Com mostra de série Lunar em cartaz no Rio, Anna Bella Geiger apresenta na ArPa obras em conjunto com Ana Hortides
Aberta ao público até domingo (31), a feira ArPa, realizada na Mercado Livre Arena Pacaembu, na Zona Oeste de São Paulo, promove um encontro entre gerações no Setor Base, no Ginásio Poliesportivo do estádio. Nele, artistas consagrados convidam nomes com quem tenham estabelecido uma relação pedagógica para uma exposição conjunta. Caso de Iole de Freitas com artistas da Escola Viva Guarani, e de Anna Bella Geiger e Ana Hortides. Além das obras mostradas no espaço, os encontros de desdobram em debates no local, como os realizados na última quinta-feira (29) pelas duas duplas.
— Trouxe alguns trabalhos que representam paisagens da China, de montanhas que descobri que têm o mesmo tempo geológico de algumas no Brasil — explica Anna Bella, aos 93 anos. — Eu pensei nas obras da Ana Hortides para trabalhar essa ideia de diferentes paisagens, também na escultura.
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Ex-aluna de Anna Bella na Escola de Artes Visuais (EAV) do Parque Lage, Ana Hortides, de 37 anos, apresenta esculturas criadas com material de construção, como azulejos partidos, em composições inspiradas na arquitetura vernacular comum às casas de periferia, como o raio-que-o-parta paraense.
— A Anna Bella vai para uma geografia mais ampla e eu falo mais de Brasil, mas estamos abordando diferentes tipos de paisagem. A minha passa pelo subúrbio, pelas memórias afetivas — detalha Ana. — Fiz aula há mais de 10 anos com a Anna Bella, e a gente segue trocando até hoje.
Anna Bella Geiger com um de seus Macios
Ana Branco
A conversa entre as duas foi mediada por Gabriela de Laurentiis, que acaba de lançar o livro “Anna Bella Geiger — A imaginação é um ato de liberdade” (Sobinfluência Edições). Além das obras mostradas na ArPa, a artista está em cartaz no Rio com a individual “Como vender a Lua”, que segue na Danielian, na Gávea, até o fim de junho. Com curadoria de Marcus de Lontra Costa e Rafael Fortes Peixoto, a mostra reúne trabalhos de sua Fase Lunar, na qual a artista trabalhou a partir de fotografias do solo do satélite feitas pela Nasa em 1969, na missão Apollo 11, conseguidas no consulado americano.
— Como todo mundo na época, fiquei fissurada naquela superfície lunar, nas crateras. Fiquei trabalhando em cima daquelas fotos alguns anos, só em 1972 eu comecei a mostrar a série. As fotos que não eram aprovadas pela Nasa vinham com um X em cima, incorporei isso ao trabalho — recorda a artista. — Na época da ditadura, o que não poderia dizer aqui na Terra, coloquei, de uma forma sutil, na Lua. E trabalhando com essas polaridades, como certo/errado, centro/periferia.
A galeria carioca reúne o maior conjunto de obras da série em uma única exposição. Além de obras inéditas, criadas por Anna Bella para a mostra, foi desenvolvido um vídeo contextualizando o período em que a artista trabalhou a partir das imagens da Nasa.
— O vídeo não traz apenas a chegada do homem à Lua, mas também a Guerra no Vietnã, o período de arbítrio de ditadura. Muito do que ela incorpora na série se desdobra na ideia de território livre que ela vai trabalhar depois — analisa Lontra.
Obra da Série Lunar
Divulgação
Peixoto destaca as várias técnicas usadas pela artista ao longo da série, como a serigrafia, a gravura, a escultura em tecido e a encáustica (a última em múltiplos criados para a mostra):
— Nos anos 1970, a Anna Bella desenvolveu um processo de manipulação que misturava técnicas misturando gravura e serigrafia, dois processos muito difíceis de serem feitos simultaneamente. Para a gravação em metal ela conseguia chapas na gráfia do jornal O Dia.
