertura dos arquivos do Epstein, os feminicídios no Brasil, a vigência da lei talibã autorizando os homens a bater nas mulheres (agora só não pode quebrar os ossos).

É possível jogar cada um destes temas no ChatGTP e pedir uma crônica. Não é possível ter de volta o exato teor do que eu escrevo. Porque escrita não é resultado, mas processo. Essa crônica começou a ser feita naquela manhã de domingo, permaneceu em mim depois de fechar o computador, continuou a ser escrita e editada por várias horas da segunda-feira. Ou começou a ser escrita no mês passado, há três meses, dez anos, na faculdade, quando li na escola as crônicas de Drummond, Mendes, Braga e Sabino da coleção Para Gostar de Ler. Ou em vários outros milhões de começos.

Eu sou meu algoritmo. O que escrevo é a combinação única de tudo que li e vivi. Não é pontual e efetivo, mas orgânico e mutável. A minha escrita permanece se modificando pelo que leio e vivo, pelo contínuo treino da voz e do olhar. E pelos fracassos. Para cada milhão de palavras escritas, umas dez mil são publicadas.

Daqui eu tenho fé que vocês saibam a diferença (assinem aí embaixo, no nosso contrato). Que permaneçam leitores atentos às nuances do texto. Nosso acordo é feito de ritmo, sentenças, gramática, leitura crítica e tal, mas também de algo maior e místico, a gosto do freguês. Energia, conexão, telepatia, kumbalauê. Tem algo vivo, de coração e mente, daqui para aí. Um tanto cafona, esse final. E muito humano.