Grandes varejistas e empresas da construção civil, altamente ligadas à demanda doméstica, têm subido bem acima do Ibovespa, principal indicador da B3, numa velocidade até três vezes o ritmo da bolsa, e influenciado positivamente a carteira de ações do Icon, o Indicador de Consumo.
Enquanto o Icon avança 12% por volta das 16h, e o Ibovespa 8,68%, os papéis do Magazine Luiza se valorizam 26%, os da C&A, 22,3% e os da Renner, 20,5% — todas ações que fazem parte do principal índice da B3.
Também no varejo alimentar, em papéis do principal indicador da B3, as altas são representativas: Assaí avança 17,7% e Mateus, 9,7%.
A valorização das ações ao longo do pregão desta segunda-feira (5) tem feito as cotações se descolarem para acima do preço-alvo definido pelos analistas, ou para patamar próximo dos seus últimos relatórios, o que indica possibilidade futura de revisão dos preços por parte do mercado.
Para Magalu, cotada nesta tarde a R$ 9,62, essa cotação atual está acima do último preço alvo de 2026 da análise do Safra e da Ágora Investimentos (R$ 6), e próxima do BB Investimentos (R$ 9,60) e do Itaú BBA (R$ 10).
A C&A, cotada nesta tarde a R$ 12,60, tem como preço-alvo de 2026, na análise do Safra o valor de R$ 15,50 e para a Ágora Investimentos, R$ 15.
No setor da construção, a ação da MRV acelerava 16% por volta das 15h30, a da Plano&Plano 21,5%, e da Cury, 11,70%.
Ainda nesta tarde, os papéis de shopping centers também avançam acima do Ibovespa, com as ações mais resilientes numa alta mais forte — a ação de Multiplan se valoriza 11,7% nesta tarde e a da Iguatemi, 10,3%.
A expectativa de que o país se comprometa com um ajuste fiscal mais robusto dentro de um governo mais liberal do candidato Flávio Bolsonaro (PL), e que isto possa dar início a um processo de redução das taxas de juros básicas de forma mais consistente, fez as ações de empresas ligadas ao setor de consumo e demanda local acelerarem. Esses segmentos vêm, desde 2021, amargando o peso dos juros em dois dígitos — depois de o governo avançar com uma política de aceleração no gasto público — a ponto de empresas locais caminharem com alta alavancagem levando a pedidos recordes de recuperação judicial e extrajudicial.
Falta de visão Na avaliação de empresários ligados ao comércio varejista ouvidos ontem pelo Valor, houve uma “onda azul” no país que ganhou força com o eleitorado pressionado pelo aumento do endividamento e pelo desejo de mudança na condução da política econômica do país, e isto ajuda a explicar a vitória de Bolsonaro em primeiro turno.
A “onda azul” relatada por um presidente de uma rede de comércio ganhou força em decorrência de uma postura equivocada do presidente da República, que jogou boa parte das fichas no fortalecimento de programas sociais antes das eleições e não entendeu o peso do custo político da alavancagem das famílias, e da alta dos juros, que é fruto do desequilíbrio das contas públicas, afirma ele.
A expectativa de empresários ouvidos é de que nas próximas semanas se aprofunde o debate em torno das propostas dos dois candidatos, mas Lula terá trabalho maior no sentido de fazer um “mea culpa” em relação à postura adotada na primeira fase da campanha, afirmam eles.
“Flávio sai mais fortalecido do primeiro turno, especialmente porque é raro vermos um vencedor de primeiro turno perdendo a eleição. Ele deve dar força maior ao discurso em torno da política liberal que vem defendendo, além de ser esperado que ele dê mais detalhes sobre a equipe econômica e as primeiras medidas fiscais que deve tomar caso vença. Já Lula tem um trabalho árduo pela frente”, disse o CEO de uma rede varejista.
“Se Lula tentar repetir o discurso que já vem promovendo e dobrar a aposta, de negar a importância de um ajuste fiscal sério, de vir novamente defendendo um modelo econômico focado no aumento dos gastos que vem se mostrando esgotado, vai ser um tiro no pé”, afirma o executivo.
A dúvida dos empresários é como Lula irá ajustar o seu discurso nesse processo e quais cartas ele pode tirar da manga nas próximas semanas. “O avanço da pauta da escala 6x1, que sofre críticas das varejistas, e que o Senado quer destravar, fica no grupo das medidas mais eleitoreiras que devem ganhar corpo nas próximas semanas, num esforço de reação”, diz o executivo.
Na visão de um CEO de uma cadeia de varejo alimentar, o crescimento da rejeição ao Supremo Tribunal Federal nas últimas semanas, depois dos últimos eventos envolvendo as investigações do Banco Master que afetaram a imagem dos membros da corte, impulsionou os votos na direita. E também podem ter feito crescer o total de votos no Senado nos candidatos ligados à direita.
Além disso, o chamado “voto envergonhado” e o “voto útil” na direita pode ter crescido nos últimos dias, e há possibilidade de ter ocorrido uma migração de votos de eleitores de outros candidatos, como Augusto Cury (Avante) e Renan Santos (Missão), para Flávio Bolsonaro, disse o executivo. “Minhas lojas atendem consumidores de classe alta e baixa, e víamos uma possibilidade de uma virada no Legislativo para a direita, com as pessoas descontentes, mas essa virada na candidatura à presidência é surpreendente”, disse ele.
Valor