Com longas de R$ 1.000, jovens cineastas ignoram editais e apostam na liberdade criativa e no espírito de guerrilha

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

Nova produção da Mbvideo (ou MBV), um coletivo independente carioca, o filme “Amante difícil” custou R$ 1.200. Um trocado, em comparação com o orçamento médio de um longa-metragem brasileiro, na faixa de R$ 8 milhões a R$ 25 milhões.

Com exibição única nesta sexta-feira 16 , às 18h30, na Cinemateca do MAM, no Centro do Rio, o filme segue a fórmula dos outros lançamentos da produtora: linguagem experimental, equipe reduzida, muitas locações externas e espírito de guerrilha. O baú de Verissimo: exposição e livros póstumos marcam homenagens ao mestre do humor, que completaria 90 anos

Último livreiro de Bangu resiste ao digital e segue formando gerações de leitores: 'Estou remando contra a maré' Atrás e na frente da câmera, o trabalho funciona como uma ação entre amigos, todos nascidos depois de 2000.

É a quarta colaboração do diretor João Pedro Faro, de 24 anos, e do produtor e roteirista Bruno Lisboa, de 26, com o ator Miguel Clark, de 25, e a primeira com a atriz Joana Liberato, de 24. Miguel Clark em 'Amante difícil'

Divulgação Espelhando-se no udigrudi de Rogério Sganzerla e Júlio Bressane e no êxtase estético do multiartista Arthur Omar, o grupo transforma a falta de recursos em liberdade criativa, que se reflete na trama e no estilo de composição.

A sinopse cabe em uma frase: Miguel conta a Joana os acontecimentos da noite anterior, após perambular pela cidade guiado por enigmas e um mapa labiríntico. Em 87 minutos, mistura mistério, surrealismo, poesia urbana e texto existencial em voice-over (para driblar as dificuldades de som).

— Se houvesse um tópico para nossa produção, seria: fazemos filmes como vivemos a vida e vivemos a vida como fazemos filmes — define João Pedro Faro. — O filme se faz às vezes se encontrando com seus amigos, seja na sua casa, seja na casa deles, às vezes filmando na rua sem autorização.

A gente olha ao redor e acha essa brecha onde o cinema acontece. O importante é dar o máximo de si mesmo, sem esperar glamour, prêmio, reconhecimento, porque isso só gera frustração.

Cidade como playground Apesar do ritmo frenético de produção (desde 2021, foram lançados os longas “Sombra”, “Extremo Ocidente” e “Paixão sinistra”, além de diversos curtas), a distribuição da MBV segue restrita.

Os trabalhos não chegaram ao circuito comercial, mas circularam em festivais importantes e tiveram exibições em salas alternativas. Antes da sessão na Cinemateca do MAM, espaço que vem servindo de ponto de encontro entre cineastas independentes e experimentais da mesma faixa etária, “Amante difícil” ganhou recepção calorosa na 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes, em janeiro deste ano.

O filme “Amante difícil” estreia um novo recurso técnico do grupo. Em 2024, após anos operando uma câmera barata comprada na internet, a MBV ganhou uma Vixia HF do produtor William Plotnick (do Festival Cinelimite), garantindo maior qualidade para registros com com pouca luz.

E mais da metade do novo longa se concentra na errância noturna do protagonista, transformando a cidade numa espécie de playground narrativo. Como todos na equipe têm trabalhos paralelos, as filmagens aconteceram aos fins de semana, em bairros como Centro e Tijuca.

O plano mais caro do filme, onde aparece uma moto, custou R$ 100. Em um dos takes, Faro, que operava a câmera, se escondeu num valão de esgoto para fugir de um assalto.

Sem autorização da prefeitura, os jovens cineastas usaram a tática “faz antes, pede desculpas depois” com a fiscalização. — Quando alguém pergunta o que estamos fazendo, a gente responde que é trabalho de faculdade — brinca Faro.

— Teve uma vez que um segurança perguntou se a gente era “topógrafo”. Na hora não entendi e respondi: “Não, não, é amador mesmo.” No fim, ele disse para tomar cuidado, porque um topógrafo tinha sido esfaqueado ali mesmo na noite anterior.

Produções isoladas Clark nunca havia atuado antes de ser chamado por Faro em “Sombra”.

Hoje, o diretor pensa todos os seus longas a partir de seu ator favorito — e de tudo que acontece ao redor do grupo. — João viu algo que eu mesmo não sabia, que eu poderia me tornar o front man desses filmes — diz Clark.

—Ao ler este último roteiro, vi que tinha várias coisas da De vez em quando, porém, essas “ilhas” criativas se encontram para fazer filmes. Em 2024, a MBV colaborou com outra jovem produtora independente, a Carrovéu, no curta “Instruções para o barco”.

