As eleições de 2026 se encerram neste domingo marcadas por um recorde de judicialização e, a exemplo de disputas anteriores, com ações no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) com acusações que, caso confirmadas, podem impor um revés ao candidato eventualmente eleito. São 25 processos desse tipo, chamados de ações de investigação judicial eleitoral (Aijes), que questionam desde a utilização de uma suposta "rede de desinformação" para favorecer o presidente Luiz Inácio Lula da Silva até pedidos para investigar se houve favorecimento a Flávio Bolsonaro por plataformas de redes sociais.
O número de processos relacionados às campanhas presidenciais, porém, é bem maior e chegou a 1.476, alta de 143% em 2026 em relação às eleições anteriores, há quatro anos. O cálculo inclui, além das Aijes, representações e pedidos de direito de resposta.
No mesmo período, em 2022, foram contabilizadas 607 ações. Em 2018, a Corte eleitoral recebeu 272 processos no mesmo intervalo de tempo.
O levantamento feito pelo GLOBO considera apenas os processos envolvendo os candidatos que disputam o segundo turno e as respectivas coligações. Do total, 51% das ações identificadas envolvem um embate direto entre as campanhas, o equivalente a 756.
As equipes jurídicas de Lula e Flávio estimam se enfrentar em pelo menos mil processos, número que considera os processos relacionados aos partidos e federações dos candidatos. Os dados mostram ainda que a maior judicialização da campanha partiu do lado de Flávio Bolsonaro.
A campanha do senador apresentou 624 processos ao TSE, seja por meio de seu partido, o PL, ou por iniciativa da própria candidatura. Lula, por sua vez, entrou com 473 ações na Corte eleitoral.
O presidente é alvo de 430 processos. O senador foi acionado em 378 casos.
Tradicionalmente, o TSE não julga todos os casos que chegam ao tribunal durante a campanha, priorizando o que é mais urgente. Uma contestação por uma propaganda na TV ou no rádio, por exemplo, fica pelo caminho caso não seja julgada durante o período eleitoral.
Mas, nos casos das Aijes, essa análise extrapola as eleições e costuma ser feita nos meses seguintes. Foi em uma ação desse tipo que o TSE declarou, por exemplo, a inelegibilidade do ex-presidente Jair Bolsonaro.
O processo que levou à condenação foi movido em agosto de 2022. Quase um ano depois, em junho de 2023, o ex-chefe do Executivo foi condenado por abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação durante reunião em que atacou as urnas eletrônicas diante de embaixadores.
A campanha de Lula levou à Corte sete ações de investigação judicial eleitoral contra Flávio. O senador apresentou oito pedidos similares contra o petista.
Os outros processos foram apresentados por outros partidos e por deputados. Lula é alvo de 12 dos questionamentos.
Os outros 13 atingem o senador Flávio Bolsonaro. Uma das principais ações movidas pela campanha de Lula contra Flávio trata de uma suposta atuação sistemática das plataformas, em especial a Meta, em benefício do candidato do PL.
A campanha diz que o algoritmo da plataforma supostamente ampliou o alcance de Flávio nas redes, mas, por outro lado, restringiu postagens em benefício do presidente. Também cita o tratamento diferenciado dado aos candidatos pela inteligência artificial da Meta.
Do outro lado, o processo de maior repercussão apresentado pela campanha de Flávio questiona o canal de WhatsApp "Exército do Lula". A equipe do senador sustenta que o grupo teria sido usado para espalhar desinformação sobre ele.
Também são questionadas as "missões" distribuídas pelo deputado André Janones (Rede-MG), sob o argumento de que teria sido montada uma estrutura para ampliar o alcance dos conteúdos divulgados pelo deputado. O questionamento do PL ao "Exército do Lula" trata de suposto uso indevido dos meios de comunicação social em benefício do petista, com pedido de cassação de seu diploma.
Já a ação movida pela campanha do presidente atribui a Flávio suposto abuso de poder econômico e uso indevido dos meios de comunicação social, também pedindo a cassação da chapa do senador. Esses processos, no entanto, costumam demorar mais tempo para serem julgados, já que é preciso que sejam produzidas uma série de provas sobre as acusações.
No caso do ex-governador do Rio, Cláudio Castro, por exemplo, a ação foi movida em dezembro de 2022 e julgada pelo Tribunal Regional Eleitoral em maio de 2024. O TSE só deu a palavra final sobre o caso no início deste ano.
Estoque de processos O TSE chegou à reta final das eleições de 2026 sem analisar mais da metade das representações envolvendo as campanhas de Lula e Bolsonaro.
De 355 representações levadas ao TSE contra as campanhas desde o começo do ano até o dia do primeiro turno, 51% não foram analisadas antes do dia 4 de outubro. Em entrevista ao GLOBO, Nunes Marques reconheceu a incapacidade do TSE de analisar todos os casos das eleições de 2026, atribuindo essa dificuldade a uma "demanda extraordinária" que a Justiça Eleitoral recebeu, e disse que a Corte "julgou como nunca".
— A gente está fazendo um esforço, estamos abrindo plenário extraordinário para tentar levar o máximo de processos para referendo, mas eu só posso trabalhar com o que vier liberado — afirmou ele. Processos administrativos e planos de conformidade
Além do estoque recorde de processos judiciais neste ano, o TSE vai ter que lidar, no pós-eleições, com a repercussão das decisões administrativas tomadas por Nunes Marques. Foi em resposta a um pedido administrativo que o presidente da Corte chegou a suspender o canal "Exército do Lula".
Na ocasião, o ministro invocou poderes que lhe foram concedidos por resolução, aprovada neste ano, que tratou dos planos de conformidade das plataformas. Esses planos consistem em uma série de regras que as big techs se comprometeram a adotar nestas eleições para evitar desinformação e outros impactos nocivos ao pleito.
Quando eles foram instituídos, especialistas comemoraram a imposição de limites às redes sociais, mas alertaram para uma concentração dos poderes na Presidência do TSE. Uma ala da Corte defende que as decisões de Nunes Marques nesses processos administrativos precisam ser levadas ao plenário.
Além disso, no final do ano, as empresas de tecnologia que firmaram os compromissos terão de apresentar relatórios de suas ações, que serão analisados pelo TSE.
O Globo