O Nordeste se tornou uma das principais frentes de atuação da campanha de Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno, que segue 30 pontos atrás de seu rival na região, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), segundo a pesquisa Quaest divulgada nesta quarta-feira. O petista segue com 61% das intenções de voto, enquanto Flávio oscilou para baixo de 32 para 31%.
Além de intensificar as viagens pela região, o senador investiu em uma comunicação direcionada ao eleitorado nordestino e conta com a participação de seu vice, Alfredo Gaspar, alagoano que também percorreu estados da região em busca de apoio à chapa.
Nesse périplo, Flávio chegou a prometer a construção de uma ferrovia de 1.400 quilômetros que ligaria sete capitais nordestinas, projeto batizado por ele de “Trem do Nordeste”. A estrutura conectaria Salvador, Aracaju, Maceió, Recife, João Pessoa, Natal e Fortaleza, embora o candidato não tenha especificado como colocaria a proposta de pé caso eleito. Flávio esteve em Fortaleza nesta quarta-feira. A estratégia em discursos incluiu mensagens sobre segurança pública, economia e críticas ao governo Lula. A promessa de manter benefícios sociais, como o Bolsa Família, também integra o discurso do senador, em resposta às acusações do presidente de que um eventual governo do PL poderia ameaçar programas sociais. A mobilização não se limita às viagens do candidato e de seu vice. O deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), empenhado na campanha de Flávio neste segundo turno, tem promovido uma série de “bloquinhos” de apoio ao senador, em formato semelhante ao de comícios, inclusive no Nordeste. A agenda ainda prevê atos no Recife nesta quinta-feira e em Fortaleza na sexta-feira, ampliando a presença de aliados do candidato nas ruas. Nikolas também esteve no centro de uma polêmica explorada por apoiadores bolsonaristas nas redes sociais. Uma peça de campanha divulgada na terça-feira, com depoimentos de nordestinos que relatam problemas como insegurança e falta de água e fazem críticas ao governo Lula, ficou sem áudio por uma questão de direitos autorais da música utilizada. Após a retirada do som, apoiadores passaram a explorar o episódio com a narrativa de que a região estaria sendo “silenciada”. A repercussão chegou ao canal “Tropa do Flávio”, grupo de apoiadores do senador que atua na divulgação de conteúdos favoráveis à candidatura, em dinâmica semelhante à do Exército do Lula. Em uma mensagem no canal, Gustavo Gayer, senador eleito por Goiás, convocou os participantes a reforçar a pauta regional e compartilhar vídeos enviados por apoiadores. — A gente está começando um movimento de dar voz ao povo nordestino. Várias pessoas estão gravando vídeos e nos marcando. Eu vou jogando aqui (no canal) e nossa missão é disparar esses vídeos — disse Gayer. A esquerda, por sua vez, passou a explorar a disputa pela representação do Nordeste para associar o bolsonarismo a declarações depreciativas sobre a região e seus habitantes. O deputado Guilherme Boulos (PSOL-SP) publicou no X uma crítica à aproximação de Flávio com o eleitorado nordestino durante a campanha. “Sempre atacaram e humilharam os nordestinos. Agora, na campanha eleitoral, usam chapéu de vaqueiro e querem os votos do Nordeste. A resposta será nas urnas no domingo!”, escreveu Boulos. Na mesma publicação, ele compartilhou um vídeo com a frase “Nestas eleições, não se esqueça quem odeia o Nordeste”. A peça reúne trechos de declarações de Jair Bolsonaro e outros aliados criticando estados da região, como Maranhão e Bahia.
A disputa pela narrativa regional ocorre em um cenário de forte vantagem de Lula. Na pesquisa Quaest divulgada nesta quarta-feira, o presidente manteve uma dianteira de 30 pontos percentuais. No Sudeste, onde está o maior eleitorado do país, o senador aparece à frente, com 48%, contra 39% de Lula. O levantamento também mostra a força do petista entre os eleitores de menor renda. Lula tem 51% das intenções de voto entre os brasileiros que recebem até dois salários mínimos, ante 37% de Flávio.
O Globo