Faro, Lisboa e Clark atuam no filme dirigido por Vinícius Dratovsky, sobre um crítico de arte contratado por uma misteriosa galerista para investigar o trabalho de um artista recluso. — Acho que, em comum, a Carrovéu e a MBV buscam essa possibilidade de estruturar a produção como um sentido natural da vida, ou seja, de ter uma produção contínua em que um está sempre ajudando o outro —diz Dratovsky, de 22 anos.

—Fazer um simples plano exige um trabalho imenso e dá para sentir as marcas desse trabalho coletivo a todo momento. Isso faz a gente pensar o cinema não como um valor monetário, mas como uma possibilidade artística com diversos níveis de produção e experimentação.

Sem editais e patrocínios Fundada em 2022, pouco depois da MBV, a Carrovéu é composta por Dratovsky, Pedro Almeida, Matheus Zenon e Paula Mermelstein.

Assim como “Amante difícil”, o primeiro longa do grupo, “A voz da virgem”, também estreou na última Mostra de Tiradentes. Com direção de Almeida e fotografia de Dratovsky, a obra usa uma linguagem barroca e sensorial e faz referências à poesia simbolista de Cruz e Sousa.

Outro filme de Almeida, o média-metragem “Rainha da noite” entrou recentemente na plataforma do Globoplay. Sem tempo para esperar por editais e patrocínios, MBV e Carrovéu vêm se aperfeiçoando na técnica de produzir cada vez mais com cada vez menos.

— Ninguém quer fazer filme sem recursos, mas diante da forma como o financiamento se organiza hoje não dá para ficar sentado esperando. Cinema é que nem ir para a academia e puxar peso, tem que ter prática, senão você não consegue refinar sua expressão, encontrar sua linguagem — diz Pedro Almeida.

— Bressane falou uma vez para a gente: a produção de um filme é o que determina a textura da imagem. Não faz sentido para nós tentar replicar de forma inferior um modelo imposto de cinema comercial, de causa e efeito, plano e contraplano etc.

Temos que adaptar o cinema às nossas próprias condições.inha vida, cenários, amigos e minha namorada (Joana). Achei curioso usar um retrato da minha vida em uma história de mistério.

A MBV começou como uma evolução natural das conversas de Faro e Lisboa sobre cinema. Recém-saídos da adolescência, eles juntaram seus desejos por um cinema autônomo e artesanal.

Os encontros na Cinemateca do MAM foram atraindo mais colaboradores, ou simples amigos que passaram a acompanhar suas produções. — Óbvio que dá para encontrar, no Brasil e no mundo, projetos com os quais a gente se identifica, mas não vejo isso como parte de um movimento, ou como algo que está em diálogo — avalia Lisboa, o único no grupo formado em cinema.

— Com ou sem dinheiro, as produções estão muito isoladas umas das outras. Essa ideia de cena não existe.

Muito porque os programadores tomaram de assalto o debate sobre o cinema no Brasil, e os cineastas sobraram. Cena de "A voz da virgem", de Pedro Almeida

Divulgação Produção contínua

De vez em quando, porém, essas “ilhas” criativas se encontram para fazer filmes. Em 2024, a MBV colaborou com outra jovem produtora independente, a Carrovéu, no curta “Instruções para o barco”.

Faro, Lisboa e Clark atuam no filme dirigido por Vinícius Dratovsky, sobre um crítico de arte contratado por uma misteriosa galerista para investigar o trabalho de um artista recluso. — Acho que, em comum, a Carrovéu e a MBV buscam essa possibilidade de estruturar a produção como um sentido natural da vida, ou seja, de ter uma produção contínua em que um está sempre ajudando o outro —diz Dratovsky, de 22 anos.

—Fazer um simples plano exige um trabalho imenso e dá para sentir as marcas desse trabalho coletivo a todo momento. Isso faz a gente pensar o cinema não como um valor monetário, mas como uma possibilidade artística com diversos níveis de produção e experimentação.

Fundada em 2022, pouco depois da MBV, a Carrovéu é composta por Dratovsky, Pedro Almeida, Matheus Zenon e Paula Mermelstein. Assim como “Amante difícil”, o primeiro longa do grupo, “A voz da virgem” também estreou na última Mostra de Tiradentes.

Com direção de Almeida e fotografia de Dratovsky, a obra usa uma linguagem barroca e sensorial e faz referências à poesia simbolista de Cruz e Sousa. Outro filme de Almeida, o média-metragem “Rainha da noite”, entrou recentemente na plataforma da Globoplay.

Sem tempo para esperar por editais e patrocínios, MBV e Carrovéu vem se aperfeiçoando na técnica de produzir cada vez mais com cada vez menos. — Todos os cineastas do país sentem a demora dos mecanismos de edital, que podem atrasar a produção de um filme em anos —diz Dratovsky.

— Para nós, o ideal é construir um filme conforme o andamento natural de uma ideia, com uma energia especial que não depende de solicitações que estão além do nosso controle. Tentamos não ficar parados, sempre participando do filme um do outro, porque o cinema exige prática, não apenas teoria.

Publicação Original O Globo oglobo.globo.com
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