Quando analisamos nossos investimentos, é comum que a atenção seja imediatamente capturada pela rentabilidade bruta.
Os números expressivos de rendimentos passados costumam brilhar aos olhos, mas eles contam apenas metade da história.
No planejamento financeiro, a verdadeira medida de sucesso de uma aplicação não é o quanto ela rendeu na teoria, mas sim o quanto desse rendimento efetivamente permaneceu no patrimônio do investidor.
Afinal, como avaliar se um fundo realmente entrega valor depois que todos os custos são descontados?
Para responder a essa pergunta, precisamos primeiro compreender a anatomia das taxas.
No Brasil, de acordo com as normas da CVM (Comissão de Valores Mobiliários), os fundos de investimento costumam apresentar duas cobranças principais.
A primeira é a taxa de administração, um valor percentual cobrado anualmente sobre o montante investido para remunerar a equipe responsável pela manutenção e operacionalização do portfólio.
A segunda é a taxa de performance, uma espécie de "prêmio" cobrado pelo gestor apenas quando a rentabilidade do fundo supera um indicador de referência previamente estabelecido, conhecido como benchmark (como a variação do CDI ou do Ibovespa).
O impacto dessas taxas no longo prazo é profundo.
Devido ao efeito dos juros compostos, uma diferença de 1% ou 2% ao ano em custos pode significar uma redução drástica no capital final acumulado ao longo de décadas.
Portanto, o primeiro passo para avaliar a entrega de valor de um fundo é a comparação direta entre o seu custo e o formato de sua gestão.
Nesse cenário, dividimos as estratégias em duas frentes: a gestão passiva e a gestão ativa.
A gestão passiva busca apenas replicar o desempenho de um índice de mercado.
Por ser um trabalho mais automatizado, esses veículos possuem taxas de administração extremamente baixas.
Já a gestão ativa tem o objetivo de superar a média do mercado, exigindo equipes robustas de análise e, consequentemente, cobrando taxas mais altas,tradicionalmente na casa de 2% de administração e 20% de performance.
Um fundo de gestão ativa só entrega valor real após as taxas se ele conseguir gerar o que chamamos de "Alpha" de forma consistente.
O Alpha é o retorno excedente que o gestor consegue entregar acima do risco e da média do mercado, já descontados todos os custos.
Se um fundo cobra taxas elevadas, mas entrega um resultado líquido semelhante ou inferior ao de uma alternativa de gestão passiva atrelada ao mesmo mercado, ele perde a sua razão de ser.
Uma forma prática de organizar essa avaliação é adotar a estratégia conhecida como "Core-Satellite" (Núcleo e Satélite).
Nesta metodologia, frequentemente estruturada por um planejador financeiro, a maior parte da carteira (o Núcleo) é alocada em veículos passivos, altamente diversificados e de baixo custo.
Apenas uma parcela menor do patrimônio (os Satélites) é direcionada para fundos de gestão ativa mais caros.
A regra de ouro é: o fundo "satélite" precisa comprovar, através de sua tese e histórico, capacidade técnica para entregar retornos superiores que justifiquem seu preço, trazendo resultados descorrelacionados do núcleo da carteira.
Por fim, a avaliação de valor vai além da matemática financeira e adentra os objetivos de vida de cada família.
Um fundo pode ter uma rentabilidade líquida excelente, mas se possui um prazo longo de resgate (como a liquidação em 60 dias) e precisamos daquele recurso para uma reserva de emergência de acesso imediato, o veículo perde a sua utilidade prática.
Da mesma forma, a incidência de obrigações tributárias, como o sistema de "come-cotas" em determinados fundos, deve ser calculada, pois afeta diretamente a eficiência fiscal do investimento ao longo dos anos.
A função de um planejador financeiro certificado CFP® é justamente alinhar a seleção técnica dos ativos ao horizonte temporal e perfil de risco do cliente.
O valor de um fundo é medido pela sua eficiência em cumprir o seu papel dentro do planejamento: seja proteger o patrimônio a um baixo custo ou buscar a multiplicação de capital superando os índices.
Quando o resultado líquido pós-taxas for proporcional à excelência dessa entrega, o fundo terá, sem dúvidas, provado o seu valor.
Jackson Roberto Kohn é planejador financeiro pessoal e possui a certificação CFP® (Certified Financial Planner), concedida pela Planejar - Associação Brasileira de Planejamento Financeiro.
E-mail: contato@jacksonkohn.com.br
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