Comemoração de Enzo Fernández foi racista? Entenda a origem do gesto que provocou desinformação nas redes

Comemoração de Enzo Fernández foi racista? Entenda a origem do gesto que provocou desinformação nas redes

Fonte: Bandeira



A comemoração de Enzo Fernández depois do gol contra a Inglaterra passou a circular nas redes sociais acompanhada da acusação de que o argentino teria imitado um macaco.

O gesto, porém, possui uma origem conhecida e um significado completamente diferente no futebol sul-americano.

Ao colocar as mãos abertas atrás das orelhas, o volante reproduziu o chamado “Topo Gigio”, usado como resposta a críticas e provocações.

A desinformação ganhou força por causa do histórico do próprio jogador, que pediu desculpas em 2024 depois de participar de um cântico racista e transfóbico contra atletas da seleção francesa.

O gesto feito por Enzo pode ser dividido em dois movimentos.

Primeiro, ele levou as mãos às orelhas, como se perguntasse se ainda havia alguém falando.

Depois, aproximou os dedos da boca, numa representação de alguém que fala demais.

As duas partes transmitem praticamente a mesma mensagem: “continuem falando” ou “quero ouvir o que vocês têm a dizer agora”.

Trata-se de uma celebração provocativa, mas sem significado racial conhecido.

Comemoração faz referência ao personagem "Topo Gigio"

Montagem

Personagem infantil

Na Argentina, as mãos atrás das orelhas remetem imediatamente ao “Topo Gigio”.

O nome vem do personagem infantil criado na Itália em 1958, um ratinho de grandes orelhas que fez sucesso na televisão de diversos países, inclusive Argentina e Brasil.

A associação com o futebol nasceu décadas depois e tem data, personagem e contexto bem definidos.

Em 8 de abril de 2001, Juan Román Riquelme marcou na vitória do Boca Juniors por 3 a 0 sobre o River Plate e correu em direção ao camarote de Mauricio Macri, então presidente do clube.

O jogador vivia uma disputa com a diretoria por sua valorização e colocou as mãos atrás das orelhas diante do dirigente.

Publicamente, afirmou que imitava o Topo Gigio porque sua filha gostava do personagem.

O contexto transformou a explicação numa ironia: o gesto entrou para a cultura do futebol argentino como uma maneira de desafiar dirigentes, adversários e críticos.

A celebração ganhou repercussão mundial na Copa de 2022.

Depois de marcar contra a Holanda nas quartas de final, Lionel Messi parou diante do banco adversário e repetiu o Topo Gigio.

A provocação era dirigida ao técnico Louis van Gaal, que fizera comentários sobre o argentino antes da partida e tivera uma relação conturbada com Riquelme no Barcelona.

Messi mais tarde disse ter se arrependido da reação impulsiva, mas em nenhum momento o episódio foi associado a uma manifestação racial.

Enzo repetiu esse repertório após empatar a semifinal contra a Inglaterra.

As imagens mostram que ele iniciou a comemoração de frente para o setor ocupado pelos argentinos.

A imprensa de seu país interpretou os gestos como uma resposta a quem havia diminuído a campanha da seleção, aos ex-jogadores ingleses que provocaram os argentinos antes da partida ou aos críticos de seu desempenho na Copa.

O volante não esclareceu publicamente a quem se dirigia, mas não há elemento visual ou contextual que permita definir a comemoração como racista.

Episódios discriminatórios

Parte da confusão também parece vir da sobreposição com acontecimentos distintos.

Torcedores argentinos foram registrados fazendo imitações de macaco para pessoas negras durante a Copa, episódios inequivocamente racistas e sem relação com o Topo Gigio de Enzo.

Também circulou a informação de que o Chelsea teria apagado uma publicação com a comemoração por considerá-la discriminatória.

A reação dos torcedores ingleses, no entanto, ocorreu porque um clube da Inglaterra celebrava em suas redes o gol que ajudou a eliminar a seleção do país.

O histórico de Enzo Fernández contribuiu para que a interpretação falsa encontrasse terreno fértil.

Depois do título argentino na Copa América de 2024, o jogador transmitiu pelas redes sociais um cântico com referências racistas e transfóbicas aos franceses de origem africana.

O Chelsea abriu um procedimento disciplinar, companheiros de equipe repudiaram o episódio e Enzo reconheceu que a música continha linguagem ofensiva, pediu desculpas pública e internamente e fez uma doação a uma entidade de combate à discriminação.

O episódio de 2024 não deve ser apagado nem amenizado, mas também não transforma automaticamente qualquer gesto posterior do jogador em racismo.

No caso da semifinal, a origem documentada da celebração, sua reprodução por diferentes atletas e o contexto em que foi usada apontam para uma provocação futebolística.

Confundir o Topo Gigio com uma imitação racista não ajuda a combater a discriminação: apenas coloca uma acusação sem fundamento ao lado de casos reais que precisam ser reconhecidos e enfrentados.